As manifestações de ontem, em mais de 100 cidades brasileiras, mesmo
com o recuo em relação aos aumentos das passagens em São Paulo, no Rio
de Janeiro e em outros municípios, atingiram um novo patamar
simbólico, em Brasília, com o cerco dos manifestantes ao Palácio do
Planalto. É a primeira vez que direcionam seus protestos para o poder
central.
Ninguém consegue avaliar o que vai acontecer com o movimento, mas,
ontem, houve bom senso dos manifestantes ao não tentar invadir a sede
do Executivo. O Exército estava pronto para reprimir qualquer
tentativa. Já no Itamaraty, elementos encapuzados tentaram invadir e
incendiar o prédio projetado por Oscar Niemeyer. A presidente Dilma
Rousseff, que hoje deveria estar em Salvador para um encontro com os
governadores do Nordeste, cancelou o evento por sugestão do próprio
anfitrião, o governador Jaques Wagner. E também a importante viagem que
faria ao Japão.
A presidente trabalhou o dia inteiro no Palácio do Planalto e, à
tarde, acompanhou de perto o movimento. O vazamento de relatórios
secretos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), surpreendido
pelas manifestações, porém, revela um certo clima de "barata voa" entre
os ministros da Casa. O general José Elito, responsável pela segurança
da presidente Dilma Rousseff, foi para a frigideira. Só um assessor
graduado da Presidência poderia vazar o documento, numa hora em que o
aparato de segurança nunca foi tão necessário.
Tensão no Rio
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo
Paes (foto), do PMDB, acreditava que poderia esvaziar o Movimento
Passe Livre com a redução das passagens. Ontem, a cidade registrou a
maior manifestação do país, com uma inédita ocupação da Avenida
Presidente Vargas, o que não ocorria desde o comício de encerramento da
campanha das Diretas Já, em 1984. Os conflitos mais graves com
manifestantes ocorreram justamente nas imediações da Prefeitura do Rio,
cuja prédio é jocosamente apelidado de "Piranhão" pelos cariocas.
"Desce, Paes, desce", gritavam os manifestantes, que tentaram invadir o
edifício e foram reprimidos pela tropa de choque da PM.
Emenda
De autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), a proposta de emenda à
Constituição (PEC) que propõe a inclusão do transporte como direito
social, voltou a tramitar depois dos protestos do Movimento Passe Livre
(MPL). O relator, Beto Albuquerque (PSB-RS), apresentou parecer
favorável, e o assunto entrou na pauta de votação da próxima reunião da
Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Direitos
A Constituição garante os seguintes direitos: educação, saúde,
alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social,
proteção à maternidade, proteção à infância e assistência aos
desamparados.
Causas
O Anonymous disputa com o Movimento Passe Livre a liderança dos
protestos, que viraram uma Babel de grupos organizados nas redes
sociais. Postou no YouTube um vídeo-manifesto, visto por mais 1 milhão
de pessoas, intitulado As cinco causas: não votação da PEC 37; saída
imediata de Renan Calheiros da presidência do Senado Federal;
investigação de irregularidades nas obras da Copa; aprovação de lei no
Congresso que transforme a corrupção em crime hediondo; e fim do foro
privilegiado para autoridades.
Prejuízo
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, calcula em R$ 175 milhões as
perdas do orçamento municipal com a redução de tarifas. Um pouco mais
do que deixou de arrecadar ao isentar os motoristas da inspeção
veicular obrigatória, que rendia aos cofres da administração R$ 150
milhões
Não foi
O deputado José Antonio Reguffe, do PDT-DF, está sendo cobrado por aliados por não ter
comparecido às manifestações. Preferiu fazer um discurso na Câmara de
apoio ao movimento. "É sensacional, desde que entrei na política, é a
melhor coisa que já vi. Mas precisa carrear essa força toda para algo,
como, por exemplo, obrigar o Congresso a votar a reforma política",
afirmou. Reguffe defende candidaturas avulsas sem filiação partidária, a
revogabilidade de mandatos, a instituição do voto facultativo e o
limite de uma única reeleição para cargos legislativos.
Não deu
Cerca de 200 militantes petistas, além do MST e da CUT, compareceram ao
protesto na Avenida Paulista, seguindo orientação do presidente do PT,
Rui Falcão. Ele conclamou sindicalistas e estudantes ligados à legenda
a participarem do movimento. Foram, porém, hostilizados pelos
manifestantes. O PSTU e o PSol também.
Fazenda
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ontem, divulgou nota
desmentindo que tenha sugerido o nome do ex-presidente do Banco Central
Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda. O ministro da
Fazenda, Guido Mantega, é criticado por causa da situação da economia.
No mercado, cresce a avaliação de que alguma coisa terá que ser feita
para restabelecer a confiança na equipe econômica.
Anistia
A seção brasileira da Anistia Internacional encaminhou hoje cartas ao
embaixador da Turquia no Brasil, Durmus Ersin Erçin, e ao ministro das
Relações Exteriores, Antonio Patriota, protestando contra as violações
de direitos humanos naquele país, em decorrência da violência policial
contra manifestantes.
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