segunda-feira, 16 de março de 2015

Protestos deixam o governo baratinado



O governo da presidente Dilma Rousseff foi alvo de protestos maciços ontem nos 26 estados da Federação, no Distrito Federal e até em cidades do exterior. O povo nas ruas entoava palavras de ordem contra a corrupção e reclamava da situação econômica. Gritos de “Fora Dilma” e “Fora PT” foram ouvidos em todo o país. Grande parte pediu impeachment da presidente. Uma parcela pequena defendeu intervenção militar e foi criticada pelos demais participantes. 

Governistas e oposicionistas agora se digladiam quanto à contabilidade dos protestos, que a PM avaliou ter reunido 1,75 milhão, sendo 1 milhão apenas na principal manifestação, na Avenida Paulista, em São Paulo. O DataFolha, porém, mediu 210 mil na Paulista. Cálculos à parte, mesmo assim, foi a maior protesto  desde as “Diretas-Já” e surpreendeu o governo, que está baratinado com a situação. Tanto quanto os militantes petistas, que perderam o monopólio das ações de rua e não conseguem entender o que acontece no país. 

A presidente Dilma Rousseff passou o dia de ontem no Palácio da Alvorada, acompanhando os protestos. Pela manhã, o governo avaliava que seria de menor expressão. Havia comemorado as manifestações sindicais chapa-branca de sexta-feira. No final da tarde, Dilma chamou os ministros para conversar. Estava atônita; fora pega de surpresa pelo tamanho dos protestos, inclusive na Esplanada dos Ministérios.

O estado-maior de Dilma Rousseff não incluiu os aliados, somente os petistas de sua confiança: José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rosseto (Secretaria-Geral da Presidência), os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Thomas Traumann (Comunicação Social), Jaques Wagner (Defesa) e Giles Azevedo, assessor especial. 

O grupo não representa nada em termos da base do governo Congresso, nem a própria bancada do PT. O ministro das Relações Insitucionais (Articulação Política), Pepe Vargas, sequer foi chamado. Informalmente, já foi demitido. A resposta do governo foi pífia, de quem está tomado pela perplexidade e não tem alternativa a oferecer ao país.




Os ministros José Eduardo Cardozo, da Justiça, e Miguel Rosseto, secretário-geral da Presidência, acenaram com três propostas velhas, nas quais ninguém acredita, porque até hoje não foram colocadas em prática: o diálogo com a sociedade e o Congresso; o pacote anticorrupção, anunciado no auge da crise de 2013 e que ainda não saiu do papel; e a reforma política, com ênfase no fim do financiamento empresarial das campanhas políticas.


Oposição



A oposição apóia os protestos e comemora, mas teve presença lateral no movimento. Os manifestantes não deixaram discursar nem os parlamentares que defendem o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O deputado Paulo Pereira da Silva (SD-SP), que tenta reunir 1 milhão de assinaturas pela saída de Dilma, foi vaiado na Avenida Paulista quando seu nome foi anunciado. No Rio de Janeiro, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi impedido de falar no carro de som.

As manifestações, porém, deverão ter impacto no Congresso Nacional, onde a CPI que investiga o escândalo da Petrobras concentra as atenções. As dificuldades do governo para aprovar o pacto fiscal devem aumentar. A tendência dos políticos também é se antecipar ao Palácio do Planalto quanto à reforma política. 

Os principais partidos de oposição devem subir o tom contra o governo e aumentar as cobranças em relação à demandas da sociedade, a principal delas quando ao escândalo da Petrobras, cuja apuração o governo, nos bastidores, ainda tenta obstruir. Para isso, oferece acordos de leniência para salvar as empresas envolvidas e acalmar os executivos que ameaçam com novas delações premiadas, 

O governo não pode, porém, perder o apoio de sua base no Congresso, na qual o papel fundamental é do PMDB, que controla as duas casas legislativas. Para manter esse apoio, Dilma terá que fazer grandes concessões e fortalecer a presença da legenda aliada no governo, com mudanças ministeriais. 




domingo, 15 de março de 2015

A correlação de forças

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 15/03/2015

O governo continua sendo a forma mais concentrada de poder, pode absorver todo o desgaste de Dilma e continuar funcionando até as próximas eleições

 Muitos dos conceitos e métodos de avaliação política têm origem militar, ou melhor, na experiência das guerras civis e das revoluções sociais. Foram elas que abriram o caminho na Europa para o surgimento dos parlamentos e, com a Independência dos Estados Unidos, para a democracia e a política como as conhecemos hoje.

Grandes estadistas, como Churchill, e líderes políticos, como Gandhi, destacaram-se em momentos decisivos da História porque souberam avaliar corretamente a correlação de forças em situações limite. De igual maneira, muitos desastres nacionais e derrotas políticas decorreram de avaliações equivocadas de líderes que foram, digamos, para a lata do lixo da História.

A França de 1789 a 1870 foi o principal modelo para o estudo de estratégia e tática na política. Só em 1871, com a derrota da Comuna de Paris, se esgotaram as tendências surgidas com a Revolução Francesa. As contradições internas que se desenvolveram desde então encontraram sua composição relativa com a Terceira República (1870-1940), quando a França teve 60 anos de vida política equilibrada, após 80 anos de sublevações em ondas cada vez mais espaçadas: 1789-1794-1799-1804-1815-1830-1848-1870.

O estudo dessas “ondas” leva em consideração três aspectos: a situação internacional, as condições econômicas e sociais (objetivas) e o posicionamento (subjetivo) das forças políticas. Vale a pena usá-lo para entender o que ocorre no país.

Primeiro, o Brasil vive uma crise econômica; a população tem suas expectativas frustradas pela inflação, pelo desemprego e pela recessão. Segundo, a presidente Dilma Rousseff perde apoio da base política e parlamentar e sofre os desgastes causados pela Operação Lava-Jato, que investiga a corrupção na Petrobras, o maior escândalo da história do país.

Ademais, a disputa política entre o governo e a oposição transbordou do Congresso para as ruas, com atores novos que fogem ao controle dos partidos e dos movimentos sociais organizados. Diante disso, o Palácio do Planalto acredita que os protestos da população contra a corrupção, a qualidade dos serviços prestados e a alta do custo de vida estariam sendo manipulados por forças políticas golpistas, empenhadas na deposição da presidente Dilma Rousseff.

Fora, Dilma!

Será isso possível? Historicamente, não seria a primeira vez. Crises políticas resultaram na renúncia ou na deposição de presidentes da República no Brasil em 1930, 1945, 1954, 1962, 1964 e 1992. Ou seja, entre duas guerras mundiais e a Guerra Fria, um ciclo quase tão longo quanto aquele do modelo francês. Não é à toa que o golpe de 1964 está sendo lembrado pelas forças governistas para acusar a oposição de tramar contra democracia.

Na sexta-feira, as centrais sindicais realizaram manifestações para apoiar o governo. Hoje, será a vez da oposição dar o troco: engrossará as manifestações convocadas pelas redes sociais contra o governo. Palavras de ordem como “Fora, Dilma” e “Impeachment já” alimentam esse clima.

Dilma obteve 54,4 milhões (51,64%) de votos no segundo turno; Aécio, 51 milhões (48,36%) . A diferença de 3,4 milhões foi a menor desde a redemocratização. Para vencer, Dilma atraiu as forças políticas à esquerda e movimentos sociais organizados; agora, precisa novamente da retórica “esquerda versus direita” e “pobres contra as elites” para manter esse apoio.

O atual posicionamento dos partidos políticos não muda a correlação de forças, o que só ocorrerá se o PMDB e outras forças centristas se deslocarem para a oposição. A mudança, porém, ocorre, por outro motivo: a crise econômica e o agravamento da situação social deslocam para a oposição os eleitores de Dilma frustrados pelo não cumprimento das promessas de campanha. O governo perdeu a iniciativa política.

Isso significa que a destituição de Dilma seja possível? Mantidas as regras do jogo, é improvável. A guerra fria acabou. A crise é conjuntural. O governo continua sendo a forma mais concentrada de poder, pode absorver todo o desgaste de Dilma e continuar funcionando até as próximas eleições, ou seja, exercer suas funções essenciais, como arrecadar, normatizar e coagir.

Para Dilma sofrer um impeachment nos termos da Constituição, seria preciso provar que cometeu um grave crime no exercício do atual mandato, que mal começou, e o Congresso estar de acordo. Ou, então, o Estado brasileiro entrar em colapso em razão da desobediência civil, o que não é desejável.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Centrais sindicais vão às ruas por Dilma


Centrais sindicais vão hoje às ruas de 27 capitais em todo País contra a “ruptura democrática” e pela garantia dos direitos trabalhistas, movimento articulado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), organizadora dos atos, para se contrapor às manifestações convocadas pelas redes sociais para o próximo domingo.

Oficialmente, a CUT nega que os protestos sejam em defesa do governo, mas levanta a bandeira contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra o suposto golpismo da oposição.

A pauta de reivindicações do ato é meio esquizofrênica: ataca o ajuste fiscal e exige maior interlocução com o Palácio do Planalto. Os atos contam com o apoio, em algumas capitais do país, do PT, do PCdoB e do PSOL. Com recursos da central, sindicalistas profissionais, empregados de estatais e funcionários públicos ligados ao PT, o protesto será uma típica manifestação chapa branca. 

Mas isso não importa. O que mais interessa é saber se terá o apoio da maioria da sociedade ou não. 
O mesmo vale para a manifestação de domingo, que é convocada por grupos oposicionistas que atuam nas redes sociais e está sendo apoiada pelos partidos de oposição.

Alguns desses grupos de ativistas das redes pregam o "Fora Dilma!" e o pedem o impeachment da presidente da República por causa do escândalo da Petrobras.

Confronto

O Palácio do Planalto teme que haja confronto nos atos desta sexta-feira entre ativistas de grupos como o Revoltados On Line, contrário ao governo, e manifestantes de sindicatos e movimentos sociais alinhados ao PT, o que poderia gerar combustível para as manifestações contra a presidente Dilma no domingo. Líderes do Revoltados alegam que haviam convocado seu protesto antes.

O governo tentou convencer os líderes sindicais a desmarcar a manifestação de hoje, mas era tarde demais. Os preparativos para as manifestações já estavam adiantados e o cancelamento dos atos pareceria não um recuo, mas uma debandada petista.

quinta-feira, 12 de março de 2015

O devido processo legal

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 12/03/2014

 No Supremo, o temor era que, com apenas quatro integrantes, qualquer empate beneficiasse os réus. Ou que alguém fosse indicado para vaga aberta no Supremo para “matar no peito” o processo.

 A ida do ministro José Antonio Dias Toffoli da Primeira para a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), articulada pelos ministros Teori Zavascki, relator do processo da Operação Lava-Jato, Celso de Melo e Gilmar Mendes, e confirmada ontem pelo presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, desanuviou o ambiente político no Congresso.

A semana havia começado sob o impacto da abertura de inquérito contra 47 políticos, entre eles os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A Segunda Turma ficará responsável pela análise dos inquéritos e eventuais ações penais relativas ao esquema de corrupção na Petrobras.

Ao completar a vaga aberta na Segunda Turma com a aposentadoria do ex-ministro Joaquim Barbosa e a saída de Lewandowski, fechando a porta para a participação no julgamento de um ministro recém-indicado pela presidente Dilma Rousseff, o estresse causado pela abertura dos inquéritos desapareceu como por encantamento.

Já na terça-feira à noite, numa festa de advogados na Asa Sul, à qual compareceram os ministros Toffoli e Mendes, a rocada no STF já era interpretada nos meios jurídicos e políticos como o sinal de que o xadrez do devido processo legal absorveria o impacto inicial da abertura de inquérito. No Supremo, o temor era que, com apenas quatro integrantes, qualquer empate beneficiasse os réus. Ou que alguém fosse indicado para vaga aberta no Supremo para “matar no peito” o processo.

Temia-se também a mesma turbulência do julgamento do mensalão, que ocorreu no pleno do STF e foi transmitido ao vivo e em cores. Toffoli é o ministro com menos tempo de atuação no tribunal que ainda não exerceu a função e, conforme a tradição, passará a presidir o julgamento da Lava-Jato a partir de maio, mês em que termina o mandato do atual presidente da turma, Teori Zavascki.

“Isso foi um consenso no tribunal e nós demos o devido encaminhamento. Acho que foi uma boa solução para o tribunal e para o Brasil”, disse Mendes. Notoriamente ligado ao PT e ao ex-presidente Lula, Toffoli faz parte do time de desafetos de estimação da presidente Dilma Rousseff, cujo santo não bate com o dele desde os tempos da Casa Civil.

 Toffoli, porém, esteve ontem com a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Disse que foi à sede do Executivo apenas para tratar de um projeto elaborado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Corte que preside desde maio do ano passado, e não tratou sobre a Lava-Jato. Participaram da reunião os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça).

Nuvens carregadasFoi uma semana de nuvens carregadas e chuvas torrenciais em Brasília. O ex-gerente de Produção da Petrobras Pedro Barusco, ao depor na CPI instalada na Câmara para investigar o escândalo na estatal, disparou um petardo contra a presidente Dilma Rousseff, ao confirmar que teria entregue ao tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, a quantia de US$ 300 mil provenientes de propina para a campanha de 2010. No mesmo dia, Dilma foi vaiada em São Paulo.

Durante a semana, caciques do PMDB passaram a defender a saída do petista Aloizio Mercadante da Casa Civil da Presidência, atribuindo a ele a responsabilidade pelos erros cometidos pela Palácio do Planalto na condução da articulações políticas. Segundo os peemedebistas, o ministro seria o responsável pelo afastamento do vice-presidente, Michel Temer, do centro das decisões do governo e também pelo isolamento da presidente Dilma Rousseff em seu gabinete.

Em respostas às pressões e boatos, o Palácio do Planalto negou que o ex-presidente Lula teria exigido a cabeça de Mercadante. E durante solenidade no Acre, ao lado do governador Tião Viana (PT), Dilma anunciou que vai incorporar três ministros à coordenação política do governo: Aldo Rebelo (PCdoB), da Ciência e Tecnologia; Gilberto Kassab (PSD), das Cidades; e Eliseu Padilha (PMDB), da Aviação Civil.

 A solução não agradou à cúpula do PMDB, que reivindica uma reforma ministerial mais ampla. O presidente do Senado, Renan Calheiros, verbalizou a insatisfação ao dizer que o governo já está “envelhecido”. As pressões dos aliados contra Mercadante, porém, não surtiram efeito. Dilma continua tendo-o como principal auxiliar e leva em conta que o ex-senador deixou de disputar as eleições para comandar a cozinha do Palácio do Planalto a seu pedido.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O coro dos coxinhas

Nas Entrelinhas : Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 11/03/2015

Duas crises estão combinadas e podem levar o governo ao nocaute, mas se desenvolvem de forma desigual

O repertório de definições de crise é bastante sortido, tem para todos os gostos.

Das "revolucionárias", nas quais os de baixo já não obedecem e os de cima não conseguem governar; e de "renovação política", em que o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu; às "crises econômicas", que são uma ameaça e uma oportunidade para os capitalistas, como no ideograma chinês que representa as duas palavras de uma só vez.

Em bom português, a palavra crise vem do grego krisis (decisão, julgamento), prima do verbo krinein, que quer dizer julgar, decidir, separar — na língua dos pais da filosofia e da democracia. No Dicionário Houaiss, há cinco definições: 1) estado de manifestação aguda ou agravamento de doença, física, mental e emocional; 2) manifestação repentina de um sentimento (ciúme, amabilidade); 3) estado de incerteza e vacilação (fé); 4) fase crítica de uma situação; e 5) momento de desequilíbio emocional.

O marketing ampliou esse espectro: uma crise pode envolver consumidores, clientes e usuários; públicos interno e externo; investidores, comunidades e poder público, além, é claro, das autoridades propriamente ditas, que, para isso, contratam marqueteiros e organizam gabinetes de crise para gerenciar sua imagem.

A presidente Dilma Rousseff, que ontem foi vaiada em São Paulo, ainda não se achou diante da crise que o país e seu governo atravessam. "O Brasil passa por um momento difícil, mais difícil do que tivemos em anos recentes, mas nem de longe estamos vivendo uma crise das dimensões que alguns dizem que estamos vivendo", minimizou, na 21ª Edição do Salão Internacional da Construção, em São Paulo. 

Dilma acabara de receber uma bruta vaia ao seguir para o anfiteatro do centro de eventos. Foram cinco minutos de apupos, disparados por trabalhadores que montavam a exposição. Sua reação foi dar meia volta e se afastar, irritada, do local.(https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=M-J-KTWH1I4 )

Depois, a Secretaria de Imprensa da Presidência divulgou nota na qual reiterou que as manifestações contra o governo são legítimas e fazem parte do "jogo democrático", mas criticou atos violentos. Não houve isso.
Durante o evento, a presidente da República minimizou os problemas da economia, disse que seus fundamentos são sólidos e que as medidas de ajuste que o governo tem adotado nos últimos dias não vão comprometer as conquistas sociais, "tampouco vão fazer o Brasil parar".

O grande salto para frente, apregoado na campanha eleitoral, voltou a ser anunciado: "A conjuntura atual é muito mais difícil do que nos últimos anos, mas ela não pode ofuscar os avanços nem tampouco obscurecer que hoje temos as bases, o aprendizado para ir muito mais além do que já fomos, para dar saltos de produção e de competitividade ainda maiores". Quem acredita nisso?
Para justificar o rombo nas contas públicas, Dilma disse que a União absorveu "parte importante" da crise entre 2008 e 2014. "Estamos fazendo ajustes, mas não abdicamos nem abdicaremos em estabelecer as condições para que, o mais rápido possível, tenhamos uma economia competitiva e mais dinâmica."

Trata-se a União na ótica das velhas elites do Império, que organizaram o Estado brasileiro antes da formação da nação. Só que os recursos do Tesouro não vêm dos donos do poder, vêm dos impostos pagos pelos contribuintes, que deixam de consumir e poupar para tapar o buraco da gastança que garantiu a reeleição de Dilma. Esse é o grande "estelionato eleitoral" em curso.

Desigual e combinada

Não é à toa que, desde a viagem a Campo Grande, em 3 de fevereiro, Dilma não pode pôr os pés nas ruas sem levar uma vaia; só é aplaudida em ambientes fechados, previamente monitorados por sua "equipe precursora", que já foi muito melhor nesse trabalho.

O problema é que o coro dos "coxinhas", como os petistas chamam os que fazem oposição ao governo, está aumentando com a deriva dos eleitores da presidente da República frustrados porque suas promessas não corresponderem aos fatos, diante da situação da economia e do escândalo da Petrobras.

A crise é desigual e combinada. Vamos por partes. Primeiro, há uma crise econômica decorrente mais do desequilíbrio das contas públicas do que da economia mundial, caso contrário, todos os países do continente estariam na situação da Argentina, da Venezuela e do Brasil, o que não é o caso. Graves problemas de infraestrutura, o desequilíbrio da balança comercial e a queda do preço do petróleo dificultam uma saída de curto prazo.

Segundo, instalou-se uma crise de governabilidade, catalisada pela Operação Lava-Jato da Polícia Federal, que investiga as principais lideranças do Congresso suspeitas de receberem propina do esquemas de corrupção na Petrobras.
Essas duas crises podem levar o governo ao nocaute, mas se desenvolvem de forma desigual no tempo e no espaço. A crise econômica demanda que a base política, acuada pelas denúncias, aprove um conjunto de medidas impopulares a toque de caixa. A crise política, para se resolver no curto prazo, exigiria um haraquiri coletivo das principais lideranças da base do governo no Congresso.

Como as duas coisas não vão acontecer, a crise de representação política e de imagem do governo transbordou para as ruas, que reagem à inflação, ao desemprego, o aumento de impostos, aos apagões, à falta d’água, ao aumento dos combustíveis e da conta de luz, tudo junto e misturado à corrupção na Petrobras e em outras empresas e órgãos públicos. Dilma sintetiza tudo isso.

terça-feira, 10 de março de 2015

Outros poderes se "alevantam"

 A Operação Lava-Jato revelou também as existência de um “criptogoverno” mafioso, corrupto e corruptor, formado por políticos, funcionários públicos, executivos e grandes empresas

 A frase é do veterano líder sindical Luís Tenório de Lima, que a usava sempre que alguma coisa ocorria de maneira diferente da imaginada ou prevista. Serve sob medida para intitular a coluna de hoje. Um dos articuladores da chapa Jânio-Jango na eleição de outubro de 1960, Tenorinho ajudou a cristianizar o marechal Henrique Teixeira Lott (PSD).

Graças à manobra eleitoral, o ex-ministro do Trabalho João Goulart foi eleito vice-presidente da República, com apoio maciço dos sindicatos paulistas. O resto da história todos conhecem: Jânio renunciou e Jango virou o presidente da República, mas foi derrubado pelos militares em 1964, após anunciar a intenção de decretar as chamadas reformas de base, que o Congresso não aprovava.

Reminiscências históricas à parte, vem aí um ato sindical convocado pela CUT e o PT para 13 de março, mesma data do Comício da Central de 1964, pretexto para o golpe de Estado contra Jango. E uma manifestação nacional convocada pelas redes sociais para 15 de março, que pode ganhar as conotações conservadoras da Marcha com Deus pela Família e a Liberdade, que reuniu 500 mil pessoas, em 19 de março, e se repetiu, digamos, com 1 milhão de coxinhas nas ruas em 2 de abril daquele ano fatídico.

A classe média voltou-se contra o governo e apoiou os políticos de oposição e militares golpistas. Aviso logo: sou daqueles que acham que história só se repete como farsa ou como tragédia. Os líderes dos partidos de oposição foram escaldados pelo golpe e o regime militar, não vejo muito sentido nessa história de que pretendam uma ruptura institucional ao aderir aos protestos populares contra o governo Dilma. Isso é do jogo democrático!

Tenorinho entra nessa história por outro motivo: um velho artigo do mestre Norberto Bobbio, intitulado Os meandros do poder, escrito no auge da crise política italiana de 1980. (in As ideologias e o poder em crise, Editora UnB). Faz parte de uma série sobre o que chamou de “mau governo”.

Inspirado na microfísica do poder de Foucault, Bobbio afirma que “a ideia tradicional de que o poder reside numa pessoa, numa restrita classe política ou em determinadas instituições colocadas no centro do sistema social é enganadora. O poder está em qualquer lugar, como o ar que se respira”.

“Não compreendeu a estrutura ou o movimento de um sistema social aquele que não se deu conta de que este é constituído por uma densa e complexa interrelação de poderes”, afirma. O poder não estaria apenas difuso e repartido, mas disposto em estratos que se distinguem um dos outros por diferente graus de “visibilidade”.

Bobbio identificou três esferas de poder: o emergente e público, que é o governo propriamente dito; o semi-submerso ou semipúblico, que chamou de “sub-governo”, que são suas agências e aparatos públicos, por onde passa a política econômica e o governo da economia; e a faixa de poder submerso, oculto ou invisível, que poderia ser chamada de “criptogoverno”.

Podres poderes
Segundo Bobbio, na medida em que o Estado liberal clássico foi sendo ampliado na direção do Estado de bem-estar social, o espaço do “sub-governo” se ampliou tremendamente, em estreita relação com o governo autêntico. Mas, em contrapartida, tem um nexo duplo com o que seria o “criptogoverno”.

Dirigentes dessas entidades, designados ou diretamente nomeados pelos partidos de governo pelo sistema de loteamento, através da função latente que a eles é atribuída, passam a prover o financiamento “oculto” dos partidos ou canalizar para eles os recursos financeiros de que têm necessidade para garantir a própria sustentação e para ganhar “consensos” ( que nesse caso Bobbio trata como uma mercadoria igual a todas as outras).

Essa leitura de Bobbio ajuda a entender o que aconteceu na Itália, onde os grandes partidos do pós-guerra foram tragados pela Operação Mãos Limpas, e nos dá uma pista para compreender melhor a gravidade do escândalo revelado pela Operação Lava-Jato, que agora chegou ao Congresso e ameaça implodir o nosso “presidencialismo de coalizão”.

Num paralelo rápido, a investigação sobre os desvios de recursos da Petrobras e de outras estatais, com superfaturamento de obras e serviços, mostra-nos as conexões entre o governo propriamente dito, as agências e as empresas de um “sub-governo” legalmente constituído, mas transformado em caixa preta. A Operação Lava-Jato revelou também as existência de um “criptogoverno” mafioso, corrupto e corruptor, formado por políticos, funcionários públicos, executivos e grandes empresas fornecedoras do Estado para dar as cartas no jogo político.

Tudo isso precisa ser passado a limpo, porque a democracia é idealmente o governo do poder visível e não dos podres poderes ocultos a serviço do saque do Tesouro, do enriquecimento ilícito e do abuso do poder econômico nas campanhas eleitorais, para perpetuar no poder grupos políticos e partidos.

Leia também:  http://blogdoazedo.blogspot.com.br/2014/10/burgueses-e-proletarios.html

segunda-feira, 9 de março de 2015

O estado da arte

A presidente Dilma Rousseff foi à tevê fazer uma longa defesa do ajuste fiscal e dizer que a economia do país só deve começar a melhorar a partir do fim do ano. Foram 16 minutos de discurso, recebidos em vários pontos do país por vaias e panelaços convocados pelas redes sociais e registrados pela mídia. Nunca houve isso, desde a crise do governo Collor de Mello, mesmo em se tratando de um protesto de classe média em bairros verticalizados.


Dilma reuniu ontem os ministros da articulação política para avaliar o impacto da abertura de investigação contra 34 parlamentares, sendo 33 deles de partidos da base aliada, e para discutir a extensão dos danos na relação com o Congresso. Fará um apelo ao vice-presidente Michel Temer para que se integre à coordenação política e exigirá o apoio do PT às medidas provisórias que restringem o acesso aos benefícios trabalhistas e previdenciários. 

A Operação Lava-Jato atingiu em cheio a coalizão governista – 47 são integrantes da base de apoio -- , jogou na defensiva a cúpula do Congresso e deixou a presidente da República na situação desconfortável: está de fora da investigação porque os fatos são anteriores ao seu mandato.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cada vez mais distante do governo, continua sendo a única liderança capaz de reagrupar a coalizão de governo em torno de Dilma Rousseff e comandar uma reação dos governistas no sentido de reencontrar o seu rumo político. A antecipação de candidatura de Lula às eleições de 2018 será a maneira de o PT se manter como alternativa de poder. Mas isso significa deixá-lo no sereno e fragilizar ainda mais a presidente Dilma.

Há uma nova correlação de forças, o governo perdeu apoio da maioria da população e a oposição está mais sintonizada com as ruas. A crise no Congresso não se resolverá no curto prazo, nem a da economia. Estamos diante de um cenário complicado, cuja superação pressupõe o respeito à Constituição. É só o começo, ainda vai rolar muita água sob a ponte.