quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Quantos “baruscos” mais?

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 14/01/2014

  A Sete Brasil foi criada em 2010 pelo governo e pela Petrobras para fornecer sondas para exploração de petróleo da camada pré-sal, favorecida pela legislação de reserva de mercado


O Palácio do Planalto move mundos e fundos para evitar que os acionistas da Sete Brasil peçam a recuperação judicial da empresa, que é uma das protagonistas do escândalo da Petrobras. As articulações seguem a orientação direta da presidente Dilma Rousseff, empenhada em salvar as empresas envolvidas na Lava-Jato, com a desculpa de que são os CPFs — e não os CNPJs (pessoas jurídicas) — que devem ser tirados de circulação, para preservar os empregos e retomar o crescimento.

Por tudo o que se apurou até agora, a Sete Brasil é a síntese dos malfeitos do pré-sal. Parece até que a ideia de sua criação tenha sido o fabuloso negócio, relatado pelo ex-diretor Internacional da Petrobras Nestor Cerveró em sua delação premiada, entre a Schahin Engenharia e a Petrobras, para contratação de um navio sonda por US$ 1 bilhão. Foi a forma de pagamento do empréstimo concedido pelo banco Schahin ao fazendeiro José Carlos Bumlai, no valor de R$ 6 milhões, que teriam sido repassados ao empresário de Santo André Ronan Maria Pinto, um dos envolvidos no assassinato do prefeito petista Celso Daniel.

Oficialmente, a Sete Brasil foi criada em 2010 pelo governo e pela Petrobras para fornecer sondas para exploração de petróleo da camada pré-sal, favorecida pela legislação de reserva de mercado para empresas fornecedoras de tecnologia e pelo regime especial de contratação que flexibilizou a lei de licitações, no caso da petroleira. O primeiro presidente da empresa foi o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, um dos primeiros a fazer delação premiada. Ele devolveu espontaneamente US$ 100 milhões desviados da empresa, o que passou a ser uma unidade de custos no jargão dos petroleiros. Quando se fala em dívidas e investimentos, os funcionários perguntam: custa quantos “baruscos”?

A Petrobras havia encomendado 28 sondas para exploração do pré-sal, mas a empresa revelou-se um poço sem fundo, com uma dívida que hoje chega a R$ 14 bilhões. Com o escândalo e as investigações da Operação Lava-Jato, as empresas acionistas da Sete Brasil e a própria Petrobras possaram a cobrar a entrega das encomendas. Os fundos de pensão Previ, Funcef, Petros, o FT-FGTS, além do BTG Pactual, Bradesco e Santander, correm atrás do prejuízo. No próximo dia 21, os acionistas vão se reunir para decidir o futuro da empresa. O governo tenta salvá-la. A Petrobras reduziu o volume de encomenda de sondas para o pré-sal de 28 para 14, porém, exige aos sócios da Sete Brasil que não processem a estatal pelas perdas em razão da redução do projeto. Os acionistas da Sete não concordaram com a exigência apresentada pela área de Produção e Exploração da companhia. Se não houver acordo, entrarão com pedido de recuperação judicial.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, foi encarregado por Dilma de conduzir as negociações. É preciso uma solução jurídica robusta para que o banco possa liberar recursos do Fundo de Marinha Mercante e de outras fontes destinados ao projeto, cujo valor total pode chegar a R$ 20 bilhões. As negociações dos acordos de leniência com empreiteiras envolvidas na Lava-Jato também são condicionantes, porque algumas das empresas encarregadas de construir os navios estão envolvidas no escândalo e sem isso não poderão ter contratos com a Petrobras.

Megalomania
Os principais credores da empresa — Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Itaú, Bradesco e Santander —, na segunda-feira, decidiram dar mais 120 dias para a Sete Brasil pagar a dívida de R$ 14 bilhões vencida em 2015. É uma missão impossível. Mesmo que consiga levantar parte dos recursos, a empresa tem desafios operacionais difíceis de resolver. É fruto da megalomania do pré-sal e de ilusões desenvolvimentistas: pelas regras da Agência Nacional do Petróleo, a Petrobras só pode ter fornecedores que garantam, no mínimo, 55% de sua produção no país.

A pretexto de cumprir essa exigência, a Petrobras incentivou o surgimento de estaleiros comandados por construtoras brasileiras que nunca haviam feito um navio capaz de extrair petróleo em grandes profundidades. Mesmo tendo sócios estrangeiros, todos atrasaram a entrega das encomendas. É o caso dos estaleiros Enseada, na Bahia, e Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e Atlântico Sul, em Pernambuco, todos com muitas dívidas e dinheiro a receber da Sete Brasil. E algumas delas estão enroladas na Lava Jato.

4 comentários:

Osvaldo Maneschy disse...

Prezado Azedo, na exploração de petróleo em águas profundas, caso do nosso pré-sal, os empregos estão na construção de sondas, plataformas, navios de apoio - todos anteriores a produção de petróleo em si. Um navio plataforma em operação em alto mar, todo automatizado, emprega muito pouca gente. É mais do justificável a tentativa do governo de salvar empresas como a Sete que, é claro, também precisam ser bem administradas. Atrasos são possíveis, o que não se justifica são falcatruas. Por que fazer como FHC que sempre preferiu criar empregos fora do Brasil, fazendo encomendas lá fora? O Brasil precisa se reindustrializar - a indústria já ocupou mais de 20% do PIB brasileiro, e hoje o seu lugar no PIB está na faixa de 12%. O nosso pré-sal, com equipamentos fabricados e construídos no Brasil, gera empregos aqui - não lá fora. Abraço

Michiel Bassul disse...

Prezado Azedo, toda política econômica encetada pelo governo petista se mostrou um fiasco e eles ainda tentam justificar o injustificável.
A Petrobras está vendendo os seus ativos para manter o nível da produção, vez que os investimentos foram a nocaute, ou já o faz para pagar os salários dos petroleiros, estes com privilégios que não podem ser trazidos à luz da razão econômica da empresa?
A "Nova Matriz Econômica", e o seu filhote monstruoso chamado de
"Conteúdo Local " somente produziria algum fruto bom se o nosso Brasil-Brazuela não fosse eivado de corrupção.
Produzir empregos no Brasil é discurso populista se esse emprego for improdutivo e quem o paga ao final é o dinheiro do contribuinte!
Não existe almoço de graça, quando aprenderão isso?

Osvaldo Maneschy disse...

Recomendo ao Michiel Bassul, e a todos, a leitura deste texto maravilhoso do Mauro Santayana, grande jornalista com quem tive a honra de trabalhar no velho JB, no Rio de Janeiro - quando ele era correspondente no Leste europeu. http://www.pdt.org.br/index.php/noticias/mauro-santayana-o-diabo-e-a-garrafa

Luis Lima disse...

Prezado Se Oswaldo Maneschy, li o artigo pelo Sr. recomendado. Achei que o texto segue a linha dos textos que apoiam o governo, recheado de adjetivos e pobre em substantivos. Nenhuma palavra sobre nenhum possível erro dos governos do PT,a tática utilizada é a de não admitir os erros, distorcer e maximizar as críticas de modo a se fazer crer que os críticos pintam um cenário apocalíptico e que as coisas não vão tão mal assim, praticar um determinismo de turbante predizendo que o que virá depois de um possível impeachment será muito pior.O mesmo exercício empregado na campanha para dizer que se Dilma não fosse eleita o Brasil iria acabar. Curioso também é o parágrafo abaixo que se a intenção era fazer a defesa do governo (mostrando o contrário),convenhamos... " Que o Brasil é um país comunista quando pagamos juros altíssimos, e somos, historicamente, dominados, na economia e na política, por um dos mais poderosos sistemas financeiros do mundo, pelo agronegócio e o latifúndio, por bancos e empresas multinacionais."