sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A travessia do deserto

Nas Entrelinhas- Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 13/12/2013

Aécio está convicto de que Dilma será mesmo candidata à reeleição e pode ser derrotada, por causa do seu desempenho à frente do governo, que considera catastrófico           
 
 
Num encontro com 30 jornalistas, quarta-feira à noite, no restaurante Piantella — velho reduto dos políticos em Brasília —, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), esbanjava confiança na sua candidatura a presidente da República. Como se sabe, esse é o primeiro requisito para quem deseja disputar o Palácio do Planalto e convencer os eleitores de que está preparado para isso. Bem-humorado, nada parecia abalar essa convicção. Considera o ex-governador José Serra um aliado precioso, que vai se incorporar à campanha; conta com a lealdade do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, cujo apoio será decisivo. 

Aécio está convicto de que Dilma será candidata à reeleição e pode ser derrotada, por causa do seu desempenho à frente do governo, que considera “catastrófico”. O senador mineiro não acredita na candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora saiba que petistas e aliados conspiram para que volte ao poder em 2014. Confiante de que chegará ao segundo turno, trabalha para que a aliança com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), seu concorrente na disputa, seja consolidada até lá. Ambos se encontraram no domingo passado, num restaurante em Ipanema, no Rio de Janeiro. “Nós estamos conversando sobre a situação nos estados com frequência.”

A maior preocupação de Aécio é com a situação da economia. O tucano deseja conquistar a confiança dos empresários descontentes com o intervencionismo do governo nas atividades econômicas. Para isso, sinaliza que o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o governador mineiro Antonio Anastasia serão os comandantes de sua equipe econômica, caso chegue ao poder. Ambos o acompanharam ontem, em São Paulo, no encontro com 60 peso-pesados da economia e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardozo. Ao contrário de José Serra, que manteve distância regulamentar de FHC nas duas vezes em que foi candidato, Aécio defende o ex-presidente tucano e suas realizações, como a estabilização da economia e o ajuste fiscal. “O que deu certo no governo do PT foi copiado do PSDB; toda vez que eles quiseram fazer diferente, deu errado”, dispara. Refere-se, principalmente, à política de combate à inflação e às privatizações.

O tema da ética será uma questão fundamental na campanha, avalia Aécio, que diz não temer os ataques do PT em relação à gestão de FHC. Prepara antídotos para quase tudo, como fez em relação ao Bolsa Família, ao apresentar projeto de lei que transforma o programa de transferência de renda que marcou o governo Lula em política de Estado. O mesmo pretende fazer em relação aos escândalos que rondam alguns tucanos, como o chamado “mensalão mineiro”, atribuído ao governo Eduardo Azeredo, e ao cartel do Metrô, que tira o sono de Alckmin. “Vou falar muito de ética na campanha”, promete. Ao contrário do PT, que defende os condenados na Ação Penal 470, Aécio lava as mãos em relação aos supostamente envolvidos: “Se tiver alguém do PSDB que recebeu propina e se isso ficar provado, tem que ir para a cadeia também.”

A vantagem da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas é conjuntural, na avaliação de Aécio. O tucano argumenta que ela tem uma exposição na mídia muito maior em relação aos demais candidatos. “Nós precisamos discutir isso, mas acho que a partir de março essa situação deve mudar”. A legislação eleitoral garante espaços iguais nos veículos de comunicação para os candidatos, mas somente após junho. “Eu e Eduardo sabemos que teremos de atravessar o Rubicão, até chegar à comunicação de massa, o que só deve acontecer entre março e abril. Até lá, vai ser uma travessia no deserto. Não tenho ilusão de mudar isso antes de terminar a Copa”, avalia.

Miscelânea

O nome do vice/ O ex-presidente Fernando Henrique Cardozo defende uma chapa “puro-sangue” na disputa presidencial, com a indicação de um vice paulista. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) é o nome mais cotado. Nesse caso, ex-governador José Serra (PSDB) seria candidato a deputado federal ou a senador por São Paulo. 

Espaço vazio/ A disputa eleitoral no Rio de Janeiro, que ainda está em discussão no campo da oposição, abre espaço para uma coalizão PSDB-PSB-PPS-PV-Solidariedade, encabeçada pelo treinador de vôlei Bernardinho, tendo o deputado federal Romário como candidato ao Senado. Seria uma antecipação da possível aliança do segundo turno

Tirou por menos/ O apoio do PPS a Eduardo Campos (PSB) foi minimizado por Aécio Neves. “O Roberto Freire disse que é importante consolidar a candidatura de Campos, para estarmos todos juntos no segundo turno.”

Um comentário:

José Luiz da Costa Pereira disse...

Há muito tempo eu venho dizendo que o PPS de Roberto Freire iria apoiar a candidatura de Eduardo Campos à presidência da República em uma manobra para enfraquecer a força eleitoral do PT no nordeste e arrancar-lhe alguns votos no sul e sudeste.
Sempre atribui ao PPS a função de filial do PSDB. Roberto Freire não admite que um pernambucano igual a ele, mas de Garanhuns,
lhe ofusque o brilho.