domingo, 11 de maio de 2014

Guerra de posições

Nas Entrelinhas - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 11/05/2014 

Mudança, pois, é palavra-chave para a oposição, que avança no vácuo deixado por Dilma. Aécio é apontado como o mais preparado para fazer isso por 19% dos eleitores; Campos, por 10%. A presidente Dilma, apenas 15%. 

A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira aponta duas tendências do processo eleitoral. Ambas estão sujeitas a modificações, mas são robustas o suficiente para atravessar o período da Copa do Mundo, que vai de 12 de junho a 13 de julho: a primeira é a inviabilidade de uma eleição de turno único, como sonhara a presidente Dilma Rousseff; a segunda, a polarização PT versus PSDB. Ambas decorrem do crescimento das intenções de voto do pré-candidato tucano, Aécio Neves. A petista teria hoje 37% das intenções de voto, e todos os outros candidatos, somados, 38%.

A avaliação de Dilma, que está com 37%, frustrou o Palácio do Planalto. Esperava-se uma recuperação, devido ao pronunciamento que fizera em cadeia de rádio e televisão no Primeiro de Maio, que foi transformado numa espécie de trampolim eleitoral. Na ocasião, Dilma anunciou a correção do Imposto de Renda da Pessoa Física em 4,5% e um aumento da bolsa família em 10%. Essas medidas, na verdade, serviram para evitar o desastre de mais uma queda abrupta na pesquisa, que faria recrudescer o "Volta, Lula!". A agenda do governo, porém, continua negativa: novos escândalos na Petrobras, quebra-quebras nas manifestações populares, greves selvagens em setores essenciais. Como as projeções são de que a inflação chegará a 7,5% em 2015, possivelmente o programa de tevê do PT marcado para o próximo dia 15 também não reverterá esse cenário eleitoral.

A grande novidade no quadro eleitoral foi mesmo o crescimento de 4 pontos percentuais do presidente do PSDB, Aécio Neves, que saltou de 16% para 20% nas pesquisas. O tucano avançou posições na disputa não só porque manteve uma postura mais ofensiva no Congresso, onde atua intensamente a favor da instalação de uma CPI exclusiva para investigar os escândalos da Petrobras, mas também porque conseguiu unificar o PSDB em torno do seu nome. Essa postura facilita a penetração da candidatura no maior colégio eleitoral do país, São Paulo, onde a polarização já existe e é radicalizada. Como se sabe, o crescimento do tucano no chamado Triângulo das Bermudas, que além de São Paulo, inclui Minas e Rio de Janeiro, é o objetivo estratégico da campanha de Aécio para garantir sua presença no segundo turno.

A pesquisa desmentiu declaração de Marina Silva de que a candidatura de Aécio Neves tem cheiro de derrota. Pelo contrário, quem teve crescimento menor foi o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), o terceiro colocado, que registrou 11% de intenções de votos, um ponto percentual a mais, dentro da margem de erro. O resultado, porém, mostra tendência contínua de crescimento: tinha 9% em fevereiro e 10% em abril. Conhecido por apenas 25% dos eleitores, contra 86% de Dilma e 42% de Aécio, o pessebista enfrenta dificuldades de penetração nos grandes colégios eleitorais, onde chega com atraso, além de ser contingenciado por conflitos de sua coalizão, que inclui a Rede, de Marina Silva; o PPS, de Roberto Freire; e o PPL, o antigo MR-8. O maior problema de Campos é que não conseguiu alavancar o Nordeste em torno de seu nome, por causa da defecção que sofreu no Ceará, com a saída do governador Cid Gomes e o irmão dele, Ciro, do PSB para o Pros. Ambos apoiam a reeleição da presidente Dilma.

Discurso da mudança

Dilma ainda não se livrou do "Volta, Lula!", apesar das afirmações em contrário dele mesmo. Essa possibilidade deixou de ser uma conspiração interna do PT para refletir um desejo de 58% dos eleitores em geral e de 75% dos simpatizantes da legenda. com 35% de bom e ótimo, apenas, a aprovação de seu governo Continua sendo um drogue difícil de arrastar; ou seja, se essa avaliação piorar, estará aberto o caminho para a vitória da oposição, pois está muito próxima do piso necessário para garantir sua reeleição. Segundo os marqueteiros, com essa taxa de aprovação, hoje, essa possibilidade já estaria abaixo de 50%. Os números da pesquisa parecem corroborar essa tese. Com 74% dos eleitores desejosos de mudanças na forma como o país é governado, apenas 15% dos quais veem a presidente Dilma como capaz de representar esse anseio. Essa seria a causa de uma eventual recidiva do "Volta, Lula!", pois o ex-presidente conta com 38% de eleitores que o veem como capaz de promover a mudança.

Mudança, pois, é palavra-chave para a oposição, que avança no vácuo deixado por Dilma. Aécio é apontado como o mais preparado para fazer isso por 19% dos eleitores; Campos, por 10%. O discurso da continuidade em relação ao governo Lula — que levou Dilma ao poder em 2010 — , desta vez, pode estar em contradição com o sentimento do eleitor, que deseja a mudança de rumo. Não é à toa que a estratégia adotada por Dilma para neutralizar a oposição é caracterizar a polarização com o PSDB como um retrocesso, mas falta combinar com os beques, como diria o saudoso Mané Garrincha.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A pátria de chuteiras



Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 08/05/2014

Por maiores que sejam os protestos dos insatisfeitos — pesquisa recente mostrou que a maioria da população gostaria que o dinheiro gasto com os estádios fosse destinado a finalidades mais sociais —, prevalecerá a máxima do jornalista Nelson Rodrigues

Ninguém mais tem dúvidas de que haverá Copa de Mundo. Fracassou o movimento de rua que tentou inviabilizar o evento. Nas 12 cidades sedes, o que haverá daqui pra frente serão protestos contra o governo por dar mais prioridade ao evento do que ao que acontece “da porta pra fora da casa” dos brasileiros. A expressão foi adotada pela presidente Dilma Rousseff para explicar o mau humor da maioria da população em relação aos transportes, à saúde, à educação e à segurança. “Da porta pra dentro”, segundo Dilma, vai tudo bem, obrigado, do microondas ao carro novo. Com exceção da inflação, é claro.

Ontem, o técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, anunciou os 23 convocados para a Seleção Brasileira que nos representará nos jogos. O treinador manteve a base do grupo que conquistou a Copa das Confederações de 2013. O time teve boa aceitação, com exceção de dois nomes, o zagueiro Henrique, ex-jogador do Palmeiras que atualmente joga pelo Napoli, da Itália, uma espécie de “peixe” do Felipão, como diria o deputado Romário (PSB-RJ), e o veterano goleiro Júlio Cesar, que vacilou na última Copa, mas continua sendo ídolo da torcida do Flamengo e goza da confiança do técnico. Somente os atacantes Fred (Fluminense) e Jô (Atlético Mineiro) e os goleiros Jefferson (Botafogo) e Victor (Atlético Mineiro) jogam por aqui. Os demais jogadores brilham nos gramados estrangeiros, do Canadá à Ucrânia.

Para Felipão, o jogo mais importante da Copa do Mundo está marcado para 12 de junho, na abertura dos jogos, contra a Croácia. Será no polêmico Itaquerão, em São Paulo, que está sendo concluído a toque de caixa. A Seleção Brasileira já passou sufoco com os croatas, que são guerreiros e foram derrotados por apenas 1 x 0 na África do Sul. Se o time jogar mal na abertura, estará no sal, sob pressão tremenda da torcida, uma experiência inédita para os atuais jogadores e o próprio técnico. A última vez que o Brasil disputou o título mundial em casa foi naquele fatídico Brasil x Uruguai, na Copa de 1950, no qual perdemos a Copa nos últimos minutos do jogo. Se tudo der certo, veremos a Seleção jogar no novo Maracanã, no dia 13 de junho, para redimir o goleiro Barbosa, seus companheiros e o orgulho nacional.

Por maiores que sejam os protestos dos insatisfeitos — pesquisa recente mostrou que a maioria da população gostaria que o dinheiro gasto com os estádios fosse destinado a finalidades mais sociais —, prevalecerá a máxima do jornalista Nelson Rodrigues: “A Seleção é a pátria de chuteiras”. A segurança para as equipes e os torcedores será pesada e, se for preciso, o Exército tomará conta dos estádios. O que pode estragar a festa são eventuais excessos de manifestantes e/ou dos policiais encarregados de garantir a ordem nas arenas, principalmente, se houver alguma vítima. Mesmo assim, nesses tempos de linchamentos e de banalização da violência, somente uma minoria dará bola para isso, no caso de o Brasil sair do Maracanã com o caneco na mão. Se perder, é outra história…

A estrela de Chinaglia
O plenário da Câmara dos Deputados elegeu ontem o deputado Arlindo Chinaglia (SP) como primeiro-vice-presidente da Casa. Líder do governo, o parlamentar atropelou o deputado fluminense Luiz Sérgio na reunião da bancada do PT que o indicou, com apoio do Palácio do Planalto e da Executiva Nacional da legenda. A votação revelou, porém, uma profunda divisão na bancada, pois o placar foi 44 a 38. Luiz Sérgio representava o grupo de parlamentares do chamado “Volta, Lula”.

O cargo estava vago desde 16 de abril, quando o deputado André Vargas (sem partido-PR) renunciou para se defender das denúncias de envolvimento com o doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato da Polícia Federal. Com a eleição, Chinaglia passa a ser forte candidato à Presidência da Casa em 2015, pois há um acordo com o PMDB para que os dois partidos se revezem no comando da Câmara.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Um bordo negativo

Nas Entrelinhas:Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 07052014

 Hoje, na sessão do Congresso, a CPI mista deve ser instalada. O governo não foi capaz de manter coesa a sua base e o PT, contrário à investigação conjunta, acabou isolado 

A presidente Dilma Rousseff tenta avançar contra a corrente como aquele velejador que não tem alternativa a não ser prosseguir no bordo negativo — que o afasta do destino — para se distanciar dos perigos da costa. Desde o fim de semana passado, quando tentou sepultar o “Volta, Lula” no encontro do PT, trabalha uma agenda negativa, que vai da CPI da Petrobras, cuja instalação virou uma novela, aos indicadores de emprego da pesquisa Pnad Contínua, que a cúpula do IBGE havia cancelado e, agora, voltou atrás. Essa agenda inclui ainda números desfavoráveis na saúde pública, apesar do Mais Médicos; problemas no setor elétrico e indicadores econômicos que abalam a credibilidade do governo junto aos investidores; e críticas generalizadas aos preparativos da Copa do Mundo, dentro e fora do país, além das ameaças de recidivas do “Volta, Lula”.
 
Ontem, Dilma se reuniu com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-RN), e da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), numa tentativa de domar a instalação da CPI Mista da Petrobras, que o governo tentava evitar, restringindo-a ao Senado, no qual a base governista é mais segura. Faltou combinar com o líder da bancada do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), que não foi chamado para a reunião e já disse que quer participar das investigações. Por mais que o governo consiga domar a CPI, esse é um jogo no qual se tem sempre mais a perder do que ganhar. Para a oposição, a lengalenga é até boa.
 
Hoje, na sessão do Congresso, a CPI mista deve ser instalada. O governo não foi capaz de manter coesa a sua base e o PT, contrário à investigação conjunta, acabou isolado. O posicionamento de Henrique Eduardo Alves liquidou o assunto: “A Câmara quer participar desde o primeiro momento. É a participação correta, democrática, transparente do Senado e da Câmara. Acho que o senador Renan Calheiros está certo em marcar a sessão do Congresso e pedir que os líderes indiquem os membros”, disse. O presidente da Câmara também descartou a possibilidade de a CPMI investigar outros temas além da Petrobras, como as denúncias de corrupção nas obras do metrô de São Paulo, como querem os governistas. 

Comparações
A estratégia do Palácio do Planalto para sair da defensiva é antecipar a polarização eleitoral e fazer um confronto entre os indicadores econômicos e sociais dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, procurando mostrar o comando de Dilma Rousseff como continuidade do projeto petista. Essa retórica ajuda a conter o “Volta, Lula” e arma o discurso partidário contra os adversários Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), mas não mexe ainda com a cabeça do eleitor e tem a fragilidade de revelar uma curva decrescente quando os números chegam à gestão atual. 

Foi o que aconteceu na reunião da presidente da República com 20 de seus ministros na segunda-feira, ocasião em que o ministro Marcelo Neri, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, fez uma leitura “por dentro” dos indicadores sociais e proclamou que “o resultado para os brasileiros é bem diferente do resultado para os economistas”.
 
Neri, que foi efetivado no cargo, mostrou como positivo um paradoxo: “Nestes 11 anos, a desigualdade cai e continua caindo. A renda média continua subindo”, disse, destacando que a variação da renda teve crescimento médio, segundo ele, de 3,5% desde 2005, ou seja, muito superior ao Produto Interno Bruto. Ocorre que não existe almoço grátis, como a renda sobe mais do que a produção nacional, a inflação se encarrega de corrigir essa defasagem, comendo uma parte dos salários. Outro paradoxo é a relação entre o acesso da população aos bens, que cresceu a uma taxa de 320% nos últimos anos e os serviços, que se expandiram apenas em 48%. Vem daí a insatisfação popular com o transporte público, a saúde, a educação e a segurança.

O general da Copa
O general de Exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, 62 anos, que estava há dois anos e oito meses no Comando Militar da Amazônia, assumirá na próxima terça-feira o Comando de Operações Terrestres. Sua primeira missão será a segurança da Copa do Mundo. “Temos forças de contingência para atuar em casos de emergência e forças de segurança para pontos estratégicos.”

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A encruzilhada


Luiz Carlos Azedo 05/05/2014
Correio Braziliense - Nas Entrelinhas
Estado de Minas - Em Dia Com a Política

Lula volta à retórica da luta de classes como centralidade da disputa política, sua praia desde os tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Isso pode até ajudar o PT a se manter no poder, mas por si só não é capaz de resolver os problemas da sociedade

Um dos acontecimentos mais extraordinários do século passado, a I Guerra Mundial (1914-1918), que completará 100 anos em junho, foi uma carnificina monstruosa. Dos 60 milhões de soldados europeus que foram mobilizados, 9 milhões foram mortos, 7 milhões ficaram incapacitados e 15 milhões foram gravemente feridos. A Alemanha perdeu 15,1% de sua população masculina ativa; a Áustria-Hungria, 17,1%; e a França, 10,5%. Foi uma “guerra de posições”, na qual o arame farpado e a metralhadora impediam os avanços da infantaria, mas, em contrapartida, os carros blindados, a aviação e o gás tóxico, usados pela primeira vez, ampliaram o número de baixas nas trincheiras.

Na Rússia, em consequência da revolução bolchevique e da guerra civil que sucedeu sua saída do conflito mundial, a fome matou entre 5 e 10 milhões de pessoas; na Alemanha, 474 mil civis; no Líbano, 100 mil. A movimentação de tropas também ajudou a disseminar a “gripe espanhola”, epidemia que matou 50 milhões de pessoas na década de 1920.

O conflito foi protagonizado pela Tríplice Entente, formada pelo Reino Unido, França e Rússia, de um lado; e a Tríplice Aliança, composta pelo impérios alemão, austro-húngaro e a Itália, de outro. Por causa do colonialismo, ganhou escala global. O assassinato do arquioduque Francisco Fernando da Áustria, herdeiro do trono austro-húngaro, pelo nacionalista iugoslavo Gavrilo Princip, em Sarajevo, na Bosnia, no dia 28 de junho, foi o estopim do conflito: a dinastia dos Habsburgo atacou a Sérvia, que era aliada do Império Russo. Em poucas semanas, as potências européias estavam em guerra.

A insensatez
A I Guerra Mundial dificilmente teria ocorrido, porém, se o Partido Social-Democrata Alemão (SPD) — de base operária e formação marxista, como o eram também o Partido Trabalhista inglês e o Partido Socialista francês — não tivesse aprovado os créditos de guerra e embarcado na onda chauvinista que varreu a Europa após o atentado de Saravejo. A capitulação do SPD aos apelos da guerra interrompeu um experiência política que apostava na democracia e no desenvolvimento econômico para melhorar a vida dos trabalhadores. Ela somente foi retomada pela social-democracia após a derrota do fascismo na II Guerra Mundial, é o chamado “estado de bem-estar social”, que vigora até hoje em muitos países da Europa.

A adesão dos social-democratas alemães e dos trabalhistas ingleses à guerra teve também um grande efeito colateral: levou Lênin e outros líderes bolcheviques que haviam assumido o poder na Rússia a criar a Internacional Comunista, que passou a exercer grande influência mundial, a partir do dogma de que o motor da História é a luta de classes, muito mais do que o desenvolvimento das forças produtivas. Estabeleceu-se ali uma encruzilhada histórica, na qual os comunistas acabaram num beco sem saída, que resultou no colapso da União Soviética, implodida pelo avanço tecnológico do capitalismo. Hoje, a China comunista, a potência emergente, sobrevive porque adotou uma via capitalista de desenvolvimento; cedo ou tarde, porém, terá que fazer um ajuste de contas com os direitos civis e a democracia.

O anacronismo Por tudo isso, salta aos olhos pelo anacronismo a retórica adotada pelo ex-presidente Lula para reagrupar a militância petista em torno da presidente Dilma Rousseff e segurar a onda dos que querem que ele próprio seja o candidato do PT. Para o líder petista, a origem de críticas a ele, ao PT e ao governo Dilma seria “o preconceito arraigado na mente de uma elite que não muda”, em vez dos questionamentos à corrupção ou à eficácia do governo. “Eles que não gostam de nós, que têm preconceito contra o PT, que não gostam de mim, é por causa disso. Não é pelas coisas erradas que nós fazemos, é pelas coisas certas. Porque o Prouni e o Fies (programas de incentivo ao ensino superior) permitem que a filha da empregada doméstica possa ser médica, que o filho do pedreiro possa ser engenheiro, que o filho do jardineiro possa ser advogado.”

Lula volta à retórica da luta de classes como centralidade da disputa política, sua praia desde os tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Isso pode até ajudar o PT a se manter no poder, mas por si só não é capaz de resolver os problemas da sociedade, como nos mostra a História. As dificuldades eleitorais da presidente Dilma Rousseff resultam em grande parte do fracasso de sua estratégia de desenvolvimento, que não surtiu o efeito desejado, tanto em relação ao controle da inflação, que tunga parte dos salários dos trabalhadores, quanto aos problemas de produção de petróleo, energia elétrica, construção de rodovias, modernização de transportes coletivos e do sistema portuário. Sem falar na estagnação da indústria nacional de bens de consumo e de máquinas e equipamentos, cujo peso na economia, hoje, é proporcional ao da década de 1950.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Trabalhar pra quê?

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 02/05/2014

O governo tapa o sol com peneira ao fugir de um diagnóstico sobre o que acontece com 62 milhões de brasileiros em idade de trabalhar que não procuram emprego. Um cruzamento com dados do Ipea mostraria que, entre eles, estão cerca de 10 milhões de jovens "nem-nem"

Detonada pelo Palácio do Planalto, que mandou suspendê-la depois de um questionamento da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), ex-ministra-chefe da Casa Civil, da tribuna do Senado, a pesquisa ampliada do IBGE sobre o mercado de trabalho (Pnad Contínua) mostra uma realidade que ainda vai dar muito o que falar e influenciará os resultados da campanha eleitoral: temos um exército de 62 milhões de brasileiros em idade de trabalhar — ou seja, 39% da chamada população economicamente ativa — que desistiram de procurar emprego. Quem são, por que não procuram um posto de trabalho? São perguntas que passaram o Primeiro de Maio, Dia do Trabalhador, sem a devida resposta.

O Brasil tem 92 milhões de trabalhadores, com nível de ocupação da ordem de 57% da população em idade de trabalhar. Oficialmente, os desempregados no Brasil pós-Lula são apenas 4% dessas pessoas, isto é, 6% dos que procuram emprego. Pelas estatísticas do Ministério do Trabalho, o desemprego no Brasil é menor do que o da maioria dos países europeus. No entanto, Coreia do Sul (3,9%), Japão (3,6%), Noruega (3,5%) e Suíça (3,2%) desmentem a tese de que temos a menor taxa de desemprego do mundo, como propaga o marketing oficial.

Esse é um dos mitos da era pós-Lula que a pesquisa ampliada do IBGE derrubaria. A tese do pleno emprego se ampara em dados de apenas seis regiões metropolitanas, que mostram desemprego na casa dos 5%. A Pnad Contínua mostra taxa mais alta, de 7,1% na média de 2013, e, sobretudo, desigualdades regionais: no Nordeste, o desemprego médio do ano ficou em 9,5%. Nossa taxa real de desemprego estaria acima à dos Estados Unidos, que foi de 6,7% em março. A pesquisa ampliada permitiria comparações com taxas apuradas no passado por amostras de domicílios. Números do Ipea mostram que o desemprego atual é semelhante, por exemplo, ao medido na primeira metade nos anos 1990.

O governo tapa o sol com peneira ao fugir de um diagnóstico sobre o que acontece com 62 milhões de brasileiros em idade de trabalhar que não procuram emprego. Um cruzamento com dados do Ipea sobre a juventude mostraria que entre são cerca de 10 milhões os jovens nem-nem, com menos 30 anos, que também não estudam, ou sejam, que tendem a permanecer fora do mercado de trabalho para o resto da vida. Nesses milhões de não empregados, digamos assim, certamente há deficientes físicos que não encontram colocação, negros que são discriminados, mulheres que se dedicam apenas ao lar, pessoas acomodadas pelo Bolsa Família, encarcerados nos presídios, concurseiros em busca de um cargo público etc. Quantos são eles? Aparentemente, o governo não quer saber ou, pior, não quer revelar. Com certeza, porém, a resposta não está no velho samba de quadra do falecido Enildo Barbudinho, famoso radialista e sambista de Niterói, cujo nome intitula a coluna e fala do malandro que prefere ganhar a vida com o baralho.

Primeiro de Maio
O ato da Força Sindical em comemoração pelo Dia do Trabalho ontem em São Paulo virou um meeting da oposição. Secretário-geral da Presidência, o ministro Gilberto Carvalho foi vaiado, embora seja um velho conhecido dos sindicalistas. Recebeu apupos ao falar das medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff na quarta feira, em cadeia nacional de rádio e televisão, ou seja, o aumento de 10% no valor do Bolsa Família e a atualização da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física.

As estrelas do evento foram o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), que desceram o pau na atual política econômica e foram muito aplaudidos, uma cena inusitada para os trabalhadores paulistas. O presidente licenciado da central sindical, o deputado federal Paulinho da Força, que preside o Solidariedade, exagerou nas críticas à presidente Dilma Rousseff: chegou a pedir ao público que mandasse uma banana para a presidente.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A travessia da Copa


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 30/04/2014

A margem de segurança para a reeleição de Dilma Rousseff estreitou-se. É quase certo que haverá dois turnos. Outros indicadores da pesquisa apontam nessa direção

 Confirmou-se a tendência de queda gradativa da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de votos, segundo divulgou ontem a Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Levantamento realizado pelo Instituto MDA revelou uma perda de seis pontos em comparação com fevereiro, quando a candidata do PT registrou 43,7%. Dilma agora tem 37%. Pré-candidato pelo PSDB, o senador Aécio Neves subiu 4,6 pontos (de 17% para 21,6%), enquanto Eduardo Campos, do PSB, variou 1,9% para cima (de 9,9% para 11,8%), na margem de erro, portanto. A pesquisa fez recrudescer as declarações no campo governista de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não será candidato, mas o “Volta, Lula!” está mais forte do que nunca.

A margem de segurança para a reeleição de Dilma Rousseff estreitou-se. É quase certo que haverá dois turnos. Outros indicadores da pesquisa apontam nessa direção. Além da vantagem de Dilma para os demais candidatos ter diminuído para menos de 4 pontos, nas simulações de segundo turno, o favoritismo da presidente também recuou. Mesmo assim, ela ainda venceria Aécio Neves (PSDB-MG) com 39,2% dos votos contra 29,3% do tucano (antes a vantagem era de 46,6% contra 23,4%). Na simulação com Campos, Dilma tinha 48,6% das intenções e caiu para 41,3%, enquanto o ex-governador pernambucano cresceu de 18% para 24%.

Tudo indica que a capacidade de governança é o principal problema da atual chefe do Executivo. O índice de aprovação do governo caiu de 36,4%, em fevereiro deste ano, para 32,9%. A avaliação negativa aumentou de 24,8% para 30,6% e a regular diminuiu de 37,9% para 35,9%. A aprovação do desempenho pessoal de Dilma foi contaminada pelo desempenho do governo: caiu de 55% para 47,9%, enquanto o percentual que desaprova a administração aumentou de 41% para 46,1%. Vem daí a maior dificuldade para estancar a queda dos últimos meses. A pesquisa entrevistou 2.002 pessoas de cinco estados, das cinco regiões do país, entre 20 e 25 de abril.

De olho no caneco
Os estrategistas do Palácio do Planalto torcem para que a Copa do Mundo dê um refresco para a presidente Dilma Rousseff, tirando do foco os escândalos envolvendo a Petrobras e outros temas negativos na economia, na educação, na saúde e nos transportes. O tema da violência é uma incógnita, pois tudo indica que está recrudescendo com a aproximação dos jogos da Copa do Mundo. É senso comum a ideia de que a conquista do título pela Seleção Brasileira no certame mudaria o humor da população, com impacto favorável à reeleição de Dilma nas pesquisas de opinião. A recíproca, nesse caso, seria verdadeira para a oposição, em caso de derrota, o que nenhum coração patriótico deseja.

O raciocínio governista é ainda mais complexo porque imagina que a Copa do Mundo servirá para destacar o papel de Dilma como realizadora das obras necessárias ao evento e ofuscar os candidatos de oposição, que ficarão sem palanque durante os jogos. Por esse cálculo, a Copa do Mundo seria a oportunidade de sustentar o favoritismo até o início do horário eleitoral, em 15 de agosto, neutralizando assim os que defendem a candidatura do ex-presidente Lula tanto no PT como nos partidos aliados. Nada garante, porém, que a exposição privilegiada de Dilma não provoque a radicalização dos protestos contra a Copa, direcionando-os contra ela própria.

O melhor mesmo é deixar a Copa do Mundo fora disso, até porque uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra. Sempre é bom lembrar que o célebre primeiro ministro bitânico Winston Churchill foi um dos quatro grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial, ao lado dos presidentes Franklin Delano Roosevelt (EUA), Josef Stálin (extinta União Soviética) e Charles De Gaulle (França), mas perdeu as eleições, em 1945, para os trabalhistas liderados por Clement Attlee, só voltando ao poder em 1951, aos 76 anos, com a vitória dos conservadores nas urnas. 

Olha o Leão
Termina hoje o prazo para a entrega da declaração do imposto de renda da pessoa física. Apesar do baixo crescimento, a Receita Federal anunciou que o governo arrecadou R$ 293,4 bilhões no primeiro trimestre deste ano — um “recorde” para o período, em termos reais, ou seja, já descontada a inflação.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Subiu no telhado


Luiz Carlos Azedo - 28/04/2014
Correio Braziliense ( Nas Entrelinhas) 
Estado de MInas (Em Dia Com a Política)
Dilma enfrenta agora uma situação nova: com a possibilidade cada vez maior de uma disputa em dois turnos, por uma série de razões, mesmo estando hoje em vantagem nas pesquisas, a reeleição subiu no telhado. Vejamos as razões:

 A candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff enfrenta um momento crítico. Não é por causa do movimento “Volta, Lula!”, que entrou em convulsão com a CPI da Petrobras e a Operação Lava-Jato, mas por causa das pesquisas de opinião, que registram queda gradativa das intenções de voto da candidata petista (de 44% para 38%, segundo o Datafolha) e, mais ainda, da avaliação de seu desempenho no governo (63% dizem que Dilma fez menos do que esperavam, revelou a mesma pesquisa). Até recentemente considerada favorita absoluta nas eleições deste ano, Dilma enfrenta agora uma situação nova: com a possibilidade cada vez maior de uma disputa em dois turnos, por uma série de razões, mesmo estando hoje em vantagem nas pesquisas, a reeleição subiu no telhado. Vejamos as raz ões:

A economia vai mal
Previsões de que a inflação deste ano deve ultrapassar 6,5% tiram o sono de Dilma Rousseff. Especialmente porque a taxa de crescimento continua baixa, e elevar ainda mais os juros pode jogar o país numa recessão. A contenção de tarifas públicas para segurar a inflação já é vista como uma bomba-relógio pelos analistas e começa a ser denunciada pelos candidatos adversários. Além disso, a condução da política econômica afasta grandes investidores de projetos de infraestrutura e outros negócios. A ponto de o Planalto vazar a informação de que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, está escalado para substituir o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antes mesmo do pleito, se for preciso. Trata-se de uma tentativa de recuperar a confiança do mercado.

Petrobras no pelourinhoA CPI da Petrobras é uma pedra no sapato do governo, com ingredientes explosivos por causa da sucessão de fatos que vinculam o doleiro preso Alberto Youssef ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, também em cana, e ao deputado André Vargas (sem partido-PR) e alguns petistas. O parlamentar se desfiliou do PT na sexta, mas arrastou para o olho do furacão o candidato a governador de São Paulo Alexandre Padilha (PT), que é o principal palanque regional de Dilma. Como essas denúncias são resultado de vazamentos de investigações da Polícia Federal, mesmo que o governo consiga domar a CPI, isso não significa que se verá livre de novos escândalos.

A violência nas ruas
Por mais que o Planalto jogue o problema no colo dos governadores, aliados ou não, o tema da violência tende a desgastar o governo federal, quando nada pelo trabalho insuficiente para desmantelar as redes de tráfico de armas e de drogas. Nas cidades, além dos conflitos com o crime organizado, às vésperas da Copa do Mundo, a inquietação social também se ampliou, com a multiplicação de atos de vandalismo e confrontos violentos com policiais encarregados de garantir a ordem pública por causa de problemas nas áreas sociais: transportes, saúde, habitação. O governo prometeu soluções e não as entregou. Dilma tenta manter a bandeira da ordem em mãos, mas não se faz isso sem combater a violência.
Aliança com o PMDB
Deve-se ao vice-presidente Michel Temer, principalmente, a manutenção da aliança do PMDB com o PT, o que garantirá à presidente Dilma, com os demais aliados, o dobro do tempo de televisão de que disporão os adversários do PSDB, o senador Aécio Neves (MG), e do PSB, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. Entretanto, nos estados, a tensão entre PT e PMDB continua grande, principalmente no Rio de Janeiro e no Ceará, que sempre marcharam com o PT. O resultado disso é que as dissidências do PMDB estão fortalecendo os palanques de Aécio e de Eduardo na maioria dos estados.

A unidade do PSDB Aécio conseguiu unir o PSDB em torno da candidatura dele, isolando o ex-governador paulista José Serra, seu desafeto interno, com quem pode até vir a compor a chapa, se depender das articulações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Além de subir o tom dos ataques contra o governo, com auxílio do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, Aécio ampliou a interlocução com setores empresariais descontentes com a política econômica de Dilma. Simultaneamente, busca atrair partidos da base governista. Os estrategistas de Dilma contavam com a divisão do PSDB, principalmente em São Paulo, o que não ocorreu.

A terceira via
Outra pedra no sapato de Dilma Rousseff é Marina Silva, cuja candidatura presidencial conseguiu inviabilizar. A ex-petista se filiou ao PSB e acaba de consolidar a chapa de Eduardo Campos ao assumir a condição de vice, como havia anunciado. Além disso, Dilma empurrou o candidato pernambucano para o campo da oposição no segundo turno, mesmo que ele fique fora da disputa. A inclusão do Porto de Suape no espectro de investigações que o PT pretendia adicionar à CPI da Petrobras foi um erro estratégico do Planalto, provocado pela bancada petista de Pernambuco.
Diante desse quadro, as fichas de Dilma para reverter a queda nas pesquisas serão apostadas no pronunciamento em rede de tevê e rádio que ela pretende fazer para comemorar o Primeiro de Maio, e no programa de televisão do PT que vai ao ar no próximo dia 15, quando, novamente, aparecerá ao lado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essas variáveis acima, porém, não serão alteradas somente no gogó.