quinta-feira, 12 de junho de 2014

ABC da Copa


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 12/06/2014

 A Seleção é a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, mas, pela primeira vez, o futebol perdeu o consenso nacional. Nem durante a ditadura militar isso ocorreu

Alegria, beleza, criatividade, diversidade e emoção   são ingredientes básicos dos eventos esportivos. Na era da globalização, graças ao marketing, agregam valor às marcas, lideram o consumo de massas e garantem conteúdo audiovisual barato para a mídia, que é financiada pela venda de produtos e serviços associados diretamente à prática esportiva ou ao esporte como entretenimento. Essa indústria vende diversão e lazer, alimentos, bebidas, crédito, equipamentos, vestuário, serviços turísticos e tudo o mais que possa estar associado às multidões envolvidas. É uma fórmula mágica, na qual a Copa do Mundo de Futebol desponta como o maior e mais bem-sucedido evento mundial.

Uma vez em operação, essa engrenagem funciona como um rolo compressor, capaz de esmagar todos os obstáculos à sua frente, como aconteceu com o movimento “Não vai ter Copa”, iniciado durante a realização da Copa das Confederações, paralelamente aos protestos contra aumento das tarifas de transporte público que resultaram nas grandes manifestações populares do ano passado. As exigências e pressões da Fifa  para que as arenas e a organização do evento obedecessem aos padrões internacionais acabaram virando um mote para as exigências dos cidadãos em relação à qualidade dos serviços públicos.  A entidade lucrará R$ 10 bilhões com o evento, mas o governo brasileiro passou por grandes constrangimentos. 

Manus militari

 Devido aos protestos, o jeito foi acionar a mão pesada do Estado para garantir a realização dos jogos e a segurança dos torcedores, principalmente estrangeiros, com a mobilização de tropas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. A presidente Dilma Rousseff garantiu manus militari à realização dos jogos. A Seleção é a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues, mas, pela primeira vez, o futebol perdeu o consenso nacional. Nem durante a ditadura militar isso ocorreu.

Dilma foi à televisão e ao rádio criticar os “pessimistas”. Eles são 63% dos paulistas, os anfitriões do jogo de abertura da Copa. Resultado: não quer aparecer no telão, não quer fazer discurso na abertura dos jogos, não quer sequer ser citada na cerimônia que reunirá chefes de estados e autoridades esportivas para assistir o Brasil jogar contra a Croácia. É uma situação no mínimo estranha. Por que será?

Ora, num momento em que o país apresenta baixo crescimento e inflação em alta, um estudo da Consultoria Legislativa do Senado Federal mostrou que estamos realizando a Copa do Mundo mais cara de todos os tempos. Os campeonatos no Japão e na Coreia (2002), na Alemanha (2006) e na África do Sul (2010) consumiram, juntos, US$ 30 bilhões, de um total de US$ 75 bilhões desde o primeiro evento do tipo. No Brasil, os gastos com as obras somam aproximadamente US$ 40 bilhões. “Além de servir ao futebol, serão estádios multiúso. Vão funcionar também como centros comerciais, de negócios e de lazer, e palcos de shows e festas populares”, justificou a presidente Dilma Rousseff em seu pronunciamento. Será?

Os 12 estádios da Copa do Mundo de 2014 custaram 42% a mais do que o previsto em seus projetos iniciais. O valor total dos estádios subiu dos R$ 5,97 bilhões para R$ 8,48 bilhões de reais. O custo do Beira-Rio cresceu 169% entre o projeto em 2010 e a inauguração, em 2014. O Mané Garrincha, mais caro estádio da Copa de 2014, considerando o valor por assento, aumentou 87,8%. O único estádio que teve o custo final mais baixo do que o previsto foi o Castelão, no Ceará. O senso comum da população é de que esses gastos não eram prioritários. Como não foi consultada pelo governo, quando o Brasil pleiteou a sede do evento, não se pode exigir da maioria da população que concorde com essa decisão.

É lógico que nada disso impede os “pessimistas” de torcerem pelo sucesso da Seleção como os demais torcedores, nem de ir aos jogos; a vantagem de assisti-los aqui no Brasil é reservada a uma elite, não muda o cenário para a maioria da população, que acompanhará o evento pela televisão. “Construímos, ampliamos ou reformamos aeroportos, portos, avenidas, viadutos, pontes, vias de trânsito rápido e avançados sistemas de transporte público. Fizemos isso, em primeiro lugar, para os brasileiros. Tenho repetido que os aeroportos, os metrôs, os BRTs e os estádios não voltarão na mala dos turistas. Ficarão aqui, beneficiando a todos nós”, contra-argumenta a presidente Dilma Rousseff.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, diria um espírito de porco. Tudo isso deveria ser feito independentemente da Copa do Mundo. Agora, porém, é hora de torcer pela Seleção e deixar o assunto pra depois. Ou seja, para as eleições.

Algo deu errado em Sampa


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 11/06/2014

A estratégia traçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tomar dos tucanos o Palácio dos Bandeirantes e, simultaneamente, reeleger Dilma no primeiro turno está naufragando

 De todas as notícias negativas para a campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, até agora, a pior foi o resultado da pesquisa Datafolha em São Paulo, na qual a petista perderia a eleição no segundo turno por ampla margem. Entre os 31,8 milhões de eleitores paulistas, que representam 22% do total, Aécio Neves (PSDB) a venceria por 46% a 34%; Eduardo Campos (PSB), mesmo sem palanque local, por 43% a 34%. A pesquisa mostra que a estratégia traçada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tomar dos tucanos o Palácio dos Bandeirantes e, simultaneamente, reeleger Dilma no primeiro turno está naufragando.
Lula tentou repetir no maior colégio eleitoral do país a mesma estratégia vitoriosa nas eleições da capital paulista, na qual conseguiu eleger o ex-ministro da Educação Fernando Haddad prefeito de São Paulo. Um ano e meio após tomar posse, o jovem administrador não conseguiu bom desempenho como gestor e amarga baixos índices de aprovação. Ou seja, é um péssimo cabo eleitoral para Dilma Rousseff. Deixou de ser também um trampolim para o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, o candidato do PT ao Palácio dos Bandeirantes, que ainda não conseguiu decolar e permanece com apenas 3% dos votos. Lula acreditava que ele repetiria a performance de Haddad, quando nada porque o patamar de votos petistas estimado pelos analistas seria de 30%.
Com os desgastes do governo federal com os paulistas — tem apenas 23% de aprovação —, a rejeição de Dilma em São Paulo chega a 46%, quando a média nacional é de 32%, o que é considerado mortal para qualquer candidato pelos marqueteiros. A opção de Dilma no estado seria uma aproximação com o candidato do PMDB, Paulo Skaf, que tem 21% da preferência. O ex-prefeito Gilberto Kassab, outro aliado, com 4% dos votos, já deriva para a oposição.
Surpreendentemente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), em meio à onda de greves e protestos violentos, tem 44% das intenções de voto e venceria no primeiro turno. Isso é improvável, mas já não se pode dizer que é impossível. A radicalização do movimento sindical no setor público, como na greve do Metrô, parece beneficiar o tucano, que joga duro com o movimento paredista e capitaliza a insatisfação da grande massa de usuários prejudicada pelo vandalismo e a perturbação da vida urbana.
O padrinho da candidatura de Skaf em São Paulo é o vice-presidente Michel Temer, que espera ver o outrora poderoso PMDB de Ulysses Guimarães e Orestes Quércia renascer das cinzas, como Fênix. A lógica para o Palácio do Planalto seria o PT retirar a candidatura de Padilha e apoiar Skaf, numa chapa que poderia ter o ex-ministro na vice e o senador Eduardo Suplicy como candidato a mais um mandato. Mas isso é tratado como uma capitulação pela seção paulista da legenda, que conta com lideranças eleitoralmente robustas, como a ministra da Cultura, Marta Suplicy, e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, sem falar no ex-presidente Lula.
Em tempo
O Ibope divulgou nova pesquisa de intenção de voto para Presidente da República, realizada de 4 a 7 de junho, na qual Dilma Rousseff (PT) teria 38% das intenções de voto contra 22% de Aécio Neves (PSDB) na simulação do primeiro turno. Eduardo Campos (PSB) aparece em terceiro lugar com 13%. A pesquisa fez recrudescer as críticas à atuação do governo de parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que agora fala publicamente contra a gestão econômica. A expectativa de continuidade da atual política econômica começa a ser vista como um fator de negativo na estratégia de reeleição, mas a presidente Dilma Rousseff resiste às mudanças na equipe. Os candidatos de oposição, principalmente Aécio Neves, ganham cada vez mais apoio no meio empresarial por causa disso .
Com a mão
A presidente Dilma aproveitou a Copa do Mundo para um pronunciamento ontem em cadeia nacional de televisão no qual fez ampla propaganda de seu governo, a pretexto de saudar as seleções que participam dos jogos. Em tom triunfalista, rebateu os que criticam seu governo. Dilma procurou neutralizar os desgastes que vêm sofrendo por causa dos protestos contra a Copa no Brasil, o que contribuiu para sua queda nas pesquisas.

Do jeito que o PMDB gosta



Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense - 10/06/2014


Dilma Rousseff quer o tempo de televisão do PMDB, mas também quer ser menos dependente da legenda no Congresso. Para isso, precisa mudar a correlação de forças no Senado e na Câmara, o que significa debilitar o PMDB eleitoralmente

  O PMDB faz sua convenção nacional hoje, dividido como sempre. Uma ala majoritária apoia o governo e outra deriva para a oposição. A seção mais poderosa da legenda, o Rio de Janeiro, que trabalha a dobradinha “Aezão”, entrou com tudo na campanha do senador Aécio Neves, o pré-candidato do PSDB. Outra, liderada pelo senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), vai de Eduardo Campos, do PSB. Quem mais se fortalece com a divisão, porém, é o vice-presidente da República, Michel Temer, que comanda o grupo majoritário e confirmará seu nome na chapa. Hoje, devido à queda nas pesquisas, a candidatura de Dilma Rousseff à reeleição é refém do apoio formal do PMDB. Se isso lhe for negado, como querem os dissidentes, o “Volta, Lula”, que é uma espécie de brasa adormecida, renascerá das cinzas. Basta um sopro para virar um fogaréu.

Não deixa de ser uma grande ironia. Michel Temer foi muito hostilizado pela turma que cerca a presidente Dilma Rousseff, que nunca incorporou o aliado ao seu estado-maior. Pelo contrário, manteve-o sempre à margem do centro de decisões. Toda vez que o circo pegou fogo no Congresso, porém, foi a ele que o Palácio do Planalto teve de recorrer para estabilizar a base governista. É uma situação recorrente desde a campanha do impeachment de Collor: ninguém governa sem o apoio do PMDB. Quando o PMDB está dividido, entretanto, cresce a força de Michel Temer como fiador da aliança com o PT. Há outros caciques governistas com luz própria na legenda, a começar pelo ex-presidente José Sarney, mas o vice-presidente da República é hábil e paciente, sabe navegar em meio aos espinhéis nas águas turvas da legenda.

Isso significa que a presidente Dilma se deixou seduzir pelo PMDB? Não, é um casamento de conveniências, no qual o maior interesse é o tempo de televisão da legenda. A cúpula do PMDB sabe disso, mas vê na queda das pesquisas a oportunidade de exigir compromissos que até agora não conseguiu arrancar do PT. O caso mais emblemático é o do Ceará, onde o senador Eunício de Oliveira é candidato ao governo e ameaçava se baldear para a oposição. Dilma tem compromisso com o governador Cid Gomes (Pros) e o irmão dele Ciro, que se recusam a apoiar o aliado do PMDB. É uma situação complexa, que se repete em menor ou maior grau em outros estados. Bom cabrito, Eunício não esperneia como Jorge Picciani, que comanda o PMDB fluminense e já desembarcou da canoa governista. Mas quem o conhece sabe que tem sangue nos olhos, não vai deixar barato se o PT apoiar outro candidato no seu estado.

Dilma Rousseff quer o tempo de televisão do PMDB, mas também quer ser menos dependente da legenda no Congresso. Para isso, precisa mudar a correlação de forças no Senado e na Câmara, o que significa debilitar o PMDB eleitoralmente. Onde isso está sendo feito pelo avanço do PT, a reação dos caciques locais já está em curso e deve se expressar por meio da resistência à coligação, durante a convenção. Pode não ter peso inviabilizar o apoio formal à Dilma, mas, eleitoralmente, o estrago será grande. As dissidências estão a abrir caminho para a “cristianização” da petista caso a eleição vá para o segundo turno.

Vai ter Copa
A imagem do Brasil no exterior vai de mau a pior por causa dos protestos contra a Copa do Mundo, da violência e das greves em serviços essenciais. Apesar da intensa campanha de marketing dos patrocinadores do evento, o noticiário sobre o Brasil é muito negativo. O Palácio do Planalto perdeu a batalha no front externo, mas isso não significa que tenha perdido a guerra. Tudo dependerá do desempenho dos organizadores dos jogos e da eficiência do esquema de segurança para proteger os torcedores estrangeiros. No plano interno, porém, a maioria dos torcedores gosta do técnico Felipão e do time que escalou e começa a reagir contra os que protestam.

domingo, 18 de maio de 2014

Quem vai pagar a conta?

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 18/052014
 Ou o governo gasta menos e foca, ou tira mais do bolso do contribuinte, cujas prioridades não são sequer consideradas. Estão aí os gastos da Copa
O jogo é jogado. O PT optou pela tática de disseminar o medo de mudança entre os eleitores porque essa é a lei do menor esforço para conservação do poder. Como se sabe, porém, o temor em relação ao futuro alimenta o status quo. É uma velha tática do conservadorismo, que o transformismo petista abduziu depois de quase 12 anos de poder. O problema é que o governo não conseguiu dar conta das obras de infraestrutura indispensáveis à retomada do crescimento, o que provocou generalizada insatisfação do setor produtivo, e enfrenta ampla insatisfação da população em relação aos serviços prestados pelo Estado, principalmente nas áreas de transportes, segurança, saúde e educação.

Como não há tempo para resolver essas demandas, o Palácio do Planalto procura desqualificar a oposição. É do jogo. O cerne da estratégia do medo é acusar os pré-candidatos Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) de propor o desemprego e o arrocho nos salários para reduzir a taxa de inflação. "Um desempregozinho", como disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aproveitando-se do senso comum do trabalhador assalariado, cuja psicologia conhece bem, pois foi metalúrgico e líder sindical. É óbvio que qualquer assalariado prefere garantir o emprego, mesmo com a perda de poder aquisitivo, do que ter estabilidade de preços sem salário para receber no fim do mês.

Essa lógica, porém, não resolve a equação estabilidade com crescimento, que é única maneira de garantir os empregos e os salários, simultaneamente, bem como gerar investimentos em infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços públicos. No longo prazo, a inflação continuará ascendente, porque se torna inercial, e aí os empregos começam a ir para o espaço com os salários. A fórmula para resolver esse problema, na situação atual, é uma taxa de juros que mire os 4,5% do centro da meta; um superavit primário que reduza a dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e uma taxa de câmbio que garanta o equilíbrio das contas externas. Fora disso, nada impede que tudo possa piorar na economia.

Voluntarismo
Ocorre que a presidente Dilma Rousseff resolveu jogar esse "tripé" pela janela ao concluir que garantiria mais capacidade de investimento do Estado e maior produtividade da economia reduzindo a taxa de juros a fórceps. Como crescer com inflação baixa não era apenas uma questão de vontade política, a "nova matriz" não emplacou: os juros voltaram a subir, a economia avança a passos de cágado e a economia começa a dar sinais de que não conseguirá, pela inércia, manter o atual nível de emprego.
Há mais exemplos de como o voluntarismo fez a presidente Dilma Rousseff tropeçar nas próprias pernas: o Brasil poderia ter mais 10 mil quilômetros de ferrovias, mas somente conseguiu dar sequência à construção de 3 mil quilômetros da Transnordestina e da Norte-Sul. Motivo: o modelo de concessão adotado é considerado uma roubada pelas empresas interessadas no setor, que fogem das licitações. É mais ou menos o que aconteceu com as estradas, até que governo decidiu recuar. Construir ferrovias, porém, demora mais e custa mais.

Outro exemplo de que nem tudo depende de um ato de vontade: o truco nas empresas do setor elétrico, que o governo quebrou ao jogar as tarifas para baixo, sem garantir as margens de lucro necessárias aos investimentos e à própria operação. Agora, transfere recursos do Tesouro para garantir o funcionamento do sistema com a promessa de recuperá-los em 2015, quando, inevitavelmente, haverá um choque tarifário. A mesma coisa acontece com a Petrobras: o governo segura o preço dos combustíveis para manter a inflação na órbita dos 6,5% do teto da meta, mesmo que o preço disso seja a absurda desvalorização da empresa e o comprometimento de seus investimentos. É uma espécie de estelionato eleitoral.

Deixemos de lado os escândalos envolvendo ex-diretores da empresa, que há meses ocupam as páginas dos jornais. Para crescer 4% ao ano — e assim garantir o emprego e a renda familiar —, o Brasil precisa de taxas de investimento de 22% a 24% do PIB, mas a sua poupança está entre 14% e16%. De onde sairá esse dinheiro? Ora, só há duas maneiras: ou o governo gasta menos e foca, ou tira mais do bolso do contribuinte, cujas prioridades não são sequer consideradas. Estão aí os gastos da Copa.

PS: vou curtir 20 dias de férias, volto à coluna em 10 de junho.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A CPI chapa-branca

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 15/05/2014

Vital do Rêgo (PMDB-PB) lidera o grupo de raposas governistas escalado para domar a CPI da Petrobras, que será a mais chapa-branca das comissões de inquérito já instaladas no Senado. Tanto que o relator, senador José Pimentel, é o líder do governo no Congresso

O doleiro Yousseff e da Costa, ex-diretor da Petrobras
 A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras do Senado começou a funcionar ontem. Aprovou requerimentos de convocação da presidente da Petrobras, Graça Foster, e do ex-diretor da área internacional da empresa Nestor Cerveró. Ambos foram chamados para prestar esclarecimentos sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A CPI aprovou também um plano de trabalho elaborado pelo relator, senador José Pimentel (PT-CE), e outros 74 requerimentos apresentados por parlamentares aliados ao governo. O único titular da oposição é senador Cyro Miranda (PSDB-GO), apenas para marcar posição.
O depoimento de Graça Foster à CPI foi marcado para a próxima terça-feira e o de Gabrielli, para quinta-feira. Ambos foram chamados para pôr um ponto final na polêmica sobre a compra de Pasadena, nos EUA: a primeira dirá que a operação passou a ser um mau negócio depois da crise mundial; o segundo, que foi um bom negócio quando realizado. Ficará o dito pelo não dito. As demais convocações não têm data definida, segundo o presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB), que lidera o grupo de raposas governistas escalado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) para domar o colegiado. Essa será a mais chapa-branca das comissões de inquérito já instaladas no Senado. Tanto que o relator, senador José Pimentel, é o líder do governo no Congresso.
Também são titulares da CPI os senadores governistas João Alberto Souza (PMDB-MA), Valdir Raupp (PMDB-RO), Ciro Nogueira (PP-PI), Humberto Costa (PT-PE), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Acir Gurgacz (PDT-RO), Aníbal Diniz (PT-AC), Jorge Viana (PT- AC), Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) e Gim Argello (PTB-DF). A maioria tem interesses na Petrobras e suas subsidiárias. As prioridades dos trabalhos da comissão não estão muito claras. Uma delas é o Porto de Suape, que tem uma ligação com a refinaria de Abreu e Lima, esta sim, prevista no requerimento de criação da CPI. O porto é uma empresa pública do estado de Pernambuco e, segundo Pimentel, haveria denúncias de sobrepreço nas obras de interligação entre a refinaria e o Píer de Suape. Abreu e Lima está situada dentro da área portuária. O requerimento mira o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência da República.
O elo perdido
A CPI é tão chapa-branca que não dá sequer para imaginar um Fla-Flu parecido com o que ocorreu na CPI Mista do Banestado, entre o relator, o deputado petista José Mentor (SP), e seu presidente, e o então senador tucano Antero Paes de Barros. Aquela foi uma das mais conturbadas investigações parlamentares já realizadas pelo Congresso. O Palácio do Planalto também tentou impedir a instalação, mas fracassou por causa da repercussão negativa do caso. Um dos momentos de maior tensão na CPI ocorreu em torno da convocação do ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf. O PT posicionou-se contra, Maluf não foi convocado.
Após um ano e meio de investigações, Mentor sugeriu o indiciamento de 91 pessoas, entre elas o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco; o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta; e o ex-dono das Casas Bahia (maior rede varejista do Brasil) Samuel Klein. Foram acusados de participar de um esquema de evasão de divisas, por meio de contas CC5, que teria chegado a R$ 150 bilhões. Franco foi denunciado apenas porque criou os mecanismos legais usados pelo Banestado para envio de dinheiro ao exterior. Havia a presunção de que mais de 130 políticos estavam envolvidos no esquema, além de empresários e pessoas ligadas ao tráfico de drogas, de armas e de mulheres, mas nenhum nome surgiu no relatório.
A CPI foi acusada de abusar das quebras de sigilos bancários e fiscais. Foram mais de 1,7 mil pedidos. Um dos atingidos foi o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, acusado de não declarar à Receita Federal movimentações financeiras feitas no exterior. Para protegê-lo, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou uma Medida Provisória ao Congresso para dar status de ministro e foro privilegiado ao presidente do Banco Central. O que tem a ver a fracassada CPI do Banestado com a CPI da Petrobras? Aparentemente nada, exceto o fato de que o doleiro envolvido no caso Banestado era o mesmo Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa, também detido e considerado o homem-bomba do suposto propinoduto da Petrobras que assombra o Congresso.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Jogada de risco

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 14/052014
Em regime de pleno emprego, a alta dos preços leva os trabalhadores a intensificar as lutas salariais sem o fantasma das demissões em massa. É o que veremos a partir de agora, tendo por pano de fundo a Copa do Mundo
A presidente Dilma Rousseff resolveu contra-atacar. Para conter o avanço da oposição, pôs o pé na estrada e engrossou a voz contra os pré-candidatos do PSDB, o senador Aécio Neves, e do PSB, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. Acusa-os de querer jogar o ônus do combate à inflação nas costas dos mais pobres — o primeiro, ao defender o fim dos subsídios; o segundo, ao propor uma meta de inflação de 3%. Segundo Dilma, essas propostas provocariam muito desemprego. Essa é a velha estratégia do PT para polarizar a eleição com o discurso de que haveria uma conspiração das elites e da mídia com objetivo de apeá-la do poder e liquidar as políticas sociais do atual governo. 
Esse discurso de campanha — é realmente do que se trata — passa uma borracha nas denúncias de corrução no governo, como o escândalo da Petrobras, e rechaça as críticas ao seu fraco desempenho — na saúde, na educação e na segurança pública, principalmente. Por trás da narrativa, existe também uma estratégia de manutenção dos atuais níveis de emprego a qualquer preço, para conter a insatisfação social e garantir a reeleição de Dilma. Para isso, a inflação é administrada muito próxima dos 6,5% do teto da meta, que é de 4,5% ao ano, mediante a contenção de tarifas de combustíveis e de energia. Ainda que isso dê grandes prejuízos à Petrobras e quebre o setor elétrico.
Onda de greves
A estratégia de Dilma Rousseff para se reeleger arma uma bomba-relógio que será detonada depois das eleições, pois a inflação projetada para 2015 já é de 7,5%. Ou seja, cedo ou tarde, talvez logo após o pleito, terá de ser feito um ajuste. Falar sobre isso, porém, virou uma armadilha mortal para a oposição. Endossa o discurso governista de que Aécio Neves e Eduardo Campos não querem o melhor para os mais pobres, defendem apenas os interesses dos mais ricos. Todo plano, porém, tem fricção, nunca acontece como foi concebido. Nesse caso, o que está fora do controle do governo é a reação dos trabalhadores à perda de poder aquisitivo com a inflação. No Rio de Janeiro, professores e rodoviários entraram em greve ontem. Em Pernambuco, trabalhadores da petroquímica de Suape depredaram ônibus e pararam o trânsito.
Em regime de pleno emprego, a alta dos preços leva os trabalhadores a intensificar suas lutas, sem o fantasma das demissões em massa. É o que veremos a partir de agora, tendo por pano de fundo a Copa do Mundo, embora a onda de greves deva se desdobrar até setembro, quando ocorrerão as grandes campanhas salariais de metalúrgicos, petroleiros, carteiros e bancários. Mesmo que a Central Única dos Trabalhadores (CUT), mais ligada ao governo, adote uma política de "apertar o cinto", as outras centrais, como a Força Sindical e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), se encarregarão de radicalizar as campanhas salariais. Sem falar nos sindicalistas que têm outros candidatos disputando as eleições para Presidência da República, como os do PSTU, de José Maria e do PSOL, do senador Randolfe Rodrigues, ambos pré candidatos.

Mantega e Gabrielli
Mesmo sem CPI em funcionamento, a Petrobras continua na agenda negativa do Palácio do Planalto. Irão depor na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados, hoje e amanhã, respectivamente, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli. A pauta é a compra da refinaria de Pasadena (EUA), com prejuízo superior a 500 milhões de dólares à empresa. 
Segundo a presidente Dilma, a direção executiva da Petrobras omitiu do Conselho de Administração, presidido por ela à época, duas cláusulas do contrato com a empresa belga Astra Oil, consideradas prejudiciais. A presidente diz que aprovou negócio com base num parecer falho juridicamente. Gabrielli rebate: "Não posso fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era presidente do conselho", sustentou o ex-presidente da Petrobras ao comentar a acusação de Dilma.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Firme, ma non troppo

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 13/05/2014

 A deriva do PMDB ocorre numa situação em que a presidente Dilma não tem como cobrar fidelidade maior da legenda, porque, no apoio à reeleição, do ponto de vista formal, o mais importante é o tempo de televisão
 O PMDB continua firme com a presidente Dilma Rousseff, ma non troppo. A expressão musical nas partituras significa que o andamento da composição deve ser allegro (rápido), mas de forma moderada. Ou seja, os caciques da legenda começam a apoiar Dilma com certa cautela e mandam sinais de fumaça para o senador Aécio Neves (MG) e para o ex-governador Eduardo Campos (PE), pré-candidatos do PSDB e do PSB, respectivamente. Não vão para o tudo ou nada, mais ou menos como já disse, certa vez, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) sobre um colega em apuros: "Vou até a beira do túmulo, mas não pulo dentro da cova".
O cientista político Murillo Aragão, da Arko Advice, cita o caso do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pré-candidato a governador do Rio Grande do Norte, que abriu ainda mais o leque de alianças com adversários da presidente Dilma Rousseff: depois do PSDB, de Aécio Neves, e do PSB, de Eduardo Campos, Henrique Alves terá na coligação o PSC, que tem o Pastor Everaldo como candidato à Presidência da República. O acordo foi fechado durante encontro evangélico da Convenção Estadual das Assembleias de Deus, em Natal. "Esse modelo de alianças do PMDB reflete a insegurança do partido com a candidatura de Dilma diante das recentes pesquisas, que apontam para uma disputa no segundo turno", avalia Aragão.
Desembarques
"Teremos o apoio do PSB de Eduardo Campos, do PSDB do Aécio e do PSC do Everaldo. Todos serão importantes na nossa caminhada e terão também o nosso respeito às candidaturas dos respectivos partidos, mas sabendo do nosso compromisso nacional com a presidente Dilma e com o nosso vice Michel Temer. Tudo às claras, ética e politicamente responsável", justifica Alves. A situação não para aí. O próprio vice-presidente Michel Temer comanda uma operação para desembarcar da candidatura mais querida do Palácio do Planalto, a da senadora Gleisi Hoffman (PT) ao governo do estado do Paraná.
A ex-ministra da Casa Civil, que hoje atua como porta-voz informal da presidente Dilma Rousseff no Senado, ofuscando o líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), contava com o apoio do PMDB para formar uma poderosa aliança contra a reeleição do governador tucano Beto Richa. Temer puxou o freio de mão e orientou o senador peemedebista Roberto Requião, ex-governador do estado, a considerar seriamente a candidatura ao governo do Paraná. A propósito de Temer, a pré-candidatura do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, pelo PMDB, vai de vento em popa. Na semana passada, com o apoio de Michel Temer, Skaf fechou o apoio do Pros, o que lhe garante mais tempo de televisão e complica ainda mais a vida do pré-candidato petista ao Palácio dos Bandeirantes, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha.
A deriva
As dificuldades com o PMDB já não eram pequenas, por causa de outros conflitos regionais de Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e outros estados, mas se agravam por causa do Rio de Janeiro e do Ceará. Os dois últimos são muito cabeludos, por causa das disputas locais com o PT. Líder nas pesquisas de opinião, Eunício Oliveira não abre mão do apoio do PT a sua candidatura ao governo do Ceará e ameaça rever as alianças no estado, se aproximando do ex-senador tucano Tasso Jereissati. No Rio de Janeiro, apesar da boa relação do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) com a presidente Dilma Rousseff, o presidente do diretório regional, Jorge Picciani, já embarcou de mala e cuia na campanha de Aécio Neves.
A deriva do PMDB ocorre numa situação em que a presidente Dilma Rousseff não tem como cobrar fidelidade maior da legenda, porque o apoio à reeleição, do ponto de vista formal, é o mais importante, pois lhe garante tempo de televisão. Mas, ao acenar para os candidatos de oposição nos estados em que tem candidato próprio, o PMDB abre espaço para uma futura cristianização de Dilma; diga-se de passagem, com a ajuda do PT, que acirra os conflitos locais e joga os caciques peemedebistas nos braços de Aécio Neves e Eduardo Campos.