terça-feira, 1 de setembro de 2015
No colo do Congresso
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 01/09/2015
Orçamento no vermelho é uma maneira de o Palácio do Planalto confrontar o Congresso, responsabilizando-o pelo fato de suas lideranças terem rejeitado a proposta de recriação da CPMF
A presidente Dilma Rousseff decidiu jogar no colo do Congresso o rombo nas contas públicas, ao encaminhar a proposta de Orçamento da União para 2016 com deficit de R$ 30,5 bilhões, o que representa 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Argumenta que a proposta é mais realista. Será?
Na verdade, se considerarmos as projeções feitas para a economia em 2016, a proposta é furada: o documento encaminhado ao Congresso prevê crescimento econômico de 0,2%, quando a maioria dos analistas já dá como certa que a recessão deste ano, estimada em 2,5%, deve se projetar para o ano que vem. A inflação estimada pelo governo também é falsa, pois nada garante que ficará em 5,4%, com o governo gastando mais do que arrecada.
O governo também faz projeções otimistas quanto a novas fontes de arrecadação, como o aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que seria de R$ 11,2 bilhões, e a ampliação das concessões e vendas de imóveis, com a qual espera arrecadar mais R$ 37,3 bilhões.
Orçamento no vermelho é uma maneira de o Palácio do Planalto confrontar o Congresso, responsabilizando-o pelo fato de suas lideranças terem rejeitado no nascedouro a proposta de recriação do antigo imposto do cheque, a CPMF (Contribuição sobre Operações Financeiras).
Anunciada na quinta-feira, rejeitada pelo vice-presidente Michel Temer; pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL); e por lideranças empresariais, a proposta foi abortada pela presidente Dilma Rousseff, depois de uma reunião com seus ministros, no sábado.
Enquanto a criação de mais impostos ronda o Congresso, a proposta orçamentária não apresenta o corte de ministérios prometido pela presidente Dilma com pompa e circunstância. O ministro do Planejamento anunciou que o governo pretende cortar 10 pastas, o que reduziria para 29. Além disso, está sendo analisada a extinção de mil cargos comissionados.
Segundo Barbosa, a economia seria de “algumas centenas de milhões de reais”. A expectativa é de que o anúncio, a ser negociado com os partidos aliados, seja feito até o fim deste mês. A mudança nem de longe representa uma reforma administrativa de verdade, enxugando a máquina pública. É mais um factoide para dizer que o governo cortou na própria carne.
O governo não conseguiu fazer um ajuste fiscal, continuará gastando mais do que arrecada e ampliando a dívida pública. A consequência pode ser a temida perda do grau de investimento. Na verdade, uma parte do governo e o PT responsabilizam o ajuste fiscal pela recessão e o aumento do desemprego.
Essa lógica deve orientar a mobilização dos 13 petistas que compõem o ministério para uma maratona de viagens pelo país, de setembro a dezembro, mirando municípios com mais de 100 mil habitantes. Foram selecionadas 189 cidades. Nas mais importantes, a mobilização será liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nova distância
Enquanto não há luz no fim do túnel da economia, a situação política continua indefinida. O PMDB exibirá nesta semana uma série de inserções na TV na qual se reposicionará em relação ao governo. Um recado para a presidente Dilma está causando muito desconforto: “A verdade é sempre a melhor escolha”. O vice-presidente da República, Michel Temer; o ministro da Aviação, Eliseu Padilha; e o ex-ministro Moreira Franco protagonizam os filmetes.
Temer, que deixou a coordenação política do governo, sinaliza distância calculada do governo: “O Brasil sempre vai ser maior e mais importante do que qualquer governo. Esta é a verdade”. O vice-presidente fala novamente da necessidade de reunificar a sociedade.
No Palácio do Planalto, porém, a orientação é não passar recibo. Avalia-se que o PMDB não deixará o governo a curto prazo e que o acordo feito com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é robusto o suficiente para dar certa estabilidade à relação com o Congresso.
Esse acordo também tem garantido à presidente Dilma Rousseff um certo alívio em relação ao Tribunal de Contas da União (TCU). Dilma ganhou mais 15 dias para que responda a dois novos questionamentos sobre irregularidades nos gastos do governo de 2014. O prazo termina em 11 de setembro. Com isso, a previsão é que o julgamento das contas do governo ocorra apenas em outubro.
Mesmo que as contas venham a ser rejeitadas pelo TCU, recente liminar do ministro Luiz Barroso determinou que contas sejam examinadas em sessão do Congresso e não pela Câmara e pelo Senado, separadamente. Com isso, a iniciativa de pautar a matéria saiu das mãos de Eduardo Cunha para as de Calheiros, ou seja, o presidente do Senado pode matar no peito a apreciação das contas de 2014, jogando-as para as calendas.
Correio Braziliense - 01/09/2015
Orçamento no vermelho é uma maneira de o Palácio do Planalto confrontar o Congresso, responsabilizando-o pelo fato de suas lideranças terem rejeitado a proposta de recriação da CPMF
A presidente Dilma Rousseff decidiu jogar no colo do Congresso o rombo nas contas públicas, ao encaminhar a proposta de Orçamento da União para 2016 com deficit de R$ 30,5 bilhões, o que representa 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Argumenta que a proposta é mais realista. Será?
Na verdade, se considerarmos as projeções feitas para a economia em 2016, a proposta é furada: o documento encaminhado ao Congresso prevê crescimento econômico de 0,2%, quando a maioria dos analistas já dá como certa que a recessão deste ano, estimada em 2,5%, deve se projetar para o ano que vem. A inflação estimada pelo governo também é falsa, pois nada garante que ficará em 5,4%, com o governo gastando mais do que arrecada.
O governo também faz projeções otimistas quanto a novas fontes de arrecadação, como o aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que seria de R$ 11,2 bilhões, e a ampliação das concessões e vendas de imóveis, com a qual espera arrecadar mais R$ 37,3 bilhões.
Orçamento no vermelho é uma maneira de o Palácio do Planalto confrontar o Congresso, responsabilizando-o pelo fato de suas lideranças terem rejeitado no nascedouro a proposta de recriação do antigo imposto do cheque, a CPMF (Contribuição sobre Operações Financeiras).
Anunciada na quinta-feira, rejeitada pelo vice-presidente Michel Temer; pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL); e por lideranças empresariais, a proposta foi abortada pela presidente Dilma Rousseff, depois de uma reunião com seus ministros, no sábado.
Enquanto a criação de mais impostos ronda o Congresso, a proposta orçamentária não apresenta o corte de ministérios prometido pela presidente Dilma com pompa e circunstância. O ministro do Planejamento anunciou que o governo pretende cortar 10 pastas, o que reduziria para 29. Além disso, está sendo analisada a extinção de mil cargos comissionados.
Segundo Barbosa, a economia seria de “algumas centenas de milhões de reais”. A expectativa é de que o anúncio, a ser negociado com os partidos aliados, seja feito até o fim deste mês. A mudança nem de longe representa uma reforma administrativa de verdade, enxugando a máquina pública. É mais um factoide para dizer que o governo cortou na própria carne.
O governo não conseguiu fazer um ajuste fiscal, continuará gastando mais do que arrecada e ampliando a dívida pública. A consequência pode ser a temida perda do grau de investimento. Na verdade, uma parte do governo e o PT responsabilizam o ajuste fiscal pela recessão e o aumento do desemprego.
Essa lógica deve orientar a mobilização dos 13 petistas que compõem o ministério para uma maratona de viagens pelo país, de setembro a dezembro, mirando municípios com mais de 100 mil habitantes. Foram selecionadas 189 cidades. Nas mais importantes, a mobilização será liderada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nova distância
Enquanto não há luz no fim do túnel da economia, a situação política continua indefinida. O PMDB exibirá nesta semana uma série de inserções na TV na qual se reposicionará em relação ao governo. Um recado para a presidente Dilma está causando muito desconforto: “A verdade é sempre a melhor escolha”. O vice-presidente da República, Michel Temer; o ministro da Aviação, Eliseu Padilha; e o ex-ministro Moreira Franco protagonizam os filmetes.
Temer, que deixou a coordenação política do governo, sinaliza distância calculada do governo: “O Brasil sempre vai ser maior e mais importante do que qualquer governo. Esta é a verdade”. O vice-presidente fala novamente da necessidade de reunificar a sociedade.
No Palácio do Planalto, porém, a orientação é não passar recibo. Avalia-se que o PMDB não deixará o governo a curto prazo e que o acordo feito com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), é robusto o suficiente para dar certa estabilidade à relação com o Congresso.
Esse acordo também tem garantido à presidente Dilma Rousseff um certo alívio em relação ao Tribunal de Contas da União (TCU). Dilma ganhou mais 15 dias para que responda a dois novos questionamentos sobre irregularidades nos gastos do governo de 2014. O prazo termina em 11 de setembro. Com isso, a previsão é que o julgamento das contas do governo ocorra apenas em outubro.
Mesmo que as contas venham a ser rejeitadas pelo TCU, recente liminar do ministro Luiz Barroso determinou que contas sejam examinadas em sessão do Congresso e não pela Câmara e pelo Senado, separadamente. Com isso, a iniciativa de pautar a matéria saiu das mãos de Eduardo Cunha para as de Calheiros, ou seja, o presidente do Senado pode matar no peito a apreciação das contas de 2014, jogando-as para as calendas.
domingo, 30 de agosto de 2015
O recado de Cícero
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 30/08/2015
O Palácio do Planalto dá sinais de que ensaia uma espécie de tango argentino, ou seja, uma guinada populista para atender às reivindicações dos movimentos sociais comandados pelos petistas
Marco Túlio Cícero (106 a.C.- 43 a.C.) foi um notável estadista, filósofo e administrador romano, que estudou na Grécia, onde esteve exilado. Apesar de ter sido eleito consul em 63 a.C., não foi um político pragmático. No auge de seu prestígio, trombou com Pompeu, Júlio César e Crasso e teve que se exilar novamente.
Com a morte de Cesar, denunciou as pretensões ditatoriais de Marco Antônio. E apoiou Otávio, filho de Cesar, na guerra entre ambos. Os dois, porém, se uniram contra ele, e Cícero acabou condenado à morte. A cabeça e as mãos decepadas do filósofo foram expostas no Fórum romano, cujas ruínas podem ser vistas até hoje na cidade de Roma.
Cícero era indeciso, vaidoso, subestimou seus oponentes e exagerou as virtudes dos amigos. Não compreendeu a ausência de mecanismos asseguradores da lei e da ordem e o controle dos exércitos no Império Romano. Sua honestidade, patriotismo e capacidade intelectual, porém, reservaram-lhe um lugar no altar da história, quando nada por debelar a conspiração de Catilina para assumir o poder e opor-se a Marco Antônio, no fim da vida, em defesa da República.
Legou ao Ocidente conceitos como “qualidade”, “individual”, “indução”, “elemento”, “definição”, “noção”, “infinidade” etc. Uma dezena de suas obras ajudaram a preservar a cultura greco-romana, algumas das quais influenciaram profundamente a ética cristã e a moral laica moderna.
É dele uma conhecida citação sobre a administração pública: “O orçamento nacional deve ser equilibrado. As dívidas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos se a nação não quiser ir à falência. As pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública”.
A presidente Dilma Rousseff deveria ouvir os conselhos de Cícero. Com o país mergulhado na recessão, com a inflação ainda alta, uma crise cambial mascarada e o desemprego, o anúncio de que o governo pretende recriar a CPMF surpreendeu os políticos da própria base do governo e grandes empresários que apoiam o governo.
O Palácio do Planalto dá sinais de que ensaia uma espécie de tango argentino, ou seja, uma guinada populista para atender às reivindicações dos movimentos sociais comandados pelos petistas. O mea-culpa do começo da semana foi substituído pela radicalização do discurso contra a oposição.
No Ceará, Dilma voltou a fantasiar a realidade e difundir uma visão maniqueísta sobre o país. Disse que há uma “minoria” de “pescadores de águas turvas” que apostam no “quanto pior, melhor”. E voltou a prometer o que é incapaz de cumprir: “Mas nós vamos ter clareza de afirmar não só que o Brasil é um país forte, mas também que vai crescer e vai superar as dificuldades que tem, que são momentâneas”, acrescentou.
O bumerangue
No mesmo dia, o IBGE divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 1,9% no segundo trimestre de 2015, em relação aos três meses anteriores, e o país entrou na chamada “recessão técnica”, que ocorre quando a economia registra dois trimestres seguidos de queda. De janeiro a março deste ano, o PIB teve baixa de 0,7% (dado revisado).
Em relação ao segundo trimestre de 2014, a baixa foi ainda mais profunda, de 2,6%, a maior desde o primeiro trimestre de 2009, quando o recuo também foi de 2,6%. Em valores correntes, o PIB no segundo trimestre do ano alcançou R$ 1,43 trilhão. Na análise dos setores, todos registraram queda, puxada pela indústria, que teve retração de 4,3%, pela agropecuária, de 2,7%, e pelos serviços, de 0,7%.
O dólar fechou a semana em R$ 3,58, o que terá impacto na inflação, e o Banco Central divulgou que as contas de todo o setor público, incluindo o governo, estados, municípios e empresas estatais, registraram nova deterioração em julho. Houve deficit primário (receitas menos despesas, sem contar os juros) de R$ 10,01 bilhões. Ou seja, o governo gasta muito mais do que arrecada. O ajuste fiscal está indo para o ralo.
Quando a CPMF deixou de ser cobrada, em 2008, o governo aumentou a Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos de 8% para 15%; agora, Congresso aprovou nova subida, para 20%, como forma de compensar essa perda. O IOF também subiu imediatamente após a CPMF ser extinta em janeiro em 2008 e hoje arrecada cerca de 30 bilhões de reais por ano. Ou seja, não houve perda de arrecadação por causa do fim da CPMF.
O que fez a economia desandar foi a chamada “nova matriz econômica”, uma sucessão de decisões equivocadas da presidente Dilma para manter o país no reino da fantasia e se reeleger. Agora, a inclusão da nova CPMF no Orçamento de 2016 é mais um imbróglio político, numa hora em que o Palácio do Planalto perdeu seu principal articulador político e corre o risco de perder o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que se opôs à iniciativa.
Setores empresariais que se posicionaram contra o impeachment da presidente da República estão contra o novo imposto, os líderes do PMDB e da oposição também. Dilma pretende lançar governadores e prefeitos contra o Congresso, para aprovar a volta da CPMF, mas se esquece de que a mobilização dos demais entes federados pode se voltar contra o Palácio do Planalto, como um bumerangue.
Correio Braziliense - 30/08/2015
O Palácio do Planalto dá sinais de que ensaia uma espécie de tango argentino, ou seja, uma guinada populista para atender às reivindicações dos movimentos sociais comandados pelos petistas
Marco Túlio Cícero (106 a.C.- 43 a.C.) foi um notável estadista, filósofo e administrador romano, que estudou na Grécia, onde esteve exilado. Apesar de ter sido eleito consul em 63 a.C., não foi um político pragmático. No auge de seu prestígio, trombou com Pompeu, Júlio César e Crasso e teve que se exilar novamente.
Com a morte de Cesar, denunciou as pretensões ditatoriais de Marco Antônio. E apoiou Otávio, filho de Cesar, na guerra entre ambos. Os dois, porém, se uniram contra ele, e Cícero acabou condenado à morte. A cabeça e as mãos decepadas do filósofo foram expostas no Fórum romano, cujas ruínas podem ser vistas até hoje na cidade de Roma.
Cícero era indeciso, vaidoso, subestimou seus oponentes e exagerou as virtudes dos amigos. Não compreendeu a ausência de mecanismos asseguradores da lei e da ordem e o controle dos exércitos no Império Romano. Sua honestidade, patriotismo e capacidade intelectual, porém, reservaram-lhe um lugar no altar da história, quando nada por debelar a conspiração de Catilina para assumir o poder e opor-se a Marco Antônio, no fim da vida, em defesa da República.
Legou ao Ocidente conceitos como “qualidade”, “individual”, “indução”, “elemento”, “definição”, “noção”, “infinidade” etc. Uma dezena de suas obras ajudaram a preservar a cultura greco-romana, algumas das quais influenciaram profundamente a ética cristã e a moral laica moderna.
É dele uma conhecida citação sobre a administração pública: “O orçamento nacional deve ser equilibrado. As dívidas devem ser reduzidas, a arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Os pagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos se a nação não quiser ir à falência. As pessoas devem, novamente, aprender a trabalhar, em vez de viver por conta pública”.
A presidente Dilma Rousseff deveria ouvir os conselhos de Cícero. Com o país mergulhado na recessão, com a inflação ainda alta, uma crise cambial mascarada e o desemprego, o anúncio de que o governo pretende recriar a CPMF surpreendeu os políticos da própria base do governo e grandes empresários que apoiam o governo.
O Palácio do Planalto dá sinais de que ensaia uma espécie de tango argentino, ou seja, uma guinada populista para atender às reivindicações dos movimentos sociais comandados pelos petistas. O mea-culpa do começo da semana foi substituído pela radicalização do discurso contra a oposição.
No Ceará, Dilma voltou a fantasiar a realidade e difundir uma visão maniqueísta sobre o país. Disse que há uma “minoria” de “pescadores de águas turvas” que apostam no “quanto pior, melhor”. E voltou a prometer o que é incapaz de cumprir: “Mas nós vamos ter clareza de afirmar não só que o Brasil é um país forte, mas também que vai crescer e vai superar as dificuldades que tem, que são momentâneas”, acrescentou.
O bumerangue
No mesmo dia, o IBGE divulgou que o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 1,9% no segundo trimestre de 2015, em relação aos três meses anteriores, e o país entrou na chamada “recessão técnica”, que ocorre quando a economia registra dois trimestres seguidos de queda. De janeiro a março deste ano, o PIB teve baixa de 0,7% (dado revisado).
Em relação ao segundo trimestre de 2014, a baixa foi ainda mais profunda, de 2,6%, a maior desde o primeiro trimestre de 2009, quando o recuo também foi de 2,6%. Em valores correntes, o PIB no segundo trimestre do ano alcançou R$ 1,43 trilhão. Na análise dos setores, todos registraram queda, puxada pela indústria, que teve retração de 4,3%, pela agropecuária, de 2,7%, e pelos serviços, de 0,7%.
O dólar fechou a semana em R$ 3,58, o que terá impacto na inflação, e o Banco Central divulgou que as contas de todo o setor público, incluindo o governo, estados, municípios e empresas estatais, registraram nova deterioração em julho. Houve deficit primário (receitas menos despesas, sem contar os juros) de R$ 10,01 bilhões. Ou seja, o governo gasta muito mais do que arrecada. O ajuste fiscal está indo para o ralo.
Quando a CPMF deixou de ser cobrada, em 2008, o governo aumentou a Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos de 8% para 15%; agora, Congresso aprovou nova subida, para 20%, como forma de compensar essa perda. O IOF também subiu imediatamente após a CPMF ser extinta em janeiro em 2008 e hoje arrecada cerca de 30 bilhões de reais por ano. Ou seja, não houve perda de arrecadação por causa do fim da CPMF.
O que fez a economia desandar foi a chamada “nova matriz econômica”, uma sucessão de decisões equivocadas da presidente Dilma para manter o país no reino da fantasia e se reeleger. Agora, a inclusão da nova CPMF no Orçamento de 2016 é mais um imbróglio político, numa hora em que o Palácio do Planalto perdeu seu principal articulador político e corre o risco de perder o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que se opôs à iniciativa.
Setores empresariais que se posicionaram contra o impeachment da presidente da República estão contra o novo imposto, os líderes do PMDB e da oposição também. Dilma pretende lançar governadores e prefeitos contra o Congresso, para aprovar a volta da CPMF, mas se esquece de que a mobilização dos demais entes federados pode se voltar contra o Palácio do Planalto, como um bumerangue.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Ondas e marés
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 27/08/2015
Chegará um momento em que Lula se lançará ao mar novamente, amparado nos movimentos sociais, responsabilizando Dilma por tudo o que deu de errado no país. Não será uma manobra simples
As ondas, as marés e as correntes têm
causas muito diferentes, embora formem uma mesma massa líquida nos
oceanos. Grosso modo, as ondas são provocadas predominantemente pelo
vento; as marés, pela influência do Sol e da Lua; e as correntes, pelo
deslocamento das águas quentes de origem equatorial e das frias,
originárias dos polos da Terra, que se deslocam em sentido horário e
anti-horário, dependendo do hemisfério. Nossa costa é banhada pelas
correntes Brasil (quente) e Malvinas (fria). Esse é o beabá da
navegação.
Conhecer o movimento das marés é necessário até na hora de ancorar uma embarcação. Desculpe-me a comparação, mas a presidente Dilma Rousseff parece não saber distinguir o movimento das ondas, das marés e das correntes da vida nacional. Tem se revelado incapaz de conduzir o país em meios aos perigos que o mar revolto oferece. O melhor exemplo são as recentes declarações de que demorou a perceber a gravidade da crise econômica e que, por isso, seu governo não reagiu antes da borrasca chegar.
Há na afirmação dois embustes: o primeiro é o fato de que foi devidamente advertida pela sua própria equipe econômica, em meados do ano passado, ou seja, pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que foi demitido mas só deixou o cargo depois das eleições; o segundo, é a tentativa canhestra de atribuir a culpa da crise à economia mundial e, assim, fugir à própria responsabilidade.
Dilma navega sem carta-piloto, tábua de marés e previsão do tempo. Na verdade, a crise que o país atravessa teve causas internas e foi provocada pelo voluntarismo político, uma característica da presidente da República desde os tempos em que aderiu à luta armada contra o regime militar. No mar, o voluntarismo costuma resultar em naufrágios. Na economia e na política, não é diferente.
Foi em agosto de 2011, ou seja, no primeiro ano de mandato, que Dilma resolveu jogar ao mar a bússola que orientava a economia do país desde o chamado Plano Real: o famoso tripé meta de inflação, o câmbio flutuante e o superavit fiscal. Começou com a meta de redução forçada da taxa de juros. Com uma inflação em torno de 6,5% ao ano, o BC reduziu os juros para 7,25% naquele mesmo ano, com intenção de chegar a 2,5% em 2014.
Simultaneamente, o Ministério da Fazenda forçou a desvalorização do real, passou a administrar a taxa de câmbio e adotou medidas protecionistas e outros estímulos à indústria, como desonerações e crédito subsidiado via BNDES. Para completar o desastre, apelou às chamadas “pedaladas fiscais”, jogou na lata do lixo a Lei de Responsabilidade Fiscal. O abandono da política de superavit fiscal fez explodir a dívida pública, que agora é o grande nó da retomada do crescimento.
A crise econômica é, pois, estrutural. Para usar a linguagem náutica, digamos que é uma grande corrente polar, que se manterá predominante por um bom período, com recessão, desemprego, desvalorização cambial e inflação, espantando investidores e retraindo o consumo.
Mar de almirante
Com mau tempo, os políticos também se agitam. Se Dilma faz trapalhadas na economia, na política nem se fala. A começar pela avaliação da chamada correlação de forças. Confunde o poder do Estado com sua própria força, o posicionamento de banqueiros e federações das indústrias contra o impeachment com o apoio incondicional ao seu governo. Resultado: depois de jogar a bússola ao mar, trancou o imediato na cabine e ameaça desembarcar o piloto, ou seja, o vice-presidente Michel Temer e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, respectivamente.
A situação no Congresso é enganadora, como uma baía abrigada apenas dos ventos de Nordeste. Se entrar um Sudoeste, será um Deus nos acuda. Por enquanto, a situação está sob controle, porque as principais lideranças do PMDB estão acuadas pela Operação Lava-Jato, a começar pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas na hora em que novas denúncias forem feitas contra os 48 políticos envolvidos, e que o povo voltar aos protestos de rua, novamente a confusão se estabelecerá.
A saída de Michel Temer da coordenação política foi um sinal de que a situação a bordo tende a se tornar caótica na próxima borrasca. Dilma dispensou a colaboração de seu aliado mais importante. A conversa de que o vice-presidente da República vai cuidar da macropolítica não deixa de ser verdadeira. Mas o fará em benefício do projeto de poder do PMDB, que passa pelas eleições municipais — a candidatura de Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo. Mira uma candidatura própria em 2018. Na melhor das hipóteses, para Dilma; na pior, é o impeachment.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pulou fora do barco, de fininho. O petista reaproximou-se de Dilma por causa da Operação Lava-Jato, que ameaça destruir sua biografia. Ruim com a presidente da República; pior ainda sem ela, dirão os petistas. Mas chegará um momento em que Lula se lançará ao mar novamente, amparado nos movimentos sociais, responsabilizando Dilma por tudo o que deu de errado no país. Não será uma manobra simples, mas é a única que lhe resta, a não ser que a presidente da República seja apeada do poder e Temer assuma a Presidência.
A oposição, em meio ao mar revolto, parece desnorteada. Depois de apostar no impeachment, deu meio volta e aguarda os desdobramentos da Operação Lava-Jato e do julgamento das contas de campanha da presidente Dilma Rousseff pelo Tribunal Superior Eleitoral. Voltou a ter esperanças de que Dilma e Temer sejam cassados por crime eleitoral, o que exigiria a realização de novas eleições já. Ou seja, sonha com um mar de almirante pouco provável.
Correio Braziliense - 27/08/2015
Chegará um momento em que Lula se lançará ao mar novamente, amparado nos movimentos sociais, responsabilizando Dilma por tudo o que deu de errado no país. Não será uma manobra simples
As ondas, as marés e as correntes têm
causas muito diferentes, embora formem uma mesma massa líquida nos
oceanos. Grosso modo, as ondas são provocadas predominantemente pelo
vento; as marés, pela influência do Sol e da Lua; e as correntes, pelo
deslocamento das águas quentes de origem equatorial e das frias,
originárias dos polos da Terra, que se deslocam em sentido horário e
anti-horário, dependendo do hemisfério. Nossa costa é banhada pelas
correntes Brasil (quente) e Malvinas (fria). Esse é o beabá da
navegação.Conhecer o movimento das marés é necessário até na hora de ancorar uma embarcação. Desculpe-me a comparação, mas a presidente Dilma Rousseff parece não saber distinguir o movimento das ondas, das marés e das correntes da vida nacional. Tem se revelado incapaz de conduzir o país em meios aos perigos que o mar revolto oferece. O melhor exemplo são as recentes declarações de que demorou a perceber a gravidade da crise econômica e que, por isso, seu governo não reagiu antes da borrasca chegar.
Há na afirmação dois embustes: o primeiro é o fato de que foi devidamente advertida pela sua própria equipe econômica, em meados do ano passado, ou seja, pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que foi demitido mas só deixou o cargo depois das eleições; o segundo, é a tentativa canhestra de atribuir a culpa da crise à economia mundial e, assim, fugir à própria responsabilidade.
Dilma navega sem carta-piloto, tábua de marés e previsão do tempo. Na verdade, a crise que o país atravessa teve causas internas e foi provocada pelo voluntarismo político, uma característica da presidente da República desde os tempos em que aderiu à luta armada contra o regime militar. No mar, o voluntarismo costuma resultar em naufrágios. Na economia e na política, não é diferente.
Foi em agosto de 2011, ou seja, no primeiro ano de mandato, que Dilma resolveu jogar ao mar a bússola que orientava a economia do país desde o chamado Plano Real: o famoso tripé meta de inflação, o câmbio flutuante e o superavit fiscal. Começou com a meta de redução forçada da taxa de juros. Com uma inflação em torno de 6,5% ao ano, o BC reduziu os juros para 7,25% naquele mesmo ano, com intenção de chegar a 2,5% em 2014.
Simultaneamente, o Ministério da Fazenda forçou a desvalorização do real, passou a administrar a taxa de câmbio e adotou medidas protecionistas e outros estímulos à indústria, como desonerações e crédito subsidiado via BNDES. Para completar o desastre, apelou às chamadas “pedaladas fiscais”, jogou na lata do lixo a Lei de Responsabilidade Fiscal. O abandono da política de superavit fiscal fez explodir a dívida pública, que agora é o grande nó da retomada do crescimento.
A crise econômica é, pois, estrutural. Para usar a linguagem náutica, digamos que é uma grande corrente polar, que se manterá predominante por um bom período, com recessão, desemprego, desvalorização cambial e inflação, espantando investidores e retraindo o consumo.
Mar de almirante
Com mau tempo, os políticos também se agitam. Se Dilma faz trapalhadas na economia, na política nem se fala. A começar pela avaliação da chamada correlação de forças. Confunde o poder do Estado com sua própria força, o posicionamento de banqueiros e federações das indústrias contra o impeachment com o apoio incondicional ao seu governo. Resultado: depois de jogar a bússola ao mar, trancou o imediato na cabine e ameaça desembarcar o piloto, ou seja, o vice-presidente Michel Temer e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, respectivamente.
A situação no Congresso é enganadora, como uma baía abrigada apenas dos ventos de Nordeste. Se entrar um Sudoeste, será um Deus nos acuda. Por enquanto, a situação está sob controle, porque as principais lideranças do PMDB estão acuadas pela Operação Lava-Jato, a começar pelos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas na hora em que novas denúncias forem feitas contra os 48 políticos envolvidos, e que o povo voltar aos protestos de rua, novamente a confusão se estabelecerá.
A saída de Michel Temer da coordenação política foi um sinal de que a situação a bordo tende a se tornar caótica na próxima borrasca. Dilma dispensou a colaboração de seu aliado mais importante. A conversa de que o vice-presidente da República vai cuidar da macropolítica não deixa de ser verdadeira. Mas o fará em benefício do projeto de poder do PMDB, que passa pelas eleições municipais — a candidatura de Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo. Mira uma candidatura própria em 2018. Na melhor das hipóteses, para Dilma; na pior, é o impeachment.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pulou fora do barco, de fininho. O petista reaproximou-se de Dilma por causa da Operação Lava-Jato, que ameaça destruir sua biografia. Ruim com a presidente da República; pior ainda sem ela, dirão os petistas. Mas chegará um momento em que Lula se lançará ao mar novamente, amparado nos movimentos sociais, responsabilizando Dilma por tudo o que deu de errado no país. Não será uma manobra simples, mas é a única que lhe resta, a não ser que a presidente da República seja apeada do poder e Temer assuma a Presidência.
A oposição, em meio ao mar revolto, parece desnorteada. Depois de apostar no impeachment, deu meio volta e aguarda os desdobramentos da Operação Lava-Jato e do julgamento das contas de campanha da presidente Dilma Rousseff pelo Tribunal Superior Eleitoral. Voltou a ter esperanças de que Dilma e Temer sejam cassados por crime eleitoral, o que exigiria a realização de novas eleições já. Ou seja, sonha com um mar de almirante pouco provável.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
O espectro da Lava-Jato
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 26/08/2015
A oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. PSDB, DEM, PPS e SD chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB
A Operação Lava-Jato, que investiga 48 políticos com foro privilegiado, ronda o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. A saída do vice-presidente Michel Temer da articulação política do governo foi vista por todos como mais um fator de enfraquecimento da presidente Dilma Rousseff, mas a cúpula do PMDB decidiu afrouxar a corda com o Palácio para evitar que seu afastamento fosse interpretado como uma ruptura com o governo. Até o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vinha numa escalada de confronto, pegou leve nesta semana com o Palácio do Planalto.
Por essa razão, a oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. Os líderes do PSDB, DEM, PPS e SD, que haviam convocado a reunião, chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB e resolveram esperar os desdobramentos da saída de Michel Temer da articulação política do governo. A tensão no Congresso, porém, não diminuiu nem um pouco.
Na Câmara, a cena política foi roubada pela CPI da Petrobras, que promoveu uma acareação entre o doleiro Alberto Yousseff e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Ambos aderiram à delação premiada e reiteraram seus depoimentos à Polícia Federal e à própria CPI, em alguns aspectos contraditórios. O choque de versões mais importante foi em relação ao suposto repasse de R$ 2 milhões desviados de contratos com a Petrobras da cota do PP para a campanha da presidente Dilma Rousseff, a pedido do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antônio Palocci.
Segundo Youssef, um dos delatores da Lava-Jato estaria detalhando ao Ministério Público Federal quem pediu o dinheiro para a campanha petista na eleição presidencial de 2010. O doleiro, entretanto, não quis dizer o nome do delator. Negou, porém, a afirmação de Costa de que fora ele, Yousseff, quem lhe pedira para arrecadar dinheiro para a campanha de Dilma. “Esse assunto me veio através do Alberto Youssef. Eu autorizei repassarem os R$ 2 milhões da cota do PP para a campanha de 2010. Eu ratifico integralmente os meus depoimentos. Todos eles”, disse o ex-diretor da Petrobras.
Yousseff contestou: “Eu vou me reservar ao silêncio com referência a esse assunto porque existe uma investigação do Palocci, e logo vai ser revelado e será esclarecido o assunto. Tem outro réu colaborador que está falando, eu não fiz esse repasse. Assim que essa colaboração for notificada, vocês vão saber realmente quem foi que pediu recurso e quem repassou esse recurso”, disse aos parlamentares. O doleiro negou envolvimento com o ex-ministro Antônio Palocci ou qualquer outra pessoa ligada ao petista, mas disse que o ex-presidente do PSDB Sergio Guerra (PE) recebeu R$ 10 milhões para encerrar a CPI da Petrobras anterior.
Campanhas eleitorais
Entre os senadores, porém, a notícia do dia foi o despacho assinado pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações penais da operação na primeira instância, que encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) documentos que podem ser provas de que a senadora Gleisi Hoffmann (PT) teria sido beneficiada pelo esquema investigado pela Operação Lava-Jato no Ministério do Planejamento.
Detectou-se o pagamento de propina através de um acordo firmado entre o Ministério do Planejamento e a empresa Consist Software para gestão de empréstimos consignados, que localizou documentos no escritório de advocacia de Guilherme Gonçalves, que prestou serviços à senadora nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Os valores recebidos pela Consist teriam sido utilizados para efetuar pagamentos em favor de Gleisi Hoffmann.
De acordo com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, o ex-vereador de Americana (SP) Alexandre Romano e empresário Milton Pascowitch eram os operadores desta irregularidade. Foi apreendida uma planilha que citava o “Fundo Consist” e repasses a Gleisi Hoffmann e pessoas de sua confiança. A senadora foi chefe da Casa Civil no primeiro mandato da presidente Dilma.
A propósito, o ministro Gilmar Mendes, relator da contas da presidente Dilma Rousseff na campanha de 2014, determinou ontem que o Ministério Público de São Paulo investigue uma empresa que recebeu R$ 1,6 milhão da campanha de reeleição da presidente Dilma. Relatório da Secretaria de Fazenda de São Paulo sobre a empresa Angela Maria do Nascimento Sorocaba-ME, para apuração de “eventual ilícito”, foi remetido ao MP. A empresa foi aberta em agosto do ano passado e, até setembro, recebeu R$ 3,6 milhões. Desse total, notas no valor de R$ 1,6 milhão foram emitidas em nome da campanha eleitoral de Dilma. O PT nega irregularidades.
Correio Braziliense - 26/08/2015
A oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. PSDB, DEM, PPS e SD chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB
A Operação Lava-Jato, que investiga 48 políticos com foro privilegiado, ronda o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. A saída do vice-presidente Michel Temer da articulação política do governo foi vista por todos como mais um fator de enfraquecimento da presidente Dilma Rousseff, mas a cúpula do PMDB decidiu afrouxar a corda com o Palácio para evitar que seu afastamento fosse interpretado como uma ruptura com o governo. Até o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vinha numa escalada de confronto, pegou leve nesta semana com o Palácio do Planalto.
Por essa razão, a oposição adiou a reunião que estava programada para discutir a proposta de impeachment de Dilma Rousseff. Os líderes do PSDB, DEM, PPS e SD, que haviam convocado a reunião, chegaram à conclusão de que nada acontecerá sem a participação do PMDB e resolveram esperar os desdobramentos da saída de Michel Temer da articulação política do governo. A tensão no Congresso, porém, não diminuiu nem um pouco.
Na Câmara, a cena política foi roubada pela CPI da Petrobras, que promoveu uma acareação entre o doleiro Alberto Yousseff e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa. Ambos aderiram à delação premiada e reiteraram seus depoimentos à Polícia Federal e à própria CPI, em alguns aspectos contraditórios. O choque de versões mais importante foi em relação ao suposto repasse de R$ 2 milhões desviados de contratos com a Petrobras da cota do PP para a campanha da presidente Dilma Rousseff, a pedido do ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antônio Palocci.
Segundo Youssef, um dos delatores da Lava-Jato estaria detalhando ao Ministério Público Federal quem pediu o dinheiro para a campanha petista na eleição presidencial de 2010. O doleiro, entretanto, não quis dizer o nome do delator. Negou, porém, a afirmação de Costa de que fora ele, Yousseff, quem lhe pedira para arrecadar dinheiro para a campanha de Dilma. “Esse assunto me veio através do Alberto Youssef. Eu autorizei repassarem os R$ 2 milhões da cota do PP para a campanha de 2010. Eu ratifico integralmente os meus depoimentos. Todos eles”, disse o ex-diretor da Petrobras.
Yousseff contestou: “Eu vou me reservar ao silêncio com referência a esse assunto porque existe uma investigação do Palocci, e logo vai ser revelado e será esclarecido o assunto. Tem outro réu colaborador que está falando, eu não fiz esse repasse. Assim que essa colaboração for notificada, vocês vão saber realmente quem foi que pediu recurso e quem repassou esse recurso”, disse aos parlamentares. O doleiro negou envolvimento com o ex-ministro Antônio Palocci ou qualquer outra pessoa ligada ao petista, mas disse que o ex-presidente do PSDB Sergio Guerra (PE) recebeu R$ 10 milhões para encerrar a CPI da Petrobras anterior.
Campanhas eleitorais
Entre os senadores, porém, a notícia do dia foi o despacho assinado pelo juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações penais da operação na primeira instância, que encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) documentos que podem ser provas de que a senadora Gleisi Hoffmann (PT) teria sido beneficiada pelo esquema investigado pela Operação Lava-Jato no Ministério do Planejamento.
Detectou-se o pagamento de propina através de um acordo firmado entre o Ministério do Planejamento e a empresa Consist Software para gestão de empréstimos consignados, que localizou documentos no escritório de advocacia de Guilherme Gonçalves, que prestou serviços à senadora nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014. Os valores recebidos pela Consist teriam sido utilizados para efetuar pagamentos em favor de Gleisi Hoffmann.
De acordo com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, o ex-vereador de Americana (SP) Alexandre Romano e empresário Milton Pascowitch eram os operadores desta irregularidade. Foi apreendida uma planilha que citava o “Fundo Consist” e repasses a Gleisi Hoffmann e pessoas de sua confiança. A senadora foi chefe da Casa Civil no primeiro mandato da presidente Dilma.
A propósito, o ministro Gilmar Mendes, relator da contas da presidente Dilma Rousseff na campanha de 2014, determinou ontem que o Ministério Público de São Paulo investigue uma empresa que recebeu R$ 1,6 milhão da campanha de reeleição da presidente Dilma. Relatório da Secretaria de Fazenda de São Paulo sobre a empresa Angela Maria do Nascimento Sorocaba-ME, para apuração de “eventual ilícito”, foi remetido ao MP. A empresa foi aberta em agosto do ano passado e, até setembro, recebeu R$ 3,6 milhões. Desse total, notas no valor de R$ 1,6 milhão foram emitidas em nome da campanha eleitoral de Dilma. O PT nega irregularidades.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Quem é a crise?
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 25/08/2015
Dilma perdeu a confiança em Michel Temer, depois que o vice-presidente disse que o o país precisava de “um líder que unificasse o país”; também faz gestos de que o ministro da Fazenda não lidera a equipe econômica
Um dos critérios para analisar a grave conjuntura que atravessa o país é identificar suas linhas de força, ou seja, aquelas tendências que se projetam para o futuro, ou seja, além do horizonte político imediato. Grosso modo, são três: o agravamento da crise econômica; a desarticulação da base do governo no Congresso; e a Operação Lava-Jato. A presidente Dilma Rousseff tem responsabilidade direta nas duas primeiras, e indireta na terceira, por sua omissão no primeiro mandato em relação aos “desfeitos” na Petrobras.
O grande problema é que a presidente da República, diante dessa crise tríplice, tem se revelado incapaz de debelá-la. Pelo contrário, suas intervenções no processo acabam sempre por torná-la mais dramática. O dia de ontem foi a prova disso: o vice-presidente Michel Temer entregou o posto de articulador político do governo no Congresso e o ministro da Fazenda, Joaquim levy, cada vez mais desprestigiado, tirou três dias de folga e foi dar uma voltinha em Nova York. Ambos foram atropelados por Dilma Rousseff, uma espécie de quem manda aqui sou eu, mas que revela como o comportamento da Presidência é errático.
Quando se tem um problema complexo, o melhor a fazer é desagregá-lo em várias equações simplificadas e resolvê-las uma a uma. Parecia ser esse o caminho quando Dilma nomeou Levy para a Fazenda e Temer para a articulação política, deixando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a responsabilidade de acalmar o PT e mobilizar apoios dos movimentos sociais ao ajuste fiscal. Mas parece que a presidente da República nunca esteve convicta de que esse era o caminho a seguir, muito menos os ministros da cozinha do Palácio do Planalto, sem falar nas bancadas do PT no Congresso e nos líderes petistas dos movimentos sociais, principalmente da CUT.
Em circunstâncias normais, esse arranjo permitiria ao governo viabilizar o ajuste fiscal, rearticular a base do governo e manter distância regulamentar da Operação Lava-Jato. O horizonte político imediato seria a eleição municipal, na qual os partidos acumulam forças para disputar o poder central. Nesse cenário, a crise política seria absorvida e a economia, melhor gerenciada. A Lava-Jato é uma contingência com a qual todos teriam que lidar.
Mas não é isso que está acontecendo. Dilma perdeu a confiança — se é que a teve em algum momento — em Michel Temer, envenenada por seu estado-maior, depois que o vice-presidente disse que o o país precisava de “um líder que unificasse o país”; também faz gestos de que o ministro da Fazenda não lidera a equipe econômica, dando sucessivos sinais de que o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, é o seu preferido. O ex-presidente Lula é um capítulo à parte. Criador e criatura andaram se estranhando, a ponto de o primeiro conspirar contra a segunda, mas a Lava-Jato chegou muito perto de ambos.
Pode piorar
A retórica do governo é surreal. Michel Temer saiu do Palácio do Planalto sem falar com a imprensa, mas o líder de governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), difundiu a versão de que Temer cuidará da macropolítica, apenas deixará o varejo da distribuição de cargos e verbas. Ao mesmo tempo, assessores do Planalto vazaram para a imprensa que o responsável pela saída de Temer era o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Recentes manifestações do empresariado contra o impeachment de Dilma Rousseff deram ao Palácio do Planalto a certeza de que o establishment apoia o governo incondicionalmente. Mas a maioria não pretende fazer grandes investimentos enquanto Dilma estiver no poder, por causa das incertezas políticas e de seus zigue-zagues na economia. O que se quer é que a situação não se agrave mais do que já está, até a sucessão em 2018.
A saída de Temer da articulação enfraquece ainda mais o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tinha no vice-presidente o seu maior aliado. Ou seja, a crise política se agravou e nada impede que a mesma coisa aconteça com a economia. Aliás, o reforma administrativa para reduzir de 39 para 29 os ministérios e extinguir 2 mil cargos comissionados, anunciada ontem pelo ministro Nelson Barbosa, é um sinal de que a bola não está com Levy. Vamos ver o que acontece na reacomodação da base do governo.
Por último, tem a Operação Lava-Jato, cada vez mais eletrizante. Por exemplo, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado será palco da sabatina do procurador-geral Rodrigo Janot. Na primeira fila estará o ex-presidente Collor de Mello (PTB-CE), que ontem foi á tribuna para chamá-lo de “fascista” e “sujeitinho à toa”.
Dilma aposta na defenestração do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu desafeto, para recuperar o controle do Congresso, depois do acordo com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que também está sob investigação da Lava-Jato, como mais 44 políticos não denunciados ainda por Janot. Dilma aposta na Lava-Jato para tirar do caminho seus adversários no Congresso, mas as investigações atingem de morte o PT. Será que isso vai mesmo dar certo?
Correio Braziliense - 25/08/2015
Dilma perdeu a confiança em Michel Temer, depois que o vice-presidente disse que o o país precisava de “um líder que unificasse o país”; também faz gestos de que o ministro da Fazenda não lidera a equipe econômica
Um dos critérios para analisar a grave conjuntura que atravessa o país é identificar suas linhas de força, ou seja, aquelas tendências que se projetam para o futuro, ou seja, além do horizonte político imediato. Grosso modo, são três: o agravamento da crise econômica; a desarticulação da base do governo no Congresso; e a Operação Lava-Jato. A presidente Dilma Rousseff tem responsabilidade direta nas duas primeiras, e indireta na terceira, por sua omissão no primeiro mandato em relação aos “desfeitos” na Petrobras.
O grande problema é que a presidente da República, diante dessa crise tríplice, tem se revelado incapaz de debelá-la. Pelo contrário, suas intervenções no processo acabam sempre por torná-la mais dramática. O dia de ontem foi a prova disso: o vice-presidente Michel Temer entregou o posto de articulador político do governo no Congresso e o ministro da Fazenda, Joaquim levy, cada vez mais desprestigiado, tirou três dias de folga e foi dar uma voltinha em Nova York. Ambos foram atropelados por Dilma Rousseff, uma espécie de quem manda aqui sou eu, mas que revela como o comportamento da Presidência é errático.
Quando se tem um problema complexo, o melhor a fazer é desagregá-lo em várias equações simplificadas e resolvê-las uma a uma. Parecia ser esse o caminho quando Dilma nomeou Levy para a Fazenda e Temer para a articulação política, deixando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a responsabilidade de acalmar o PT e mobilizar apoios dos movimentos sociais ao ajuste fiscal. Mas parece que a presidente da República nunca esteve convicta de que esse era o caminho a seguir, muito menos os ministros da cozinha do Palácio do Planalto, sem falar nas bancadas do PT no Congresso e nos líderes petistas dos movimentos sociais, principalmente da CUT.
Em circunstâncias normais, esse arranjo permitiria ao governo viabilizar o ajuste fiscal, rearticular a base do governo e manter distância regulamentar da Operação Lava-Jato. O horizonte político imediato seria a eleição municipal, na qual os partidos acumulam forças para disputar o poder central. Nesse cenário, a crise política seria absorvida e a economia, melhor gerenciada. A Lava-Jato é uma contingência com a qual todos teriam que lidar.
Mas não é isso que está acontecendo. Dilma perdeu a confiança — se é que a teve em algum momento — em Michel Temer, envenenada por seu estado-maior, depois que o vice-presidente disse que o o país precisava de “um líder que unificasse o país”; também faz gestos de que o ministro da Fazenda não lidera a equipe econômica, dando sucessivos sinais de que o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, é o seu preferido. O ex-presidente Lula é um capítulo à parte. Criador e criatura andaram se estranhando, a ponto de o primeiro conspirar contra a segunda, mas a Lava-Jato chegou muito perto de ambos.
Pode piorar
A retórica do governo é surreal. Michel Temer saiu do Palácio do Planalto sem falar com a imprensa, mas o líder de governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), difundiu a versão de que Temer cuidará da macropolítica, apenas deixará o varejo da distribuição de cargos e verbas. Ao mesmo tempo, assessores do Planalto vazaram para a imprensa que o responsável pela saída de Temer era o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
Recentes manifestações do empresariado contra o impeachment de Dilma Rousseff deram ao Palácio do Planalto a certeza de que o establishment apoia o governo incondicionalmente. Mas a maioria não pretende fazer grandes investimentos enquanto Dilma estiver no poder, por causa das incertezas políticas e de seus zigue-zagues na economia. O que se quer é que a situação não se agrave mais do que já está, até a sucessão em 2018.
A saída de Temer da articulação enfraquece ainda mais o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tinha no vice-presidente o seu maior aliado. Ou seja, a crise política se agravou e nada impede que a mesma coisa aconteça com a economia. Aliás, o reforma administrativa para reduzir de 39 para 29 os ministérios e extinguir 2 mil cargos comissionados, anunciada ontem pelo ministro Nelson Barbosa, é um sinal de que a bola não está com Levy. Vamos ver o que acontece na reacomodação da base do governo.
Por último, tem a Operação Lava-Jato, cada vez mais eletrizante. Por exemplo, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado será palco da sabatina do procurador-geral Rodrigo Janot. Na primeira fila estará o ex-presidente Collor de Mello (PTB-CE), que ontem foi á tribuna para chamá-lo de “fascista” e “sujeitinho à toa”.
Dilma aposta na defenestração do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), seu desafeto, para recuperar o controle do Congresso, depois do acordo com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que também está sob investigação da Lava-Jato, como mais 44 políticos não denunciados ainda por Janot. Dilma aposta na Lava-Jato para tirar do caminho seus adversários no Congresso, mas as investigações atingem de morte o PT. Será que isso vai mesmo dar certo?
domingo, 23 de agosto de 2015
O lixo da História
Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 23/08/2015
O colapso do projeto de Dilma se deve às ideias políticas e econômicas fora de lugar, secundadas por práticas patrimonialistas que ameaçam desmoralizar toda a esquerda
Após o AI-5 (13/12/1968), o Brasil entrou num período de trevas e radicalização política. O sociólogo Roberto Schwartz, então professor de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP) e assistente de Antônio Cândido, teve que se esconder na casa de amigos e, depois, se exilar na França, onde releu O Príncipe, de Maquiavel, e O Alienista, de Machado de Assis. Nessas obras se inspirou para escrever uma chanchada intitulada A lata do lixo da História (Companhia Das Letras), uma sátira impiedosa da sociedade brasileira na época do regime militar.
Estavam ali os germes de uma de suas obras mais importantes, Ideias fora do lugar (Companhia Das Letras). No ensaio que intitula a obra, ele procura mostrar como as ideias liberais eram solapadas pela realidade de um país escravocrata e socialmente atrasado, em que o favor era a moeda corrente, como é ainda hoje na política brasileira. Nos anos 1970, a expressão “vai para a lata do lixo da História” era muito usada pelos setores de esquerda que hoje ocupam o poder.
Era uma maneira de dizer que tanto as ideias liberais quanto as da velha esquerda haviam sido derrotadas e que seriam ultrapassadas pelas “novas lutas”, inspiradas em Cuba e na China, na medida em que a “revolução coincidisse com a derrubada da ditadura”. Não foi bem isso o que aconteceu, pois a luta armada contra o regime foi um fiasco e a política de unidade das forças democráticas, defendida por liberais e comunistas, deu forma à derrocada do regime militar.
Ocorre, porém, que a História é voluntariosa. No bojo desse processo, emergiu o novo sindicalismo do ABC, que nada tinha a ver com os velhos sindicalistas ligados ao PTB e ao PCB. Líder dos metalúrgicos de São Bernardo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva organizou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e criou o PT. A tese da lata do lixo da História pareceu se confirmar quando, em 2002, ele chegou à Presidência.
A gênese dos partidos operários está na velha tese marxista da centralidade do trabalho na luta política, que parte da ideia de que a contradição entre o trabalho e o capital é o motor da História e o eixo de atuação política do partido. Vem daí o glamour perdido do PT e o fascínio dos intelectuais e artistas de esquerda por Lula.
Vale destacar que filósofa alemã Hanna Arendt, uma democrata radical, sempre viu nessa concepção que absolutiza o trabalho uma das raízes do totalitarismo. Para ela, a condição humana é dada não pela atividade laboral, um meio de sobrevivência, mas pelo “agir e pensar politicamente”, em regime de plena liberdade, o que tanto o fascismo como o stalinismo não permitiram.
O colapso
Durante a guerra fria, essa contradição se manifestava na disputa entre a União Soviética, os países do Leste europeu, os países dependentes e os movimentos nacionalistas, de um lado, e o os países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos, ou seja, o imperialismo, de outro. Com o fim da União Soviética e a derrocada do comunismo no Leste europeu, a situação se modificou completamente.
O que restou disso, além de Cuba e da Coreia do Norte, foi o misto de capitalismo de Estado e “modo de produção asiático” do partido comunista chinês, secundado pelo Vietnã, que disputa com os Estados Unidos, via Oceano Pacifico, o controle do comércio mundial.
O “grande jogo” da política mundial e a globalização, porém, para muitos setores da esquerda, continuaram sendo vistos na ótica dos velhos paradigmas marxistas, ou seja, o inimigo principal é o imperialismo norte-americano; o capitalismo de Estado, após a tomada do poder, é a antessala do socialismo.
A aliança com a África do Sul, a China, a Índia e a Rússia seria a vanguarda de uma nova ordem mundial, assim como o Mercosul é um bloco anti-imperialista. Esse é o grande nó da política empreendida pelo governo Dilma, a chamada “nova matriz econômica”, que apostou no intervencionismo estatal para expandir o mercado interno e direcionar a economia, cometendo erros sucessivos de gestão, cujos resultados negativos nas atividades produtivas estamos colhendo agora.
O colapso dessa estratégia não se deve apenas à corrupção na Petrobras e outras estatais, envolvendo o PT e seus aliados, executivos de empresas públicas e empresários a ela ligadas. Esse é o elemento catalisador da crise econômica e política. O colapso do projeto político de Dilma e do PT se deve às ideias políticas e econômicas fora de lugar, seguidas por práticas patrimonialistas estimuladas por Lula, que ameaçam enlamear toda a esquerda e jogar suas lideranças na lata do lixo da História porque derivaram para o escândalo da Operação Lava-Jato.
É por isso que o governo Dilma não tem uma saída à vista para a crise econômica. Além de ter provocado a volta da inflação, a recessão, o desemprego e a explosão da dívida pública, Dilma perdeu o rumo. Sua base política e social rejeita o ajuste fiscal — um mero paliativo — e não quer nem ouvir falar em mudanças estruturais na direção do mercado. Luta apenas pela sobrevivência do próprio mandato.
Correio Braziliense - 23/08/2015
O colapso do projeto de Dilma se deve às ideias políticas e econômicas fora de lugar, secundadas por práticas patrimonialistas que ameaçam desmoralizar toda a esquerda
Após o AI-5 (13/12/1968), o Brasil entrou num período de trevas e radicalização política. O sociólogo Roberto Schwartz, então professor de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP) e assistente de Antônio Cândido, teve que se esconder na casa de amigos e, depois, se exilar na França, onde releu O Príncipe, de Maquiavel, e O Alienista, de Machado de Assis. Nessas obras se inspirou para escrever uma chanchada intitulada A lata do lixo da História (Companhia Das Letras), uma sátira impiedosa da sociedade brasileira na época do regime militar.
Estavam ali os germes de uma de suas obras mais importantes, Ideias fora do lugar (Companhia Das Letras). No ensaio que intitula a obra, ele procura mostrar como as ideias liberais eram solapadas pela realidade de um país escravocrata e socialmente atrasado, em que o favor era a moeda corrente, como é ainda hoje na política brasileira. Nos anos 1970, a expressão “vai para a lata do lixo da História” era muito usada pelos setores de esquerda que hoje ocupam o poder.
Era uma maneira de dizer que tanto as ideias liberais quanto as da velha esquerda haviam sido derrotadas e que seriam ultrapassadas pelas “novas lutas”, inspiradas em Cuba e na China, na medida em que a “revolução coincidisse com a derrubada da ditadura”. Não foi bem isso o que aconteceu, pois a luta armada contra o regime foi um fiasco e a política de unidade das forças democráticas, defendida por liberais e comunistas, deu forma à derrocada do regime militar.
Ocorre, porém, que a História é voluntariosa. No bojo desse processo, emergiu o novo sindicalismo do ABC, que nada tinha a ver com os velhos sindicalistas ligados ao PTB e ao PCB. Líder dos metalúrgicos de São Bernardo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva organizou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e criou o PT. A tese da lata do lixo da História pareceu se confirmar quando, em 2002, ele chegou à Presidência.
A gênese dos partidos operários está na velha tese marxista da centralidade do trabalho na luta política, que parte da ideia de que a contradição entre o trabalho e o capital é o motor da História e o eixo de atuação política do partido. Vem daí o glamour perdido do PT e o fascínio dos intelectuais e artistas de esquerda por Lula.
Vale destacar que filósofa alemã Hanna Arendt, uma democrata radical, sempre viu nessa concepção que absolutiza o trabalho uma das raízes do totalitarismo. Para ela, a condição humana é dada não pela atividade laboral, um meio de sobrevivência, mas pelo “agir e pensar politicamente”, em regime de plena liberdade, o que tanto o fascismo como o stalinismo não permitiram.
O colapso
Durante a guerra fria, essa contradição se manifestava na disputa entre a União Soviética, os países do Leste europeu, os países dependentes e os movimentos nacionalistas, de um lado, e o os países desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos, ou seja, o imperialismo, de outro. Com o fim da União Soviética e a derrocada do comunismo no Leste europeu, a situação se modificou completamente.
O que restou disso, além de Cuba e da Coreia do Norte, foi o misto de capitalismo de Estado e “modo de produção asiático” do partido comunista chinês, secundado pelo Vietnã, que disputa com os Estados Unidos, via Oceano Pacifico, o controle do comércio mundial.
O “grande jogo” da política mundial e a globalização, porém, para muitos setores da esquerda, continuaram sendo vistos na ótica dos velhos paradigmas marxistas, ou seja, o inimigo principal é o imperialismo norte-americano; o capitalismo de Estado, após a tomada do poder, é a antessala do socialismo.
A aliança com a África do Sul, a China, a Índia e a Rússia seria a vanguarda de uma nova ordem mundial, assim como o Mercosul é um bloco anti-imperialista. Esse é o grande nó da política empreendida pelo governo Dilma, a chamada “nova matriz econômica”, que apostou no intervencionismo estatal para expandir o mercado interno e direcionar a economia, cometendo erros sucessivos de gestão, cujos resultados negativos nas atividades produtivas estamos colhendo agora.
O colapso dessa estratégia não se deve apenas à corrupção na Petrobras e outras estatais, envolvendo o PT e seus aliados, executivos de empresas públicas e empresários a ela ligadas. Esse é o elemento catalisador da crise econômica e política. O colapso do projeto político de Dilma e do PT se deve às ideias políticas e econômicas fora de lugar, seguidas por práticas patrimonialistas estimuladas por Lula, que ameaçam enlamear toda a esquerda e jogar suas lideranças na lata do lixo da História porque derivaram para o escândalo da Operação Lava-Jato.
É por isso que o governo Dilma não tem uma saída à vista para a crise econômica. Além de ter provocado a volta da inflação, a recessão, o desemprego e a explosão da dívida pública, Dilma perdeu o rumo. Sua base política e social rejeita o ajuste fiscal — um mero paliativo — e não quer nem ouvir falar em mudanças estruturais na direção do mercado. Luta apenas pela sobrevivência do próprio mandato.
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