terça-feira, 17 de junho de 2014

Deixa a bola rolar…

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 17/06/2014

Na primeira rodada dos jogos, o alto nível do futebol praticado destoa da baixaria na nossa política. No momento, o povo não está nem aí para os políticos

No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio, dizia Nelson Rodrigues; no Itaquerão, em São Paulo, além de vaiar, a torcida xingou a presidente Dilma Rousseff com palavras de baixo calão. A atitude extrapolou o que seria “normal” numa partida de futebol, ainda mais porque o alvo era a presidente da República. Havia muitos chefes de Estado na cerimônia, que foi acompanhada ao vivo por torcedores do mundo inteiro. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva agarrou a vaia com as duas mãos — se é que isso é possível, mesmo no sentido figurado — e interpretou o episódio como declaração de guerra das “elites” que “não têm calos nas mãos” contra o PT e os trabalhadores. 

A convenção nacional do PSDB, no sábado, pôs mais lenha na fogueira. O senador Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, durante o evento, subiram o tom das críticas ao governo de Dilma Rousseff e ao PT. A resposta de Lula no domingo, na convenção que homologou a candidatura ao governo de São Paulo do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, foi um tom acima. O petista saiu em defesa da presidente Dilma Rousseff e desceu o sarrafo nos adversários, principalmente em Fernando Henrique, acusando-o de ter comprado os votos do Congresso que aprovaram a reeleição. De quebra, disse que os tucanos tramaram seu impeachment por ocasião do escândalo do mensalão.

Fernando Henrique não deixou barato, ontem repeliu as acusações: “Lamento que o ex-presidente Lula tenha levado a campanha eleitoral para níveis tão baixos. Na convenção do PSDB não acusei ninguém; disse que queria ver os corruptos longe de nós. Não era preciso vestir a carapuça. A acusação de compra de votos na emenda da reeleição não se sustenta: ninguém teve a coragem de levar essa falsidade à Justiça”, escreveu em sua conta pessoal de uma  rede social.

A vaia tirou o PT do sério, embora Dilma mantenha-se afastada dos estádios; a oposição tira casquinha e avalia que a torcida pela Seleção Brasileira não se traduz em apoio ao governo. E lembra que o ex-presidente Lula já usou de ofensas e palavrões para se referir a dois presidentes da República:  atingiu a honra de José Sarney, hoje um aliado de primeira hora; e também ofendeu o presidente Itamar Franco, em 1993.

Confraternização

Imaginava-se que a Copa do Mundo congelaria a disputa eleitoral, com a presidente Dilma Rousseff mantendo distância regulamentar dos jogos e a oposição mergulhada esperando o resultado final do Mundial — todos torcendo para o mesmo lado. Não é o que está acontecendo. Além da tabela dos jogos, existe um calendário eleitoral que movimenta os partidos políticos. As chapas proporcionais e as coligações para as eleições de governador e presidente da República precisam ser formadas até o fim do mês. A luta pelo poder central e nos estados segue o seu curso natural, mesmo com o torneio.

No Palácio do Planalto, há divergências quanto ao procedimento a ser adotado diante da situação. A estratégia de uma presença discreta de Dilma na Copa foi por água abaixo depois do que aconteceu no Itaquerão. Discute-se uma postura mais ofensiva, a partir de uma avaliação de que a vitória do Brasil contra Croácia desencantou a torcida brasileira. A ideia é fazer do limão uma limonada. Pesquisas mostram desaprovação aos xingamentos da torcida e maciço apoio da opinião pública aos jogadores da equipe canarinho. Além disso, as cidades sedes da Copa — apesar dos protestos persistentes, mas residuais — estão em festa com a presença de grande número de torcedores estrangeiros, todos recebidos de braços abertos.

Na verdade, a Copa é um sucesso como evento internacional, seja pela presença expressiva de torcedores de todos os países, seja pelo engajamento da torcida brasileira. Não houve caos nos aeroportos, os torcedores conseguem chegar aos estádios com poucos incidentes. E há uma confraternização geral, que se estende noite adentro. Na primeira rodada dos jogos, o alto nível do futebol praticado destoa da baixaria na nossa política. No momento, o povo não está nem aí para os políticos. Está de olho na Seleção Brasileira. E nas equipes da Alemanha, da Argentina, da França, da Holanda e da Itália, que também despontam como candidatas ao título. É nelas que mora o perigo.

domingo, 15 de junho de 2014

Candidato café com leite

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 15/06/2014

Aécio conquistou a unidade da legenda sem ceder a vice na composição interna. Seu companheiro de chapa pode ter um cacife decisivo para a eleição

A convenção nacional do PSDB confirmou ontem o nome do senador Aécio Neves (MG) como candidato da legenda à Presidência da República nas eleições de outubro. O político mineiro conseguiu a proeza de unir a legenda, incorporando à candidatura a ala ligada ao ex-governador José Serra, com quem havia disputado o comando do partido. Aécio chegou à convenção com 22% de intenções de votos, segundo o último Ibope, o que lhe garante a condição de principal adversário da presidente Dilma Rousseff, que, na mesma pesquisa, tem 38%. Aécio deixou para trás o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, que tem 13%.
O candidato tucano busca reconstruir a aliança de Minas com São Paulo, uma relação que sempre foi tensa, desde o fim da chamada política café com leite, na República Velha. Na Revolução de 1930, o governador mineiro Antônio Carlos apoiou o movimento armado que levou o gaúcho Getúlio Vargas ao poder, impedindo a posse do paulista Júlio Prestes, que fora eleito a "bico de pena", derrotando a Aliança Liberal. Na Revolução Constitucionalista de 1932, tropas mineiras também marcharam contra São Paulo.
A elite paulista, mesmo derrotada, sempre buscou o próprio protagonismo, com o cacife de que quem abdicou do patrimonialismo para investir na industrialização, o que transformou o estado na "locomotiva do Brasil". Aécio seduziu os eleitores paulistas.
Entre os 31,8 milhões de eleitores de São Paulo, que representam 22% do total, pesquisa Datafolha mostrou que Aécio Neves (PSDB) venceria Dilma Rousseff por 46% a 34%. É um desempenho espetacular para quem enfrentava forte oposição dos políticos no estado, não somente do PT, mas dentro de sua própria legenda.
Sonho mineiro
Aécio encarna o sonho dos mineiros de voltar ao centro do poder, reeditando os anos dourados do governo de Juscelino Kubitschek, na década de 1950. Esse sonho foi frustrado pelo regime militar e, depois, pela morte de Tancredo Neves, apesar dos dois anos de mandato de Itamar Franco. Mesmo mineira, Dilma Rousseff não representa esses interesses. A estratégia de Aécio Neves para unir o PSDB foi resgatar o legado político e institucional do governo de Fernando Henrique Cardoso, mesmo correndo o risco de restabelecer um tipo de polarização que levou os tucanos à derrota em 2002 (com José Serra), 2006 (com Geraldo Alckmin) e 2010 (com Serra, novamente).
Nessas três eleições, foi responsabilizado pela derrota, acusado de fazer corpo mole na campanha, o que sempre negou. Ontem, o ex-governador José Serra, o senador Aloysio Nunes (SP) e o ex-governador Alberto Goldman, que sempre o criticaram, estavam na convenção, firmes com Aécio, ao lado de Fernando Henrique e dos governadores Alckmin (SP), Marconi Perillo (GO), Teotonio Vilela (AL) e Beto Richa (PR).
Ao som do Hino Nacional lembrou o avô Tancredo Neves, eleito presidente da República pelo colégio eleitoral em 1984, mas que morreu antes de assumir. Fez rasgados elogios ao PSDB na gestão FHC: "Transformamos a realidade brasileira de forma permanente com o Plano Real. O Real recuperou a confiança do Brasil em si próprio..." Para contrariedade da presidente Dilma, voltou a dizer que o DNA do Bolsa Família é tucano: "Criamos os primeiros programas de transferência de renda e benefícios sociais, aquilo que se tomou depois o Bolsa Família".
O principal artífice de sua candidatura foi Fernando Henrique: "Posso dizer, do alto dos meus 83 anos, que o Brasil precisa de um líder jovem", disse. Hábil nas articulações políticas, o ex-governador mineiro faz uma aposta arriscada ao centralizar sua estratégia na economia e não na política, mas talvez seja essa a única via para chegar ao Planalto: "Nossos adversários mantiveram a coerência. Quem foi contra o Plano Real é quem hoje não controla a inflação. Quem foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal é quem hoje assina essa contabilidade maldita, disparou.
O ex-governador de Minas costuma dizer que sua bala de prata é a escolha do vice, opção que já foi feita tanto pela presidente Dilma Rousseff, que manteve Michel Temer na sua chapa como representante do PMDB, como por Eduardo Campos, que cresce com a ex-senadora Marina Silva na vice. Um dos nomes possíveis é o do ex-governador José Serra, que ontem reiterou seu apoio a Aécio: "Este espírito de mudança, Aécio, que agora converge para a sua candidatura, é o desdobramento de uma longa jornada no Brasil". Mas descartou seu nome na chapa. É candidato ao Senado ou à Câmara.
Aécio conquistou a unidade da legenda sem ceder a vice na composição interna. Seu companheiro de chapa pode ter um cacife decisivo para a eleição. Estão cotados o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati e a ex-ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Ellen Gracie, que é gaúcha, além do senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, todos do PSDB. Entre os aliados, desponta o senador José Agripino Maia (RN), presidente do DEM. A bala de prata seria um vice capaz de atrair para sua coligação mais uma legenda. O PSD, de Gilberto Kassab, por exemplo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

ABC da Copa


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 12/06/2014

 A Seleção é a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, mas, pela primeira vez, o futebol perdeu o consenso nacional. Nem durante a ditadura militar isso ocorreu

Alegria, beleza, criatividade, diversidade e emoção   são ingredientes básicos dos eventos esportivos. Na era da globalização, graças ao marketing, agregam valor às marcas, lideram o consumo de massas e garantem conteúdo audiovisual barato para a mídia, que é financiada pela venda de produtos e serviços associados diretamente à prática esportiva ou ao esporte como entretenimento. Essa indústria vende diversão e lazer, alimentos, bebidas, crédito, equipamentos, vestuário, serviços turísticos e tudo o mais que possa estar associado às multidões envolvidas. É uma fórmula mágica, na qual a Copa do Mundo de Futebol desponta como o maior e mais bem-sucedido evento mundial.

Uma vez em operação, essa engrenagem funciona como um rolo compressor, capaz de esmagar todos os obstáculos à sua frente, como aconteceu com o movimento “Não vai ter Copa”, iniciado durante a realização da Copa das Confederações, paralelamente aos protestos contra aumento das tarifas de transporte público que resultaram nas grandes manifestações populares do ano passado. As exigências e pressões da Fifa  para que as arenas e a organização do evento obedecessem aos padrões internacionais acabaram virando um mote para as exigências dos cidadãos em relação à qualidade dos serviços públicos.  A entidade lucrará R$ 10 bilhões com o evento, mas o governo brasileiro passou por grandes constrangimentos. 

Manus militari

 Devido aos protestos, o jeito foi acionar a mão pesada do Estado para garantir a realização dos jogos e a segurança dos torcedores, principalmente estrangeiros, com a mobilização de tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A presidente Dilma Rousseff garantiu manus militari à realização dos jogos. A Seleção é a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, mas, pela primeira vez, o futebol perdeu o consenso nacional. Nem durante a ditadura militar isso ocorreu.

Dilma foi à televisão e ao rádio criticar os “pessimistas”. Eles são 63% dos paulistas, os anfitriões do jogo de abertura da Copa. Resultado: não quer aparecer no telão, não quer fazer discurso na abertura dos jogos, não quer sequer ser citada na cerimônia que reunirá chefes de estados e autoridades esportivas para assistir o Brasil jogar contra a Croácia. É uma situação no mínimo estranha. Por que será?

Ora, num momento em que o país apresenta baixo crescimento e inflação em alta, um estudo da Consultoria Legislativa do Senado Federal mostrou que estamos realizando a Copa do Mundo mais cara de todos os tempos. Os campeonatos no Japão e na Coreia (2002), na Alemanha (2006) e na África do Sul (2010) consumiram, juntos, US$ 30 bilhões, de um total de US$ 75 bilhões desde o primeiro evento do tipo. No Brasil, os gastos com as obras somam aproximadamente US$ 40 bilhões. “Além de servir ao futebol, serão estádios multiúso. Vão funcionar também como centros comerciais, de negócios e de lazer, e palcos de shows e festas populares”, justificou a presidente Dilma Rousseff em seu pronunciamento. Será?

Os 12 estádios da Copa do Mundo de 2014 custaram 42% a mais do que o previsto em seus projetos iniciais. O valor total dos estádios subiu dos R$ 5,97 bilhões para R$ 8,48 bilhões de reais. O custo do Beira-Rio cresceu 169% entre o projeto em 2010 e a inauguração, em 2014. O Mané Garrincha, mais caro estádio da Copa de 2014, considerando o valor por assento, aumentou 87,8%. O único estádio que teve o custo final mais baixo do que o previsto foi o Castelão, no Ceará. O senso comum da população é de que esses gastos não eram prioritários. Como não foi consultada pelo governo, quando o Brasil pleiteou a sede do evento, não se pode exigir da maioria da população que concorde com essa decisão.

É lógico que nada disso impede os “pessimistas” de torcerem pelo sucesso da Seleção como os demais torcedores, nem de ir aos jogos; a vantagem de assisti-los aqui no Brasil é reservada a uma elite, não muda o cenário para a maioria da população, que acompanhará o evento pela televisão. “Construímos, ampliamos ou reformamos aeroportos, portos, avenidas, viadutos, pontes, vias de trânsito rápido e avançados sistemas de transporte público. Fizemos isso, em primeiro lugar, para os brasileiros. Tenho repetido que os aeroportos, os metrôs, os BRTs e os estádios não voltarão na mala dos turistas. Ficarão aqui, beneficiando a todos nós”, contra-argumenta a presidente Dilma Rousseff.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, diria um espírito de porco. Tudo isso deveria ser feito independentemente da Copa do Mundo. Agora, porém, é hora de torcer pela Seleção e deixar o assunto pra depois. Ou seja, para as eleições.

Algo deu errado em Sampa


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 11/06/2014

A estratégia traçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tomar dos tucanos o Palácio dos Bandeirantes e, simultaneamente, reeleger Dilma no primeiro turno está naufragando

 De todas as notícias negativas para a campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, até agora, a pior foi o resultado da pesquisa Datafolha em São Paulo, na qual a petista perderia a eleição no segundo turno por ampla margem. Entre os 31,8 milhões de eleitores paulistas, que representam 22% do total, Aécio Neves (PSDB) a venceria por 46% a 34%; Eduardo Campos (PSB), mesmo sem palanque local, por 43% a 34%. A pesquisa mostra que a estratégia traçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tomar dos tucanos o Palácio dos Bandeirantes e, simultaneamente, reeleger Dilma no primeiro turno está naufragando.
Lula tentou repetir no maior colégio eleitoral do país a mesma estratégia vitoriosa nas eleições da capital paulista, na qual conseguiu eleger o ex-ministro da Educação Fernando Haddad prefeito de São Paulo. Um ano e meio após tomar posse, o jovem administrador não conseguiu bom desempenho como gestor e amarga baixos índices de aprovação. Ou seja, é um péssimo cabo eleitoral para Dilma Rousseff. Deixou de ser também um trampolim para o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, o candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes, que ainda não conseguiu decolar e permanece com apenas 3% dos votos. Lula acreditava que ele repetiria a performance de Haddad, quando nada porque o patamar de votos petistas estimado pelos analistas seria de 30%.
Com os desgastes do governo federal com os paulistas — tem apenas 23% de aprovação —, a rejeição de Dilma em São Paulo chega a 46%, quando a média nacional é de 32%, o que é considerado mortal para qualquer candidato pelos marqueteiros. A opção de Dilma no estado seria uma aproximação com o candidato do PMDB, Paulo Skaf, que tem 21% da preferência. O ex-prefeito Gilberto Kassab, outro aliado, com 4% dos votos, já deriva para a oposição.
Surpreendentemente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em meio à onda de greves e protestos violentos, tem 44% das intenções de voto e venceria no primeiro turno. Isso é improvável, mas já não se pode dizer que é impossível. A radicalização do movimento sindical no setor público, como na greve do Metrô, parece beneficiar o tucano, que joga duro com o movimento paredista e capitaliza a insatisfação da grande massa de usuários prejudicada pelo vandalismo e a perturbação da vida urbana.
O padrinho da candidatura de Skaf em São Paulo é o vice-presidente Michel Temer, que espera ver o outrora poderoso PMDB de Ulysses Guimarães e Orestes Quércia renascer das cinzas, como Fênix. A lógica para o Palácio do Planalto seria o PT retirar a candidatura de Padilha e apoiar Skaf, numa chapa que poderia ter o ex-ministro na vice e o senador Eduardo Suplicy como candidato a mais um mandato. Mas isso é tratado como uma capitulação pela seção paulista da legenda, que conta com lideranças eleitoralmente robustas, como a ministra da Cultura, Marta Suplicy, e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, sem falar no ex-presidente Lula.
Em tempo
O Ibope divulgou nova pesquisa de intenção de voto para Presidente da República, realizada de 4 a 7 de junho, na qual Dilma Rousseff (PT) teria 38% das intenções de voto contra 22% de Aécio Neves (PSDB) na simulação do primeiro turno. Eduardo Campos (PSB) aparece em terceiro lugar com 13%. A pesquisa fez recrudescer as críticas à atuação do governo de parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que agora fala publicamente contra a gestão econômica. A expectativa de continuidade da atual política econômica começa a ser vista como um fator de negativo na estratégia de reeleição, mas a presidente Dilma Rousseff resiste às mudanças na equipe. Os candidatos de oposição, principalmente Aécio Neves, ganham cada vez mais apoio no meio empresarial por causa disso .
Com a mão
A presidente Dilma aproveitou a Copa do Mundo para um pronunciamento ontem em cadeia nacional de televisão no qual fez ampla propaganda de seu governo, a pretexto de saudar as seleções que participam dos jogos. Em tom triunfalista, rebateu os que criticam seu governo. Dilma procurou neutralizar os desgastes que vêm sofrendo por causa dos protestos contra a Copa no Brasil, o que contribuiu para sua queda nas pesquisas.

Do jeito que o PMDB gosta



Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense - 10/06/2014


Dilma Rousseff quer o tempo de televisão do PMDB, mas também quer ser menos dependente da legenda no Congresso. Para isso, precisa mudar a correlação de forças no Senado e na Câmara, o que significa debilitar o PMDB eleitoralmente

  O PMDB faz sua convenção nacional hoje, dividido como sempre. Uma ala majoritária apoia o governo e outra deriva para a oposição. A seção mais poderosa da legenda, o Rio de Janeiro, que trabalha a dobradinha “Aezão”, entrou com tudo na campanha do senador Aécio Neves, o pré-candidato do PSDB. Outra, liderada pelo senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), vai de Eduardo Campos, do PSB. Quem mais se fortalece com a divisão, porém, é o vice-presidente da República, Michel Temer, que comanda o grupo majoritário e confirmará seu nome na chapa. Hoje, devido à queda nas pesquisas, a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição é refém do apoio formal do PMDB. Se isso lhe for negado, como querem os dissidentes, o “Volta, Lula”, que é uma espécie de brasa adormecida, renascerá das cinzas. Basta um sopro para virar um fogaréu.

Não deixa de ser uma grande ironia. Michel Temer foi muito hostilizado pela turma que cerca a presidente Dilma Rousseff, que nunca incorporou o aliado ao seu estado-maior. Pelo contrário, manteve-o sempre à margem do centro de decisões. Toda vez que o circo pegou fogo no Congresso, porém, foi a ele que o Palácio do Planalto teve de recorrer para estabilizar a base governista. É uma situação recorrente desde a campanha do impeachment de Collor: ninguém governa sem o apoio do PMDB. Quando o PMDB está dividido, entretanto, cresce a força de Michel Temer como fiador da aliança com o PT. Há outros caciques governistas com luz própria na legenda, a começar pelo ex-presidente José Sarney, mas o vice-presidente da República é hábil e paciente, sabe navegar em meio aos espinhéis nas águas turvas da legenda.

Isso significa que a presidente Dilma se deixou seduzir pelo PMDB? Não, é um casamento de conveniências, no qual o maior interesse é o tempo de televisão da legenda. A cúpula do PMDB sabe disso, mas vê na queda das pesquisas a oportunidade de exigir compromissos que até agora não conseguiu arrancar do PT. O caso mais emblemático é o do Ceará, onde o senador Eunício de Oliveira é candidato ao governo e ameaçava se baldear para a oposição. Dilma tem compromisso com o governador Cid Gomes (Pros) e o irmão dele Ciro, que se recusam a apoiar o aliado do PMDB. É uma situação complexa, que se repete em menor ou maior grau em outros estados. Bom cabrito, Eunício não esperneia como Jorge Picciani, que comanda o PMDB fluminense e já desembarcou da canoa governista. Mas quem o conhece sabe que tem sangue nos olhos, não vai deixar barato se o PT apoiar outro candidato no seu estado.

Dilma Rousseff quer o tempo de televisão do PMDB, mas também quer ser menos dependente da legenda no Congresso. Para isso, precisa mudar a correlação de forças no Senado e na Câmara, o que significa debilitar o PMDB eleitoralmente. Onde isso está sendo feito pelo avanço do PT, a reação dos caciques locais já está em curso e deve se expressar por meio da resistência à coligação, durante a convenção. Pode não ter peso inviabilizar o apoio formal à Dilma, mas, eleitoralmente, o estrago será grande. As dissidências estão a abrir caminho para a “cristianização” da petista caso a eleição vá para o segundo turno.

Vai ter Copa
A imagem do Brasil no exterior vai de mau a pior por causa dos protestos contra a Copa do Mundo, da violência e das greves em serviços essenciais. Apesar da intensa campanha de marketing dos patrocinadores do evento, o noticiário sobre o Brasil é muito negativo. O Palácio do Planalto perdeu a batalha no front externo, mas isso não significa que tenha perdido a guerra. Tudo dependerá do desempenho dos organizadores dos jogos e da eficiência do esquema de segurança para proteger os torcedores estrangeiros. No plano interno, porém, a maioria dos torcedores gosta do técnico Felipão e do time que escalou e começa a reagir contra os que protestam.

domingo, 18 de maio de 2014

Quem vai pagar a conta?

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 18/052014
 Ou o governo gasta menos e foca, ou tira mais do bolso do contribuinte, cujas prioridades não são sequer consideradas. Estão aí os gastos da Copa
O jogo é jogado. O PT optou pela tática de disseminar o medo de mudança entre os eleitores porque essa é a lei do menor esforço para conservação do poder. Como se sabe, porém, o temor em relação ao futuro alimenta o status quo. É uma velha tática do conservadorismo, que o transformismo petista abduziu depois de quase 12 anos de poder. O problema é que o governo não conseguiu dar conta das obras de infraestrutura indispensáveis à retomada do crescimento, o que provocou generalizada insatisfação do setor produtivo, e enfrenta ampla insatisfação da população em relação aos serviços prestados pelo Estado, principalmente nas áreas de transportes, segurança, saúde e educação.

Como não há tempo para resolver essas demandas, o Palácio do Planalto procura desqualificar a oposição. É do jogo. O cerne da estratégia do medo é acusar os pré-candidatos Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) de propor o desemprego e o arrocho nos salários para reduzir a taxa de inflação. "Um desempregozinho", como disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproveitando-se do senso comum do trabalhador assalariado, cuja psicologia conhece bem, pois foi metalúrgico e líder sindical. É óbvio que qualquer assalariado prefere garantir o emprego, mesmo com a perda de poder aquisitivo, do que ter estabilidade de preços sem salário para receber no fim do mês.

Essa lógica, porém, não resolve a equação estabilidade com crescimento, que é única maneira de garantir os empregos e os salários, simultaneamente, bem como gerar investimentos em infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços públicos. No longo prazo, a inflação continuará ascendente, porque se torna inercial, e aí os empregos começam a ir para o espaço com os salários. A fórmula para resolver esse problema, na situação atual, é uma taxa de juros que mire os 4,5% do centro da meta; um superavit primário que reduza a dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e uma taxa de câmbio que garanta o equilíbrio das contas externas. Fora disso, nada impede que tudo possa piorar na economia.

Voluntarismo
Ocorre que a presidente Dilma Rousseff resolveu jogar esse "tripé" pela janela ao concluir que garantiria mais capacidade de investimento do Estado e maior produtividade da economia reduzindo a taxa de juros a fórceps. Como crescer com inflação baixa não era apenas uma questão de vontade política, a "nova matriz" não emplacou: os juros voltaram a subir, a economia avança a passos de cágado e a economia começa a dar sinais de que não conseguirá, pela inércia, manter o atual nível de emprego.
Há mais exemplos de como o voluntarismo fez a presidente Dilma Rousseff tropeçar nas próprias pernas: o Brasil poderia ter mais 10 mil quilômetros de ferrovias, mas somente conseguiu dar sequência à construção de 3 mil quilômetros da Transnordestina e da Norte-Sul. Motivo: o modelo de concessão adotado é considerado uma roubada pelas empresas interessadas no setor, que fogem das licitações. É mais ou menos o que aconteceu com as estradas, até que governo decidiu recuar. Construir ferrovias, porém, demora mais e custa mais.

Outro exemplo de que nem tudo depende de um ato de vontade: o truco nas empresas do setor elétrico, que o governo quebrou ao jogar as tarifas para baixo, sem garantir as margens de lucro necessárias aos investimentos e à própria operação. Agora, transfere recursos do Tesouro para garantir o funcionamento do sistema com a promessa de recuperá-los em 2015, quando, inevitavelmente, haverá um choque tarifário. A mesma coisa acontece com a Petrobras: o governo segura o preço dos combustíveis para manter a inflação na órbita dos 6,5% do teto da meta, mesmo que o preço disso seja a absurda desvalorização da empresa e o comprometimento de seus investimentos. É uma espécie de estelionato eleitoral.

Deixemos de lado os escândalos envolvendo ex-diretores da empresa, que há meses ocupam as páginas dos jornais. Para crescer 4% ao ano — e assim garantir o emprego e a renda familiar —, o Brasil precisa de taxas de investimento de 22% a 24% do PIB, mas a sua poupança está entre 14% e16%. De onde sairá esse dinheiro? Ora, só há duas maneiras: ou o governo gasta menos e foca, ou tira mais do bolso do contribuinte, cujas prioridades não são sequer consideradas. Estão aí os gastos da Copa.

PS: vou curtir 20 dias de férias, volto à coluna em 10 de junho.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A CPI chapa-branca

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 15/05/2014

Vital do Rêgo (PMDB-PB) lidera o grupo de raposas governistas escalado para domar a CPI da Petrobras, que será a mais chapa-branca das comissões de inquérito já instaladas no Senado. Tanto que o relator, senador José Pimentel, é o líder do governo no Congresso

O doleiro Yousseff e da Costa, ex-diretor da Petrobras
 A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras do Senado começou a funcionar ontem. Aprovou requerimentos de convocação da presidente da Petrobras, Graça Foster, e do ex-diretor da área internacional da empresa Nestor Cerveró. Ambos foram chamados para prestar esclarecimentos sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A CPI aprovou também um plano de trabalho elaborado pelo relator, senador José Pimentel (PT-CE), e outros 74 requerimentos apresentados por parlamentares aliados ao governo. O único titular da oposição é senador Cyro Miranda (PSDB-GO), apenas para marcar posição.
O depoimento de Graça Foster à CPI foi marcado para a próxima terça-feira e o de Gabrielli, para quinta-feira. Ambos foram chamados para pôr um ponto final na polêmica sobre a compra de Pasadena, nos EUA: a primeira dirá que a operação passou a ser um mau negócio depois da crise mundial; o segundo, que foi um bom negócio quando realizado. Ficará o dito pelo não dito. As demais convocações não têm data definida, segundo o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), que lidera o grupo de raposas governistas escalado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) para domar o colegiado. Essa será a mais chapa-branca das comissões de inquérito já instaladas no Senado. Tanto que o relator, senador José Pimentel, é o líder do governo no Congresso.
Também são titulares da CPI os senadores governistas João Alberto Souza (PMDB-MA), Valdir Raupp (PMDB-RO), Ciro Nogueira (PP-PI), Humberto Costa (PT-PE), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Acir Gurgacz (PDT-RO), Aníbal Diniz (PT-AC), Jorge Viana (PT- AC), Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) e Gim Argello (PTB-DF). A maioria tem interesses na Petrobras e suas subsidiárias. As prioridades dos trabalhos da comissão não estão muito claras. Uma delas é o Porto de Suape, que tem uma ligação com a refinaria de Abreu e Lima, esta sim, prevista no requerimento de criação da CPI. O porto é uma empresa pública do estado de Pernambuco e, segundo Pimentel, haveria denúncias de sobrepreço nas obras de interligação entre a refinaria e o Píer de Suape. Abreu e Lima está situada dentro da área portuária. O requerimento mira o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência da República.
O elo perdido
A CPI é tão chapa-branca que não dá sequer para imaginar um Fla-Flu parecido com o que ocorreu na CPI Mista do Banestado, entre o relator, o deputado petista José Mentor (SP), e seu presidente, e o então senador tucano Antero Paes de Barros. Aquela foi uma das mais conturbadas investigações parlamentares já realizadas pelo Congresso. O Palácio do Planalto também tentou impedir a instalação, mas fracassou por causa da repercussão negativa do caso. Um dos momentos de maior tensão na CPI ocorreu em torno da convocação do ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf. O PT posicionou-se contra, Maluf não foi convocado.
Após um ano e meio de investigações, Mentor sugeriu o indiciamento de 91 pessoas, entre elas o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco; o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta; e o ex-dono das Casas Bahia (maior rede varejista do Brasil) Samuel Klein. Foram acusados de participar de um esquema de evasão de divisas, por meio de contas CC5, que teria chegado a R$ 150 bilhões. Franco foi denunciado apenas porque criou os mecanismos legais usados pelo Banestado para envio de dinheiro ao exterior. Havia a presunção de que mais de 130 políticos estavam envolvidos no esquema, além de empresários e pessoas ligadas ao tráfico de drogas, de armas e de mulheres, mas nenhum nome surgiu no relatório.
A CPI foi acusada de abusar das quebras de sigilos bancários e fiscais. Foram mais de 1,7 mil pedidos. Um dos atingidos foi o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, acusado de não declarar à Receita Federal movimentações financeiras feitas no exterior. Para protegê-lo, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou uma Medida Provisória ao Congresso para dar status de ministro e foro privilegiado ao presidente do Banco Central. O que tem a ver a fracassada CPI do Banestado com a CPI da Petrobras? Aparentemente nada, exceto o fato de que o doleiro envolvido no caso Banestado era o mesmo Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa, também detido e considerado o homem-bomba do suposto propinoduto da Petrobras que assombra o Congresso.