quarta-feira, 26 de junho de 2013

Constituinte, que Constituinte?

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 26/06/2013



A tese de uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política caiu por terra como um balão apagado, menos de 24 horas após ser inflada pela presidente Dilma Rousseff. O Palácio do Planalto acreditou que a proposta do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) era uma saída política, para um governo posto no canto da parede pelas manifestações que ainda ocorrem em todo o país.


Caso tivesse consultado o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), um dos principais constitucionalistas do país, Dilma não teria subido no balão. A proposta foi apresentada na reunião da presidente com governadores e prefeitos, na segunda-feira, sem nenhuma negociação prévia com as lideranças governistas do Congresso, que reagiram negativamente, com exceção dos líderes do PT.


“Eu acho inviável. Tenho posição definida há muitos anos a respeito disso, dizendo que a Constituinte é algo que significa o rompimento da ordem estabelecida. Seja ela exclusiva ou não. Porque nunca será exclusiva, sempre abarcará uma porção de temas. E, para a situação atual, não se faz necessária uma Constituinte, ou seja, não se faz necessário romper a ordem jurídica”, fulminou Temer, que é um dos redatores da Constituição Federal de 1988.


Redação infeliz
Temer, porém, contemporizou: afirmou que houve um “problema redacional” na declaração da presidente Dilma e que ela foi mal interpretada, embora a proposta tenha sido apresentada por ela e confirmada, com todas as letras, pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Segundo Temer, o que Dilma defende é a consulta popular sobre a reforma política. “As normas seriam definidas pelo Congresso Nacional, o povo se manifestaria e os resultados seriam reconhecidos e legitimados pelos parlamentares, em seguida”, explica.


Todos juntos
O presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL), lamentou publicamente não ter sido ouvido pela presidente Dilma Rousseff. Especialista em sobrevivência política, tão logo soube da proposta de Dilma, Renan foi aconselhar-se com o ex-presidente José Sarney (PMDB-AM), mestre na arte de dar a volta por cima. Renan prometeu colaborar com a reforma política e empunhou a bandeira da conciliação, até com a oposição.


Pacto na reforma
A confusão criada pela proposta de Constituinte exclusiva no Congresso deixou o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), feliz como pinto no lixo, como diria o saudoso Jamelão, puxador de samba da Estação Primeira de Mangueira. Aécio emplacou na agenda de reformas apresentada pelo presidente do Congresso, Renan Calheiros, a proposta de revisão do pacto federativo.


Emendas
Estão encalhadas na Câmara dos Deputados 1.234 propostas de emenda constitucional, as chamadas PECs. No Senado, há mais 443 emendas. Desde 1988, a Constituição sofreu
79 mudanças


A Constituição Federal dos EUA, de 1788, tem 224 anos e apenas
27 emendas


Meia volta
A sugestão de um “processo constituinte específico”, além de muito criticada no Congresso, foi bombardeada por juristas e pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, formalizou o recuo do Palácio do Planalto. Disse que a presidente Dilma não sugeriu exatamente a convocação de uma Assembleia Constituinte, mas um plebiscito.


Partidos// 
O projeto que restringe a criação de novos partidos políticos dançou. Pelo menos por enquanto não entra na pauta do Senado. Na semana passada, o STF votou pela continuidade da tramitação do projeto na Casa, mas vários ministros alertaram para a inconstitucionalidade da matéria.


Posse/ O advogado Luís Roberto Barroso assume hoje o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele preenche a vaga do ministro Carlos Ayres Britto, aposentado desde novembro do ano passado. Barroso é o quarto ministro indicado por Dilma para o STF. Os demais são Rosa Weber, Luiz Fux e Teori Zavascki.


Copa/ Na votação da medida provisória que destinava recursos para os municípios do Nordeste atingidos pela seca, a Câmara aprovou ontem destaque do deputado Rubem Bueno (do PPS-PR), derrubando a emenda que destinava recursos para Fifa instalar um centro de comunicações para a Copa do Mundo de 2014. Só o PT votou contra. O PCdo B sumiu do plenário.


Convocado/ A Comissão de Educação, Cultura e Esporte, presidida pelo senador Cyro Miranda (PSDB-GO), aprovou a convocação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para dar explicações sobre as denúncias de má conservação do prédio do Arquivo Nacional, a pedido da senadora Ana Amélia (PP-RS).



Camburão/ Por meio do Departamento Penitenciário Nacional, o Ministério da Justiça adquiriu 215 carros-cela a R$ 22 milhões. As viaturas serão doadas aos estados. Cada furgão têm capacidade para transportar oito presos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Guinada à esquerda

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 25/06/2013
 
A presidente Dilma Rousseff ensaiou ontem uma guinada à esquerda de seu governo, durante encontro com governadores e prefeitos, no qual propôs a convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política e uma nova “faxina” na administração pública, com endurecimento das penas contra os corruptos, cujos crimes passariam a ser considerados hediondos.

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A proposta de Constituinte exclusiva é uma velha tese do PT, que não subscreveu a atual Constituição quando ela foi aprovada, em 1988, nem consegue aprovar a reforma política no Congresso Nacional, com eixos no voto em lista partidária fechada e no financiamento público de campanha, além de uma legislação que restringe a existência de partidos mediante o voto vinculado e o fim das coligações.

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Anunciada como parte de um pacto para melhorar as políticas públicas nas áreas de transporte público, educação e saúde, a proposta de Dilma Rousseff é uma resposta às manifestações por todo o país, que já mobilizaram mais de 2 milhões de pessoas. Dilma tenta traduzir, no plano institucional, os anseios dos manifestantes: “O Brasil está maduro para avançar e já deixou claro que não quer ficar parado onde está”, disse a presidente.

Outras propostas

Além de uma legislação que considere a “corrupção dolosa como crime hediondo”, com penas mais severas, a presidente Dilma pediu agilidade na implantação da Lei de Acesso à Informação. E defendeu a responsabilidade fiscal, com o objetivo de manter a estabilidade da economia e o controle da inflação.

Enxugamento

Presidente do PSDB, o senador mineiro Aécio Neves tenta articular uma ação mais coordenada da oposição, a partir de um encontro com governadores e prefeitos do PSDB, e de uma reunião com os presidentes do DEM, senador Agripino Maia (RN), e do PPS, deputado Roberto Freire (SP). Aécio fustiga a presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, medidas mais eficazes seriam a “diminuição drástica do número de ministérios, de cargos comissionados e ações efetivas no campo da economia, para inibir o crescimento da inflação”.

Terceira via

Dois presidenciáveis buscam um posicionamento diferenciado no processo. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e Marina Silva, que organiza a Rede Sustentabilidade. Ambos buscam articular uma espécie de “terceira via”: o primeiro opera no campo da política institucional; a segunda, com os movimentos sociais.

Iniciativa popular
O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançaram ontem campanha pela realização da reforma política. A estratégia é a mesma da aprovação da Lei da Ficha Limpa. O movimento buscará 1,5 milhão  de assinaturas


Candidatos avulsos
O PT se mobiliza para barrar a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 7, de 2012, de iniciativa do senador Cristovam Buarque, do PDT-DF, que autoriza a candidatura de pessoa sem filiação partidária, mediante subscrição de determinado número de eleitores. Diversos países praticam esse tipo de candidatura. Nos Estados Unidos, é chamada “candidatura independente”; na Itália, a “lista cívica”. Para Cristovam, “a candidatura avulsa ou independente ajuda a oxigenar e arejar a política”.

Parecer contrário
A PEC 7 encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, pronta para a pauta. Designado relator, o senador Humberto Costa (PT-PE) apresentou parecer contrário. O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) pretende apresentar voto em separado contra a proposta. “Essa é uma das poucas iniciativas legislativas que favorecem um diálogo frutífero, nas condições atuais, entre o Congresso Nacional e as manifestações populares”, argumenta.

Cravo e ferradura//
O presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, apoia a proposta apresentada pela presidente Dilma Rousseff de transformar em crime hediondo os crimes de corrupção cometidos no país. Curioso é que ele também apoia a PEC 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público.

Roteiro/ O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Sandro Avelar, queixa-se das dificuldades de negociação com as lideranças dos movimentos de protesto em Brasília. “Eles convocam as manifestações e não se responsabilizam pelo que acontece depois. Se nos dessem, pelo menos, o roteiro das manifestações com antecedência, teríamos melhores condições de combater o vandalismo.”

Azebudsman/ Em relação à nota intitulada “Da viúva”, publicada na edição de sábado, a Coordenadoria de Comunicação para a Copa esclarece que o valor de R$ 22 milhões, apontado como o impacto da Copa das Confederações na economia do DF, é um cálculo parcial, indicado pela Embratur, e se refere à movimentação no sábado da abertura da Copa e o dia seguinte. Estudo realizado pela Codeplan calcula que R$ 70 milhões foram movimentados em razão do jogo Brasil x Japão.
 

O vento mudou

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 23/06/2013
 
A presidente Dilma Rousseff não navega mais em mar de almirante. Mesmo dispondo de grande popularidade, o caráter nacional e a envergadura dos protestos deixaram o governo perplexo e colocou em xeque a reeleição da presidente, na avaliação da cúpula do PT e seus aliados. "O vento mudou e acabou a zona de conforto", avalia um interlocutor de Dilma.

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Somente na sexta-feira, em cadeia de rádio e televisão, Dilma reagiu com firmeza à situação criada pelos protestos e, também, por atos de bandidagem e vandalismo. Além de anunciar que pretende ouvir a voz das ruas, negociar com os movimentos sociais e pactuar com governadores e prefeitos grandes investimentos em mobilidade urbana, a presidente da República falou o que a sociedade queria ouvir em relação às manifestações: vai garantir a lei e a ordem e reprimir o vandalismo.

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Na avaliação do Palácio do Planalto, o Movimento do Passe Livre, que deu início aos protestos, pôs na ordem do dia uma nova agenda. A elaboração do Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que privilegiará o transporte coletivo, será uma mudança de paradigma. As demais propostas de Dilma, como a destinação de 100% dos royalties do petróleo para a educação e a contratação de milhares de médicos estrangeiros, são no mínimo polêmicas no Congresso e entre os profissionais de saúde.

Cuidado
A presidente Dilma Rousseff teve muito cuidado no pronunciamento para não acirrar os ânimos dos manifestantes contra si, mas mirou também os setores da sociedade que estão descontentes com a onda de vandalismo. No Palácio do Planalto, a insatisfação com a atuação da Polícia Federal e da Abin é generalizada.

Balanço
Levantamento feito pela Confederação dos Municípios Brasileiros registrou protestos e distúrbios em 438 cidades

Artilharia
O deputado Romário (foto), do PSB-RJ, aproveitou a onda de protestos para gravar um vídeo detonando a Copa das Confederações. Elogia o povo pelas manifestações que tomaram conta do país nos últimos dias e diz que a classe política precisa entender que o tempo de "falcatruas" acabou. Romário adverte que os custos com os estádios ainda vão aumentar, por conta de novas reformas que visam a Copa do Mundo, após a das Confederações.


Guerra e Paz
Relato sobre o petista André Vargas (foto), que exercia a presidência do Congresso quando os manifestantes tentaram invadir: "Alertado pelos policiais sobre os riscos de levar pedradas ou até mesmo as bombas que estavam sendo lançadas, ou ainda ser alvo de foguetes e sinalizadores, André Vargas abriu a porta principal do Congresso Nacional para verificar in loco o clima das manifestações. O paranaense postou-se frente a frente com os manifestantes, onde permaneceu por cerca de 40 minutos".

Reforma
O senador Rodrigo Rollemberg, do PSB-DF, ao avaliar as manifestações ocorridas em todo o país, disse que as reivindicações guardam relação entre si e que as principais críticas são à política e às instituições. Rollemberg defende uma reforma política para restabelecer a confiança da sociedade nas instituições democráticas.

Constituinte//

Líder dos ruralistas, o deputado federal Alceu Moreira (PMDB-RS) articula a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permita a eleição de uma Constituição Exclusiva Revisional, com candidatos avulsos e sem vínculos partidários. O momento seria propício para rever o texto da Constituição.

Pancadaria/ O Ministério Público do Rio de Janeiro investigará a atuação da Polícia Militar durante as manifestações ocorridas na cidade. A 2° Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania já instaurou um inquérito civil para apurar o eventual excesso por parte de policiais militares e do Batalhão de Choque, como abuso de poder.

Bilíngues/ O governo está preocupado com a atuação de grupos organizados nas redes sociais, que produzem farto material em inglês sobre os acontecimentos no Brasil, e que acabam influenciando os manifestantes por aqui.

Roda Viva/ O entrevistado do programa da TV Cultura de amanhã é o ex-governador de São Paulo José Serra. O tucano até hoje não assumiu compromisso com a candidatura do senador Aécio Neves à Presidência da República.

O que vem das ruas

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 22/06/2013
 
Intitulada Ouvir o clamor que vem das ruas, a nota do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — reunido em Brasília desde o dia 19 — prestou, ontem, solidariedade e apoio às manifestações que acontecem em todo o país. "Desde que pacíficas", ressalvam os religiosos. O alto clero brasileiro, em outras ocasiões, reagiu de forma diferenciada, como na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que ajudou a desestabilizar o governo de João Goulart e deu sustentação social ao golpe de Estado de 1964.

Considerando as instituições tradicionais do país, foi o mais importante pronunciamento até agora. Antecipou, inclusive, à presidente Dilma Rousseff, que recebeu o presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, ontem à tarde. "Nascidas de maneira livre e espontânea a partir das redes sociais, as mobilizações questionam a todos nós e atestam que não é possível mais viver num país com tanta desigualdade."

"Sustentam-se na justa e necessária reivindicação de políticas públicas para todos. Gritam contra a corrupção, a impunidade e a falta de transparência na gestão pública. Denunciam a violência contra a juventude", brada o documento.

O gigante
Os bispos destacam que os brasileiros não estão dormindo em "berço esplêndido". E que o direito democrático a manifestações como estas deve ser sempre garantido pelo Estado. Mas criticam a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento da liberdade de ir e vir, de pensar e de agir diferente, "que devem ser repudiados com veemência".

O clero
Além do cardeal Raymundo Damasceno Assis, subscrevem a nota dom José Belisário da Silva, arcebispo de São Luís e vice-presidente da CNBB; e dom Leonardo Ulrich Steiner, bispo auxiliar de Brasília e
secretário-geral da CNBB, que comandam os preparativos da visita.

E o papa?
O posicionamento dos bispos ocorre numa hora crítica para a Igreja Católica do Brasil, que se prepara para receber no Rio de Janeiro, em julho, o papa Francisco e milhões de jovens brasileiros e estrangeiros que participarão da Jornada Mundial da Juventude. O evento está confirmado e a vinda do chefe católico não deixa de ser uma preocupação a mais para o Palácio do Planalto e o governador Sérgio Cabral (PMDB).

Preocupação

Responsável pela articulação com movimentos sociais, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, admitiu ontem que o governo está preocupado com a possibilidade de distúrbios durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. "Teremos de estar preparados para a Jornada ocorrer, inclusive, em um clima em que esteja ocorrendo manifestações no país", disse.

Retirada
O Movimento Passe Livre (MPL), que iniciou a mobilização contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo que culminou nas manifestações realizadas em todo o país, anunciou ontem que não vai mais convocar protestos. Na quinta-feira, o MPL abandonou a manifestação porque o PSTU e o PSol foram hostilizados por manifestantes.

Aécio
Outro presidenciável que estava na muda e se posicionou foi o senador mineiro Aécio Neves, presidente do PSDB, que distribuiu nota de solidariedade aos manifestantes. "Há um evidente e justo clamor que une a sociedade por mudanças estruturais na gestão do setor público e é inevitável ver, na raiz dessa insatisfação, uma aguda crítica à corrupção e à impunidade que persistem na base do sistema político, impedindo transformações e agredindo diariamente os brasileiros", disparou.

Marina

A presidenciável Marina Silva, que era cobrada por não aderir às manifestações, ontem, deixou muito clara sua posição: "Ninguém deveria estar surpreso, sabíamos que iria ocorrer. A internet ajuda a mudar tudo, a cultura, os negócios, as comunicações. Por que só a política não seria afetada?", escreveu em sua coluna de ontem na Folha de S.Paulo. "As pessoas não querem ser meras espectadoras, lugar em que foram colocadas pelos partidos que detêm o monopólio da política. Querem ser protagonistas, reconectar-se com a potência transformadora do ato político", disse.

Da viúva
O Governo do Distrito Federal avalia que a Copa das Confederações injetou na economia da capital federal cerca de R$ 22 milhões. Mas os custos do evento, porém, foram de quase R$ 42 milhões

Telhado
Reunião de emergência entre o Comitê Organizador da Copa 2014 e a CBF discutiu o impacto das manifestações no humor dos cartolas mundo afora. José Maria Marin e Marco Polo estão com medo de o Brasil perder a Copa de 2014, o que parecia inimaginável até então. Vários países já estão de olho no evento.

Colaborou Leandro Kleber

O que será que será?

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 21/06/2013
 

As manifestações de ontem, em mais de 100 cidades brasileiras, mesmo com o recuo em relação aos aumentos das passagens em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outros municípios, atingiram um novo patamar simbólico, em Brasília, com o cerco dos manifestantes ao Palácio do Planalto. É a primeira vez que direcionam seus protestos para o poder central.

Ninguém consegue avaliar o que vai acontecer com o movimento, mas, ontem, houve bom senso dos manifestantes ao não tentar invadir a sede do Executivo. O Exército estava pronto para reprimir qualquer tentativa. Já no Itamaraty, elementos encapuzados tentaram invadir e incendiar o prédio projetado por Oscar Niemeyer. A presidente Dilma Rousseff, que hoje deveria estar em Salvador para um encontro com os governadores do Nordeste, cancelou o evento por sugestão do próprio anfitrião, o governador Jaques Wagner. E também a importante viagem que faria ao Japão.

A presidente trabalhou o dia inteiro no Palácio do Planalto e, à tarde, acompanhou de perto o movimento. O vazamento de relatórios secretos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), surpreendido pelas manifestações, porém, revela um certo clima de "barata voa" entre os ministros da Casa. O general José Elito, responsável pela segurança da presidente Dilma Rousseff, foi para a frigideira. Só um assessor graduado da Presidência poderia vazar o documento, numa hora em que o aparato de segurança nunca foi tão necessário.

Tensão no Rio
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (foto), do PMDB, acreditava que poderia esvaziar o Movimento Passe Livre com a redução das passagens. Ontem, a cidade registrou a maior manifestação do país, com uma inédita ocupação da Avenida Presidente Vargas, o que não ocorria desde o comício de encerramento da campanha das Diretas Já, em 1984. Os conflitos mais graves com manifestantes ocorreram justamente nas imediações da Prefeitura do Rio, cuja prédio é jocosamente apelidado de "Piranhão" pelos cariocas. "Desce, Paes, desce", gritavam os manifestantes, que tentaram invadir o edifício e foram reprimidos pela tropa de choque da PM.

Emenda
De autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), a proposta de emenda à Constituição (PEC) que propõe a inclusão do transporte como direito social, voltou a tramitar depois dos protestos do Movimento Passe Livre (MPL). O relator, Beto Albuquerque (PSB-RS), apresentou parecer favorável, e o assunto entrou na pauta de votação da próxima reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Direitos
A Constituição garante os seguintes direitos: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade, proteção à infância e assistência aos desamparados.

Causas
O Anonymous disputa com o Movimento Passe Livre a liderança dos protestos, que viraram uma Babel de grupos organizados nas redes sociais. Postou no YouTube um vídeo-manifesto, visto por mais 1 milhão de pessoas, intitulado As cinco causas: não votação da PEC 37; saída imediata de Renan Calheiros da presidência do Senado Federal; investigação de irregularidades nas obras da Copa; aprovação de lei no Congresso que transforme a corrupção em crime hediondo; e fim do foro privilegiado para autoridades.

Prejuízo
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, calcula em R$ 175 milhões as perdas do orçamento municipal com a redução de tarifas. Um pouco mais do que deixou de arrecadar ao isentar os motoristas da inspeção veicular obrigatória, que rendia aos cofres da administração R$ 150 milhões

Não foi
O deputado José Antonio Reguffe, do PDT-DF, está sendo cobrado por aliados por não ter comparecido às manifestações. Preferiu fazer um discurso na Câmara de apoio ao movimento. "É sensacional, desde que entrei na política, é a melhor coisa que já vi. Mas precisa carrear essa força toda para algo, como, por exemplo, obrigar o Congresso a votar a reforma política", afirmou. Reguffe defende candidaturas avulsas sem filiação partidária, a revogabilidade de mandatos, a instituição do voto facultativo e o limite de uma única reeleição para cargos legislativos.

Não deu
Cerca de 200 militantes petistas, além do MST e da CUT, compareceram ao protesto na Avenida Paulista, seguindo orientação do presidente do PT, Rui Falcão. Ele conclamou sindicalistas e estudantes ligados à legenda a participarem do movimento. Foram, porém, hostilizados pelos manifestantes. O PSTU e o PSol também.

Fazenda
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, divulgou nota desmentindo que tenha sugerido o nome do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é criticado por causa da situação da economia. No mercado, cresce a avaliação de que alguma coisa terá que ser feita para restabelecer a confiança na equipe econômica.

Anistia
A seção brasileira da Anistia Internacional encaminhou hoje cartas ao embaixador da Turquia no Brasil, Durmus Ersin Erçin, e ao ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, protestando contra as violações de direitos humanos naquele país, em decorrência da violência policial contra manifestantes.

Onde mora o perigo

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 20/06/2013
 
Muita discussão ainda vai rolar entre os políticos e os acadêmicos sobre as manifestações que estão ocorrendo em todas as grandes cidades do país, mas a pesquisa do Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada ontem mostra que a insatisfação popular pode estar mais próxima do governo federal do que imaginava o Palácio do Planalto.

A avaliação positiva do governo caiu de 63% para 55%, a aprovação pessoal da presidente Dilma Rousseff foi reduzida, mas continua confortável: passou de 79%, em março, para 71% na pesquisa de junho. O percentual de quem desaprova a presidente subiu de 17% para 25%.

O percentual dos que desaprovam a política de combate à inflação, porém, é preocupante: aumentou 10 pontos percentuais, passando de 47%, em março, para 57%, em junho. Ou seja, o "instinto animal" dos empresários soma-se ao mau humor dos consumidores. É aí que mora o perigo, ainda mais sabendo-se que a pesquisa foi feita antes da onda de manifestações em curso no país.

Social
Além da inflação, a desaprovação do governo nas áreas de saúde (66%), segurança (67%) e educação (51%) forma o caldo de cultura para as demonstrações de insatisfação na sociedade. Também houve piora na avaliação em relação aos impostos. O índice de desaprovação subiu de 60%, em março, para 64%, em junho. O que segura a aprovação do governo na área social é o combate à fome e à pobreza, mesmo com a queda de quatro pontos: 60%. O Ibope ouviu 2.002 pessoas com mais de 16 anos em 142 municípios entre os últimos dias 8 e 11.

Marcha a ré
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e o prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), recuaram ontem e suspenderam o aumento nas tarifas de ônibus e metrô. O preço volta a custar  R$ 3
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), também anunciou a redução da passagem de ônibus: voltou para R$ 2,75

Peixinho
Aluno da elitista Escola Parque da Gávea, o jovem Luiz Lindberg Farias Filho, 17 anos, estreou, na segunda-feira, nas manifestações estudantis. Foi para a Rio Branco em companhia dos colegas secundaristas. É filho do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que assumiu a presidência da UNE aos 21 anos e comandou os cara-pintadas na campanha do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello.

Exceção
O deputado Chico Alencar (foto), do PSol, foi à passeata de segunda-feira, no Rio. No meio da multidão de mais de 100 mil pessoas, foi abordado por manifestantes que exigiam o recolhimento das bandeiras do PSol e repudiavam a presença de partidos na manifestação. "Sou político", explicou. "Para você vamos abrir uma exceção, mas sem bandeira", respondeu um dos líderes da manifestação.

Caldo de galinha
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (foto), estrela da exposição na Câmara que celebrou os 25 anos do PSDB e os 19 anos do Plano Real, advertiu o presidente da legenda, senador Aécio Neves (MG), de que todo cuidado é pouco ao lidar com os protestos que ocorrem no país. FHC avalia que é melhor observar do que tentar faturar o movimento.

Chame o Lula
Nove entre 10 petistas garantem: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua experiência sindical e enorme carisma popular, é a reserva estratégica do partido para lidar com o movimento social em curso no país, principalmente se a situação eleitoral desandar em razão da economia.

Na muda
Secretário-geral da Presidência da República, o ministro Gilberto Carvalho vive um inferno astral no governo. Responsável por administrar os conflitos com os movimentos sociais, só leva bola nas costas desde a crise com os índios.

Agenda
As manifestações de rua não afastarão a presidente Dilma Rousseff das viagens. Amanhã, vai a Salvador para uma reunião com os governadores do Nordeste, no Centro de Convenções, na qual pretende anunciar o Plano Safra para o semiárido.
Colaborou Paulo de Tarso Lyra

Anonymous e violentos

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense - 19/06/2013
 
Dois tipos de manifestantes, entre milhares que foram às ruas, destacam-se na multidão sem rosto que tomou as principais avenidas das capitais do país, com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo: os mascarados do Anonymous e os encapuzados que patrocinaram os atos de vandalismo.

Os primeiros são um "meme" da internet, criado em 2003, que se notabilizou em 2007, no Canadá, por identificar e levar à prisão o pedófilo Chris Forcand. Usam máscaras de Guy Fawkes e formam comunidades descentralizadas na internet, com um cérebro global, cuja atuação vai do "hacktivismo" na rede às manifestações de rua. Marcaram presença, por exemplo, na Primavera Árabe e na ocupação de Wall Street.

Os encapuzados do vandalismo são mais violentos. Há anarquistas exaltados, punks e skinheds. Nas manifestações do Rio de Janeiro, principalmente na tentativa de assalto ao Palácio Tiradentes, os marginais que saquearam agências bancárias no centro também picharam as paredes com os símbolos do Comando Vermelho e do Terceiro Comando.

Três horas
Os policiais que guarneciam o Palácio Tiradentes do Rio de Janeiro não estavam preparados para impedir os atos de vandalismo, seja pelo número de homens, seja pelo equipamento que utilizavam. Nada justifica, entretanto, o tempo que a tropa de choque levou para socorrer os colegas de farda e acabar com o vandalismo.

Bandeiras
À vontade nas primeiras manifestações, militantes do PSTU e do PSol quase foram escorraçados das passeatas de segunda-feira. Foram obrigados a baixar as bandeiras partidárias. Das mais de 65 mil pessoas que protestaram em São Paulo, 84% não têm preferência partidária.

Minguante
O governador Sérgio Cabral (foto), do PMDB, aposta que a candidatura do senador Lindberg Faria (PT-RJ) minguará até o fim do ano. A estratégia é fazer o petista sangrar até não ter mais condições de brigar com o PMDB.

Sampa//  
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, agregou-se à reunião de Lula com Dilma para discutir a situação na cidade. A capital paulista é o melhor cenário para fazer um contraponto com o PSDB, que governa o estado.

 Fornalha
O senador Lindberg Faria (PT-RJ) enfrenta notícias ruins. Além da quebra dos sigilos bancário e fiscal pelo STF, ele responde a 18 ações judiciais da época que governou Nova Iguaçu e tenta reverter decisão da Justiça fluminense que o tornou inelegível, em dezembro de 2012. Dos 11 prefeitos petistas eleitos no estado, 11 consideram o lançamento da sua candidatura precipitado.

Hit viral
Com música do Rappa, na voz de Falcão, a campanha da Fiat para surfar a Copa das Confederações será retirada do ar.
A paródia do jingle, que agora é viral, de propaganda do Movimento Passe Livre, com mais de 3 milhões de acessos

Roubos/ O Exército, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária, a Secretária de Segurança Pública e o Ministério Público foram mobilizados pelo governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), para combater a "saidinha bancária", roubo que virou praga em Salvador.

Engenho/ Presidente do TCU, Augusto Nardes comporá a comissão julgadora do 10º Prêmio Engenho de Comunicação. O ministro do STF Marco Aurélio Mello presidirá o grupo.