sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O ara pyau e a soberba oficial

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 27/12/2013

É “republicano” pra lá e pra cá, como se isso fosse sinônimo de democracia, o que é falso, historicamente. Trata-se, muitas vezes, de uma justificativa para decisões autoritárias


O calendário guarani é dividido em duas estações do ano: o ara pyau e o ara ymã, que significam “tempo novo” e “tempo velho”, respectivamente. O primeiro tem calor e fartura de alimentos, começa no equinócio da primavera e termina no equinócio do outono, quando o Sol se encontra sobre a linha do Equador. O melhor do “tempo novo” ocorre no solstício de verão, quando o Sol atinge o maior afastamento para o lado Sul, chegando ao Trópico de Capricórnio, ou seja, em janeiro. É quando os guaranis celebram a colheita do milho e realizam o ritual do batismo.

 Ara ymã é o período de frio e de escassez de alimentos. Começa no outono e termina no equinócio da primavera, quando o Sol se encontra, novamente, sobre a linha do Equador. Ou seja, no ara pyau, o Sol está no hemisfério Sul; no ara ymã , no Norte. O Cruzeiro do Sul rege o calendário guarani: no outono, ele fica deitado no sudeste; no inverno, fica em pé, com seu braço maior apontando para o Sul; na primavera, deitado no Sudoeste; e no verão, só aparece depois da meia-noite, de cabeça para baixo. Os indígenas relacionam os astros com períodos de chuva ou de seca, de calor ou de frio. Associam esses eventos às enchentes, às marés, ao plantio e às colheitas, à caça e à pesca. Há muita ciência em tudo isso, fruto de observações milenares. E também crendices e superstições, nas festas religiosas e nos rituais iluminados pelo céu estrelado.

Recorro à cultura ancestral dos guaranis para tratar da falta de sensibilidade do atual governo com a questão indígena. Embora o Brasil seja a nação mais “traduzida” do mundo — aqui descendentes de árabes e judeus, portugueses e espanhóis, italianos e gregos, franceses e ingleses, russos e alemães, todos preservam suas identidades étnicas —, a identidade étnica dos índios foi apagada nos centros urbanos, sobrevive apenas nas aldeias, embora o guarani até há 200 anos fosse a língua franca do Brasil. Essa falta de sensibilidade com a questão indígena é um sintoma do esgarçamento das relações entre o Estado e a sociedade, talvez o maior já ocorrido desde a redemocratização do país.

Foram sucessivos incidentes entre forças policiais e indígenas ao longo do ano — seja na Esplanada dos Ministérios, na Usina de Belo Monte, na Rio Mais-20, sem falar em conflitos localizados nas próprias reservas indígenas. A ameaça de suicídio coletivo dos guaranis-kaiowas de Mato Grosso do Sul, que reivindicam suas terras sagradas, gerou um movimento de protestos nas redes sociais que foi uma espécie de aviso do que estava por vir: as manifestações de junho passado. Essa insensibilidade para lidar com os nossos indígenas — que lutam por suas terras, sua cultura e sua identidade étnica — não foi muito diferente da revelada pelos prefeitos de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB) – quando eclodiram as manifestações contra os aumentos de passagem dos transportes coletivos. Quanta arrogância, quanta soberba demonstram. A diferença é que já não se tratava de uma minoria étnica, mas de um grande contigente de jovens insatisfeitos com a qualidade de vida de nossas cidades e revoltados com o autoritarismo e a violência policial.

De onde é que vêm a arrogância e a soberba? Ora, do enorme poder que o Estado brasileiro exerce desde os tempos coloniais e de sua secular utilização como instrumento de acumulação de capital, de formação de patrimônio, de preservação de privilégios e de distribuição de benesses. De uns tempos para cá, tornou-se comum, no palavreado das autoridades — de quase todos os escalões —, o uso generalizado das expressões “Estado brasileiro” e “política de Estado” para justificar toda e qualquer decisão, como se o Estado estivesse acima da sociedade e não subordinado a ela numa ordem democrática. É “republicano” pra lá e pra cá, como se isso fosse sinônimo de democracia, o que é falso, historicamente. Trata-se, muitas vezes, de uma justificativa para decisões inopinadas, intervencionistas e voluntaristas do governo. Talvez os nossos índios, que vivem em sintonia com os astros nas suas comunidades primitivas, tenham sido os primeiros a enfrentar, com seus protestos, esse novo Leviatã. 

Hory ma"etyna pyau (feliz ano-novo). Volto em 6 de janeiro.

Um comentário:

José Luiz da Costa Pereira disse...

Belíssimo artigo. "Republicano" é muitas vezes sinônimo de Centralismo Democrático