domingo, 7 de dezembro de 2014

Sintomas mórbidos

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 07/12/2014

Nada garante que o enfraquecimento do PT, do PMDB e do PP, partidos mais citados nas denúncias da Lava-Jato, venha a beneficiar a formação do novo governo

Quando o novo quer nascer e o velho ainda não morreu, estamos diante de uma situação potencialmente de crise e os seus sintomas mórbidos e patológicos aparecem. É mais ou menos o que está acontecendo nesta transição do primeiro para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, no qual o cavalo de pau na condução da economia está em contradição com a continuidade nas relações políticas do “presidencialismo de coalizão”.

Além da força de inércia das patologias de natureza administrativas, nos deparamos com os sintomas mórbidos das falcatruas na Petrobras e outras estatais, que estão sendo reveladas pela Operação Lava-Jato da Polícia Federal. A única surpresa em relação ao novo governo, até agora, foi a indicação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Mesmo aí, porém, há sintomas de que o velho não morreu e o novo ainda está por nascer.

O Palácio do Planalto moveu mundos e fundos, na base do  tradicional “é dando que se recebe”, para aprovar mudanças na Lei de Responsabilidade Fiscal. Agora, vai gastar tudo o que pode para aliviar as despesas com “restos a pagar” em 2015, como servem de exemplo os R$ 30 bilhões transferidos pelo Tesouro ao BNDES por medida provisória. É grande o rombo dos empréstimos camaradas, uma parte dos quais foi parar nos caixas de campanha eleitoral — como no caso da JBS, que doou mais dinheiro do que as empreiteiras enroladas na Operação Lava-Jato.

O peso do passado no novo governo não é trivial. Represadas, as tarifas de ônibus, de energia elétrica e outros preços administrados terão de ser aumentados. O desmonte do que foi chamado de “nova matriz econômica” não será nada fácil. O Banco Central já sinalizou que manterá a inflação raspando o teto da meta, chegando mesmo aos 7% no primeiro semestre. Foi um banho de água fria no mercado, pois mostra que o presidente do BC, Alexandre Tombini, está mais afinado com a velha orientação da presidente Dilma Rousseff. Mira no emprego e na renda e não a meta de 4,5% de inflação, como caberia ao BC.

O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciou um superavit fiscal de 1,5% para 2015, mas a proposta de Orçamento da União já reduziu essa meta para 1,2%. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015 prevê um crescimento do PIB de apenas 0,8% no ano que vem. Ou seja, teremos um ano de crescimento baixo e inflação alta, provavelmente com menos empregos e perdas salariais, apesar da retórica oficial.

O pano de fundo dessas dificuldades é uma visão atávica de que os gastos públicos serão a alavanca para o crescimento da economia, muito mais do que os investimentos privados, o que significará, talvez, até aumentar a carga tributária. Além disso, da mesma forma como culpa a crise mundial pelas dificuldades econômicas que enfrenta, o Palácio do Planalto acredita num ambiente externo mais favorável em 2015. Na verdade, sem agouro, a curto prazo a situação será outra: a recuperação dos Estados Unidos terá forte impacto no câmbio, a moderação do crescimento da China joga pra baixo os preços das commodities e o cenário de agravamento da crise europeia prejudica ainda mais nossas exportações, sobretudo de manufaturados. E ainda tem a redução do preço do petróleo, que prejudica a exploração do pré-sal.

A velha política
Dilma venceu as eleições com um discurso eleitoral que mascarou os problemas e muito prometeu, mas agora está diante da realidade nua e crua. O país regrediu em muitos aspectos, não apenas do ponto de vista do equilíbrio fiscal. Agravaram-se os problemas ambientais e energéticos, as políticas públicas de saúde, educação, transportes e segurança deixam a desejar. A nossa indústria está sucateada. E a infraestrutura não entrou em colapso por causa da baixa atividade econômica. Não sabemos se a nova equipe ministerial estará à altura desses desafios.

Dilma Rousseff é prisioneira da velha política. Nesta semana, por exemplo, sofrerá fortes pressões dos partidos aliados para a formação de seu ministério. Ao contrário do presidente Lula, que conseguiu formar uma equipe melhor no segundo mandato, nada garante que agora acontecerá o mesmo, embora a nova equipe econômica tenha sido recebida de forma positiva pelo mercado e por alguns setores da oposição.

O toma lá dá cá parece impor a sua lógica à formação da nova equipe ministerial. O PMDB não abre mão de seis ministérios; o PP e o PR também querem lugares privilegiados pelo orçamento e pela capilaridade. O PT mira posições-chaves no governo e já mandou recado de que pretende controlar as verbas de publicidade do governo.

E tem a metástase da Operação Lava-Jato. A estratégia de Dilma Rousseff é fazer do limão uma limonada. Estariam envolvidos no escândalo cerca de 40 políticos, entre deputados, senadores, ministros e governadores. Nada garante que o enfraquecimento do PT, do PMDB e do PP, partidos mais citados nas denúncias da Lava-Jato, venha a beneficiar a formação do novo governo. Eis  aí mais um sintoma mórbido.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Janot repudia tentativa de desacreditar investigações da Operação Lava-Jato



O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgou nota oficial ontem sobre a Operação Lava-Jato, na qual repudia as tentativas de desmoralizar as investigações.

Pressionado  pelos demais procuradores, rechaçou as acusações de que estaria sendo condescendente com as articulações para livrar as empreiteiras envolvidas no escândalo de punições mais severas. As empresas podem ser consideradas inidôneas. Eis a nota:



"Nota Oficial do PGR

6/12/2014
Em função das recentes notícias veiculadas na imprensa, o procurador-geral da República esclarece:

1. No caso conhecido como Lava-Jato, o Ministério Público Federal apura a existência de um grande esquema criminoso instalado no País, envolvendo crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, fraude à licitação, formação de cartel, associação criminosa, além de atos de improbidade administrativa.

2. Ante a dimensão da rede criminosa investigada, o montante dos valores envolvidos e considerando a prioridade dada pelo Ministério Público Federal ao combate à corrupção, em abril de 2014, o procurador-geral da República constituiu uma Força-Tarefa composta por procuradores da República qualificados e experientes em investigações de alta complexidade, garantindo-lhe todas as condições necessárias para o seu funcionamento. A investigação vem sendo realizada em conjunto com o gabinete do procurador-geral da República, que tem a atribuição de processar as autoridades com foro no Supremo Tribunal Federal.

3. Em respeito à função institucional de defender a sociedade e combater o crime e a corrupção, o Ministério Público Federal cumprirá seu dever constitucional e conduzirá a apuração nos termos da lei, com o rigor necessário. O procurador-geral da República não permitirá que prosperem tentativas de desacreditar as investigações e os membros desta instituição.

4. Até o momento, a investigação revelou a ocorrência de graves ilícitos envolvendo a Petrobrás, empreiteiras e outros agentes que concorreram para os delitos, o que já possibilitou ao Ministério Público Federal adotar as primeiras medidas judiciais. A utilização do instrumento da colaboração premiada tem permitido conferir agilidade e eficiência à coleta de provas, de modo a elucidar todo o esquema criminoso.

5. Medidas judiciais continuarão a ser tomadas como consequência dessa investigação técnica, independente e minuciosa. O Ministério Público Federal reafirma seu dever de garantir o cumprimento da lei.

Brasília, 6 de dezembro de 2014

Rodrigo Janot Monteiro de Barros
Procurador-Geral da República
"

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A bola de neve

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense: 05/12/2014


No Congresso nacional, há uma angústia generalizada em relação à revelação oficial dos nomes dos políticos envolvidos na Operação Lava-Jato. Especula-se que seriam os “enrolados” de sempre, com algumas surpresas

 O escândalo da Petrobras parece mesmo uma bola de neve, que rola montanha abaixo e não para de crescer. As novidades de ontem foram a decisão da Controladoria Geral da União (CGU) de abrir os processos de responsabilização contra oito empreiteiras envolvidas na operação Lava-Jato, da Polícia Federal; e a denúncia do executivo Augusto Mendonça Neto, da empresa Toyo Setal, de que parte do pagamento de propina ao ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque era direcionada ao PT como doação oficial ao partido.

Enquanto isso, na CPI Mista do Congresso, aumenta a pressão da oposição para que as investigações sobre o caso avancem, ainda mais depois do depoimento do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Sem citar pessoas específicas, por causa da delação premiada, o executivo disse que revelou à Justiça Federal os nomes dos políticos envolvidos no escândalo, que seriam parlamentares, ministros e governadores.

Mesmo assim, a base do governo no Congresso tudo faz para esvaziar a CPMI, que agora é presidida pelo senador Gim Argelo (PTB-DF). Seu antecessor, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), com apoio do Palácio do Planalto, foi contemplado com uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Vamos por partes:

Dever de casa
 
A decisão da CGU de abrir os processos foi tomada em razão dos documentos e informações da Operação Lava-Jato compartilhadas pelo juiz federal Sérgio Moro, do Paraná, que investiga o caso. Órgão responsável por assistir a Presidência da República em assuntos relativos à defesa do patrimônio público e ao incremento da transparência da gestão, a CGU está sob forte pressão para evitar que as empreiteiras Camargo Correa, Engevix, Galvão Engenharia, Iesa, Mendes Junior, OAS, Queiroz Galvão e UTC-Constran, envolvidas no escândalo, sejam declaradas inidôneas.

Caso isso ocorra, estarão proibidas de celebrar novos contratos com a União. No Palácio do Planalto, a eventual punição das empresas é considerada um “desastre nacional”, pois todas as grandes obras de infraestrutura em execução no país estão sob responsabilidade dessas empresas e seriam paralisadas. Busca-se uma saída jurídica para preservar as empresas e punir os executivos, mas isso pode se tornar impossível caso haja provas robustas de que seus proprietários estariam comprometidos com a farta distribuição de propina.

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa declarou à Justiça que há um cartel de grandes empreiteiras em obras da estatal, o que é crime. Na CPI Mista, para surpresa geral, disse também que as irregularidades investigadas pela PF acontecem no país inteiro. Ontem, em nota, a CGU esclareceu que abriu os processos com base principalmente em provas documentais, como e-mails, notas fiscais, transferências bancárias e registros de interceptações telefônicas.

Ventilador ligado


O executivo Augusto Mendonça Neto, da empresa Toyo Setal, uma das fornecedoras da estatal, disse em depoimento dado em outubro à Polícia Federal, com base em acordo de delação premiada, que parte do pagamento de propina ao ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque era direcionada ao PT como doação oficial ao partido. O vazamento dessa informação ocorreu no mesmo dia em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, relator do caso na Corte, relaxou a prisão do executivo.

A Secretaria de Finanças do PT sustenta que o dirigente petista nunca tratou de contribuições financeiras do partido, “ou de qualquer outro assunto”, com os envolvidos no esquema investigado pela Polícia Federal. De acordo com Mendonça Neto, a Toyo Setal firmou contrato de prestação de serviços com cinco empresas de fachada para repassar dinheiro em espécie ou remeter os valores ao exterior.

De acordo com ele, no caso da Refinaria do Paraná (Repar), foi firmado um contrato de prestação de serviços com uma das empresas de Camargo, no valor de R$ 33 milhões. Desse total, R$ 20 milhões foram transferidos ao exterior, em uma conta indicada por Duque, denominada “Marinello”. No caso da Refinaria de Paulínia (Replan), Mendonça Neto afirmou que pagou “comissões” tanto para Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal, quanto para Duque.

O executivo afirmou que o percentual partia de cerca de 2% do valor total dos contratos, mas, segundo Mendonça Neto, era negociado posteriormente, como no caso do Repar, cujo valor da comissão chegou a quase R$ 60 milhões. No Congresso Nacional, há uma angústia generalizada em relação à revelação oficial dos nomes dos políticos envolvidos na Operação Lava-Jato. Especula-se que seriam os “enrolados” de sempre, com algumas surpresas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

À siciliana

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 03/12/2014 

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, porém, está com um tijolo quente nas mãos: o que fazer com as empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato, se elas forem denunciadas por seus executivos?


A palavra máfia, de origem siciliana, mafiusu, tem suas raízes no árabe mahyas, que significa alarde agressivo, jactância ou marfud, que significa rejeitado. Mafiusu, no século XIX, significava alguém ambíguo, arrogante, mas destemido; empreendedor; orgulhoso.

Em 1863, com a peça I mafiusi di la Vicaria, Giuseppe Rizzotto e Gaetano Mosca, que trata de gangues criminosas na prisão de Palermo, houve a primeira associação com gangues criminosas. O termo máfia apareceu oficialmente pela primeira vez em 1865 em um relatório do prefeito de Palermo, Filippo Antonio Gualterio.

Com o tempo, mafiosos, empresários, políticos formaram um sistema poderoso na Itália, contra o qual era perigoso resistir. Mas a máfia conquistou fama e poder quando passou a atuar nos Estados Unidos, para onde migraram integrantes da família Cordopatri, que disseminou os métodos da organização pelo país, até ser quase exterminada em 1980 numa “guerra” entre famílias.

Na Itália, o poder da máfia somente foi contido depois de dura repressão. Durante a Operação Mãos Limpas, centenas de mafiosos foram presos, levados a julgamento e condenados. O primeiro-ministro Giulio Andreotti foi acusado de envolvimento com mafiosos, mas acabou absolvido em 1995. A investigação, porém, custou a vida de 24 juízes e promotores.

Formada pelas famílias Basso, Bortoletto, Cicca, Camolese, Corleone, Gattone, Gava, Giorlanno, Peruzzo, Nadai, Rosolen, entretanto, a Cosa Nostra ainda é muito poderosa. Tem ramificações nos seguintes países: Albânia, Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Bósnia e Herzegovina, Brasil, Bulgária, Chile, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Hungria, Kosovo, Macedónia, México, Monte Negro, Paraguai, Polônia, Portugal, República Checa, Roménia, Sérvia, Suíça, Uruguai.

Lava-Jato

O escândalo da Petrobras tem todos os ingredientes do que seria a formação de uma grande organização mafiosa, menos dois até agora: a queima de arquivo e o envolvimento de uma das famílias no escândalo. No mais, tem todas as características de uma máfia envolvendo políticos, empresários, executivos e achacadores.

A formação de cartéis era o método adotado pelos mafiosos para atividades econômicas que dependem dos recursos do Estado. Ontem, na CPI mista da Petrobras, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da estatal, disse que o esquema de desvios na Petrobras repete-se no Brasil inteiro. Costa foi submetido a uma acareação com Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da empresa.

Segundo Costa, todas as indicações de diretores da Petrobras, desde o governo de José Sarney (1985-89) até a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), foram políticas: “Isso aconteceu em todos os governos. Todos! Com todos os diretores da Petrobras. Se não tivesse apoio político, não chegava a diretor”. Disse, ainda, que há esquemas semelhantes ao da Petrobras: “Não se iludam. Isso que acontece na Petrobras acontece no Brasil inteiro. Em ferrovias, portos, aeroportos. Tudo.”

Costa prestou cerca de 80 depoimentos sob juramento, disse que provas estão aparecendo e que, na época oportuna, outros envolvidos no esquema serão conhecidos. Costa e o doleiro Alberto Youssef, que também reivindica a delação premiada, afirmaram que o esquema de desvios na Petrobras beneficiava partidos da base aliada, como PT, PMDB e PP, e as maiores empreiteiras do país, que montaram um cartel para controlar as licitações. Os desvios chegavam a 3% dos contratos, segundo ambos.

Já foram presos 24 diretores e executivos de empreiteiras e um agente da Polícia Federal. Parlamentares e governadores de vários partidos estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, porém, está com um tijolo quente nas mãos: o que fazer com as empreiteiras, se elas forem denunciadas por seus executivos?

A turma do deixa disso está em campo para evitar que as grandes empresas sejam declaradas inidôneas, o que poderia paralisar as grandes obras do país. Ontem, o presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Vinícius de Carvalho, deu um chega pra lá na tese com cheiro de orégano. Segundo ele, as empresas envolvidas merecem ser severamente punidas. Ou seja, Janot está numa saia justa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Crime de responsabilidade

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense: 02/12/2014

A presidente da República tornou-se refém de sua própria base. A tese petista do "golpismo" também é uma vacina contra isso

O governo vai à luta hoje, outra vez, para a alteração da meta do superavit primário para este ano. Não é uma votação trivial, pois se trata de uma manobra legal para evitar que a presidente Dilma Rousseff seja acusada de descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso é crime tipificado, cuja implicação poderia ser até a cassação do seu mandato.

São crimes de responsabilidade contra a lei orçamentária: exceder ou transportar, sem autorização legal, as verbas do orçamento; infringir, patentemente, e de qualquer modo, dispositivo da lei orçamentária; deixar de ordenar a redução do montante da dívida consolidada, nos prazos estabelecidos em lei, quando o montante ultrapassar o valor resultante da aplicação do limite máximo fixado.

Qualquer cidadão pode oferecer denúncia contra a presidente da República. Cabe à Câmara aprovar por maioria simples a acusação; ao Senado, julgar o pedido de destituição do cargo e cassação dos direitos políticos. A lei que define os crimes de responsabilidade das autoridades do Executivo, Judiciário e Ministério Público e regula o seu julgamento é originária do governo Dutra, na década de 1950, mas foi atualizada no segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pela Lei nº 10.028, de 2000.

Representou uma grande mudança de costumes políticos, no esforço de blindagem da política de estabilização da moeda, com objetivo de impedir que maus gestores quebrassem a administração para garantir vantagens eleitorais. Foi o que aconteceu no governo de Orestes Quércia (PMDB), em São Paulo, na eleição do seu ex-secretário de Segurança Luiz Antônio Fleury (PMDB à época), em 1990; e na Prefeitura de São Paulo, na gestão de Paulo Maluf (então no PDS), que conseguiu eleger seu ex-secretário da Fazenda Celso Pitta (PDS), em 1997. E poderia se repetir ainda mais com a aprovação do dispositivo da reeleição.

O rombo 


Nada disso impediu, porém, que a presidente Dilma Rousseff, com maquiagens e malabarismos fiscais durante todo o ano, para se reeleger, provocasse o maior rombo nas contas públicas desde 1997, quando a União securitizou as dívidas de estados e municípios. O governo havia se comprometido a alcançar, neste ano, um superavit de R$ 99 bilhões nas contas públicas do setor público consolidado, que abrange União, estados, municípios e empresas estatais.

Até setembro, contudo, o resultado alcançado foi um deficit primário de R$ 15,3 bilhões, evidenciando que a meta não será cumprida, mesmo com a utilização dos mecanismos legais previstos: a LDO permite que o Executivo abata dos resultados até R$ 67 bilhões de gastos com desonerações de tributos e investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Diante da situação, a alternativa que restou ao governo foi mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias para evitar o enquadramento da presidente Dilma Rousseff. O PLN 36, de autoria do relator Romero Jucá (PMDB-RR), o maior safa-onça do governo no Senado, anula a obrigatoriedade de a presidente Dilma Rousseff entregar o superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) neste ano.

Para que Dilma Rousseff não seja acusada de descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, é obrigatório que a manobra no Congresso seja feita. A oposição esperneia, mas esse não é o maior problema. Foi derrotada nas urnas e já sinalizou que não vai apostar num confronto dessa envergadura, isto é, na destituição da petista. A presidente da República ganhou as eleições com o discurso de que se recusou a gerar desemprego e reduzir renda para enfrentar a crise mundial. Esse é o eixo do discurso do Palácio do Planalto para rasgar a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ocorre que a base do governo resolveu chantagear a presidente Dilma Rousseff. Na semana passada, nem o PMDB nem o PT compareceram ao plenário para votar. Os parlamentares da base querem a liberação das suas emendas ao orçamento da União e cargos, muitos cargos. Ou melhor, ministérios. Só o PMDB reivindica meia dúzia, três para os senadores e três para os deputados.

Ontem à noite, Dilma chamou os líderes da base para uma conversa, a primeira desde a reeleição. Hoje saberemos se deu os resultados que esperava. A presidente da República tornou-se refém de sua própria base. A tese petista do "golpismo" também é uma vacina contra isso, mas não se restringe ao problema da responsabilidade fiscal, cuja solução depende apenas de reunir a tropa governista e mudar a legislação. Tem muito mais a ver com o escândalo da Petrobras e a Operação Lava-Jato, mas essas já são outras emoções.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A economia, o tigre e o elefante

 A troika Levy, Barbosa e Tombini estabeleceu como objetivos sanear as contas públicas e  levar a inflação para o centro da meta com uma estratégia gradualista e cautelosa

 Não sou economista, mas como diria o sábio Ho Chi Min, mesmo sem conhecer profundamente a anatomia dos animais, sei distinguir o tigre de um elefante.

Aprendi com meus professores de Introdução à Economia da UFF, quando estudava Ciência Sociais no ICHF. Quase todos eram militantes do velho PCB e controlavam o Departamento de Economia da FEA.

Por isso, "Conceitos Fundamentais de O Capital", de Lapidus e Ostraviatianov, entrava na bibiografia ao lado de Economics, de Paul Samuelsen, dos clássicos de Adam Smith, John Stuart Mill e Afred Marshall e do imprescindível Lord Maynard Keynes. Era palavrão falar na Escola de Chicago e em Milton Friedman, que ganhou o premio Nobel de Economia de 1976.

Com esse pedigree, vou dar meu pitaco sobre a nova equipe econômica. É o tigre brigando com o elefante. Há também muitos gatos selvagens nessa história, mas isso não vem ao caso agora. A troika Levy, Barbosa e Tombini estabeleceu como objetivos sanear as contas públicas e  levar a inflação para o centro da meta.

Não é propriamente um choque na economia, porque a poupança do setor público prevista para 2015 é baixa, cerca de R$ 70 bilhões (superávit primário de 1,2% do PIB, que subiria para 2% em 2016 e 2017). É uma estratégia gradualista e cautelosa do tigre para derrotar o elefante, que controla todos os demais ministérios.

O problema é que isso não restabelece a confiança dos investidores por antecipação; ela só virá na medida em que tal política for implementada com sucesso, o que não está garantido, haja vista a existência de adversários da nova equipe em pontos-chave do governo.

Não foi à toa que Tombini enfatizou o fato de que a inflação ficou longe da meta por causa dos gastos públicos.No curto prazo, o governo manobra para evitar o rebaixamento do grau de investimento do Brasil pelas agências de risco, que estreitaria o mercado para os títulos brasileiros e forçaria nova alta dos juros, com grande impacto nas contas públicas. Sem falar nos investimentos propriamente ditos.

A nova equipe precisa ter a simpatia do mercado. Para isso, Levy sepultou o diagnóstico de que o problema da economia é a demanda fraca, tese adotada pelo governo Dilma e que fracassou. Não por causa das teorias de Lord Keynes, mas, sim, de uma política errática e "rudimentar" para implementá-las.

Se não houvesse tanto desleixo em relação aos gastos do governo, as teorias keynesianas para estimular o crescimento poderiam dar certo. Jamais, porém, com tantos "ralos" abertos na administração pública, para usar uma expressão da própria presidente Dilma Rousseff. E com esse fabuloso escândalo na Petrobras, que já é internacional.
Hoje será divulgado o PIB do terceiro trimestre, Não será surpresa se for constatado que a economia brasileira entrou praticamente em recessão. Dilma é economista e sabe que a situação é grave. Montou no elefante para se reeleger a qualquer preço e agora terá que sacrificá-lo no altar do seu segundo mandato , que corre o risco de um desastre iminente.

Em tempo: o IBGE divulgou o PIB do terceiro semestre: 0,1%, o suficiente para sair da recessão técnica. O consumo das famílias caiu 0,3%. O Ministério da Fazenda,  na contramão da nova equipe,  atribui o resultado à falta de crédito. Dá-lhes, Mantega!

Em tempo: h

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Pra não falar que não me recordo da Revolução dos Cravos.... Tanto Mar 1ª e 2ª Versão + Entrevista com Chico Buarque





Sempre que ouço essa música me lembro do
sorriso do José Oto de Oliveira, o "Gordo", ex-dirigente do PCB em
Niterói, que atualmente vive no Recife (PE). Eu colaborava com o jornal
do MDB de Niterói, um bastião da resistência democrática, e ele era o
meu assistente. Chegou no "ponto" feliz da vida, com o editorial do
jornal que acabara de escrever nas mãos, no qual falava da importância
da Revolução dos Cravos para a resistência democrática em todo o mundo,
pois se tratava, simultaneamente, da derrubada de uma das ditaduras
fascistas mais longevas da Europa e do colapso do colonialismo português
na África, talvez o mais longo da história também. Ou seja, um recado de que toda ditadura tem seus dias contados...

A Revolução de 25 de abril de 1974 em Portugal, que expurgou do poder o
salazarismo, de fato dera novo ânimo aos democratas brasileiros. Pouco
depois, nas eleições de 15 de novembro daquele mesmo ano, a oposição
impôs à ditadura  militar a sua primeira grande derrota política.
Passada as eleições, porém, a repressão aos oposicionistas recrudesceu e
começou a grande operação de "cerco e aniquilamento" do PCB, que
resultou em milhares de prisões por todo o país e no assassinato de
vários membros do Comitê Central do PCB, cujos remanescentes da Comissão
Executiva, condenados à morte, foram obrigados fugir para o exterior.

José Oto foi um dos presos nessa grande repressão. Meu último "ponto" com
ele fora na minha casa, que ele usava como "aparelho", onde deixou um pacote da Voz Operária de março de 1975, cuja manchete era "Viver e Lutar", uma edição histórica, feita após a queda das gráficas do Rio e de São Paulo, um esforço heróico de
seu diretor, o jornalista Orlando Bonfim Jr. e o do responsável pela
Seção Juvenil do CC do PCB, José Montenegro de Lima, o Magrão, que
acabaram sequestrados e assassinados logo depois .

Na ocasião, José Oto disse-me que pediria à direção para tirá-lo de
Niterói, pois já não tinha condições de atuar no antigo Estado do Rio
porque estava muito "queimado", ainda mais depois da intensa
movimentação partidária que precedera as eleições. Ele era um dirigente clandestino, que havia passado pela "mosteiro", a escola de quadros do PCUS em
Moscou, e por isso mesmo era o tipo de "profissional" do partido muito visado pela
repressão e com poucas opções para se manter a salvo fora do "aparelho"
partidário local, onde muitos dos militantes que permaneciam legais eram
velhos comunistas manjados pela polícia política.

Já andava cabreiro com essa situação há algum tempo. Certa vez pediu-me para cobrir um "ponto" na Praça  XV de Novembro, pois não queria passar pelas estações das barcas. Deu a descrição do sujeito, o local onde deveria esperá-lo e me pediu que o apresentasse ao meu tio, Maurício Azedo, à época secretário do comitê de jornalistas do PCB da antiga Guanabara. Era um jornalista que estava chegando "fugido" do Nordeste, hoje um dos colunistas mais importantes da imprensa nacional.

Quando a direção do antigo Estado do Rio "caiu", não deu outra: o "Gordo" foi
preso. Foi puro azar, de parte dele; e pedra cantada ao mesmo tempo, considerando-se o
conjunto das circunstâncias. Ele havia se escondido num apartamento em
Copacabana e não sabia que o carro usado pelo primeiro secretário da direção
estadual, Sebastião Paixão, o "Édson", que já estava preso, era da dona do
apartamento. Nem ela sabia da situação.

Durante a prisão, José Otto foi barbaramente torturado, mas não falou, não me
entregou. Nem a  mim, nem a mais ninguém mais com quem tinha relações.
Quando saiu da Ilha das Flores, creio que dois anos depois,trabalhou uns meses comigo na Luta Democrática. Num breve encontro de despedida. disse-me que estava voltando para o
Recife.  Nunca mais o vi, mas guardo o seu sorriso na lembrança. E sou
eternamente grato pelo seu silêncio!